Voltar a Kano…

Voltar a Kano e a passar uns maus bocados…

Meia hora depois de tomar a resolução de voltar a Kano (800 Km) buscar as peças que necessitávamos para reparar o carro, já ia a caminho numa belíssima Station, na companhia de um comerciante libanês, seu proprietário que, afortunadamente, ali tinha passado para tomar uma cerveja.

O seu destino era Maradi, na fronteira com a Nigéria, a 500 quilómetros. Até ali foi tudo muito bem… Chegámos às três e meia da manhã. Meia hora depois, apanhava um camião meio desconjuntado, que se dirigia para a Nigéria, conduzido por um indígena.

Porém, como não nos compreendêssemos – ele só falava a língua nativa – foi erradamente que tomei o camião. Resultado: fui parar a uma pequena povoação na Nigéria, a 100 quilómetros dali, mas desviada uns 25 quilómetros da estrada que conduz a Kano e onde raramente passava um veículo. Consequentemente, tive de fazer esse trajecto a pé… Eram sete horas da manhã e não tinha dormido um minuto durante toda a noite.

Paciência… Tive de me meter ao caminho e, às treze horas chegava ao cruzamento, onde tive que esperar duas horas antes que passasse um camião, com uma espécie de gaiola, cheia de pretos, na parte superior. Tomei lugar na cabina, ao lado do condutor. O que eu fui fazer! Era um camião de transporte colectivo para indígenas: por cada quinze minutos que andava, estava parado meia hora…

Às 21.30 horas chegava a Kano, meio maluco com fome, sono e fio. Para agravar a minha triste situação, o camião deixou-me a uns quatro quilómetros do hotel, numa cidade onde nunca consegui ver um táxi. Só me faltou chorar…

Passava um carro celular da polícia. Pedi uma boleia. Deram-ma. Atrás de mim, quatro indígenas algemados, aparentemente nada satisfeitos com a sua sorte. Eu também não. Distribui cigarros pelos policias e pelos presos. Conduziram-me ao hotel. Que bom!

Ao chegar finalmente ao já meu conhecido e simpático Hotel de France, fui cair em cheio numa festa de despedida: uns franceses homenageavam um compatriota que regressava a França. Convidaram-me e ali passámos umas horas alegremente. À meia noite, quando, eufórico, me fui deitar, caí imediatamente num sono de chumbo, do qual despertei no dia seguinte às 10 horas.

Domingo… De nada se podia tratar. Segunda-feira, de manhã, já munido das preciosas peças necessárias à reparação, fui “largado” na estrada, a 5 quilómetros de Kano, por uma forguneta da firma representante da marca.

Dez minutos depois, já estava numa pequena “Station”, ao lado de um missionário, durante uns 30 quilómetros; a seguir, foi a vez de um camião, com o seu motorista e passageiro árabe, que deveria ser um figurão de posição, pois quase todos os indígenas se prostravam à sua passagem. Como, ao fim de uns 60 quilómetros tomasse um desvio, lá fiquei eu, mais uma vez abandonado na estrada.

A seguir chegou a vez de uma furgoneta pertencente a uma fábrica de tabaco. Instalei-me o mais confortávelmente possível, ao lado do condutor, dizendo para comigo que daquela vez é que ia fazer uma grande tirada sem paragens, quando a furgoneta estacou… uns 400 metros adiante! Tratava-se de um indígena que queria comprar um maço de cigarros. Um quilómetro depois, chega a vez de dois novos clientes e assim sucessivamente, duas a três paragens por quilómetro. Quando chegámos à primeira povoação foi o bom e o bonito: o meu companheiro de viagem, lá das profundezas do veículo, a abarrotar de maços de cigarros, rapa de um badalo e vai de começar a agitá-lo freneticamente. Acto contínuo, rodeia-nos numerosa turba, querendo todos ser atendidos ao mesmo tempo. Até eu tive de ajudar à distribuição. E não havia meio de se esgotarem os malditos cigarros!

Ao fim de interminável meia-hora, metemo-nos novamente à estrada. Mais clientes e mais paragens. Ainda aguentei até à próxima povoação, mas aí, quando o meu companheiro lança, de novo, mão da sineta, mal se aproximaram as primeiras vagas de presumíveis consumidores, esgueirei-me sorrateiramente para a estrada.

É assim, até Katsina, quase na fronteira da Nigéria usei, como meio de transporte, mais três camiões!
Aí esperei em vão durante oito horas seguidas, sendo por fim obrigado a ir dormir na rest-house mais próxima, a 8 quilómetros, para onde me desloquei de bicicleta, amaldiçoando a minha triste sorte. No dia seguinte, fiz o mesmo trajecto, de regresso… a pé, pois tinha combinado deixar a bicicleta na rest-house.

Finalmente, já na estrada, lá consegui arranjar lugar num velho camião asmático, sem mise-em-marche, sem claxon, sem faróis, cheio de guitas por todos os lados, um inconcebível conjunto de ferragens, mas que ainda conseguia a inacreditável façanha de se locomover pelos seus próprios meios a uma velocidade alucinante de 30 quilómetros! Oitenta quilómetros depois, já perto de Maradi, no Niger, um furo. Bonito!… Como não tinham roda sobressalente, era trabalho para mais de uma hora.

Ao fim de meia hora, com grande fragor, pára ao nosso lado um camião tanque duplo, um monstro de 24 toneladas, da Shell. Ia para Niamey, capital do Niger, passando por Dogondoutchi, que era o meu destino. Maravilhoso!
Subi para o lugar ao lado do motorista, com a sensação de ir instalado no primeiro andar de um autocarro. Nem eu sabia no que me ia meter!

Toda aquela imensa mole de 24 toneladas, deslocava-se com enorme fragor, a uma velocidade que também não ultrapassava os 30 quilómetros horários. Ia sentado sobre o ferro, todo inteiriçado, rígido, pois não me podia encostar, porque havia uma complicada aparelhagem atrás de mim. Em Maradi, o condutor parou para almoçar. Eu também.

Quando acabei, fui imediatamente para a estrada, com a intenção de arranjar outro veículo que me transportasse. Andei uma dúzia de quilómetros e, quando já estava um pouco fatigado, estendi-me confortavelmente à sombra de frondosa árvore e esperei pacientemente. Nisto tudo decorreram umas cinco horas sem que passasse um único veículo. Finalmente, ao longe, uma nuvem de poeira. Coloquei-me bem ao meio da estrada… e quase me ia dando uma coisa quando vejo o meu velho conhecido camião tanque da Shell! Bem, era melhor do que nada.

Resignadamente, lá trepei de novo, e aí vamos nós a passo de tartaruga, aos pulos dentro da cabina, à mercê do impedioso corrugated (profundos sulcos paralelos na estrada, fenómeno muito vulgar nas regiões desérticas), que se fazia sentir fortemente naquela estrada, quase me desintegrando, e com a sensação de estar metido numa fornalha, pois, além do calor intensíssimo que se fazia sentir, ainda por cima, tinha ao meu lado, dentro da cabina, o prolongamento do monstruoso motor do camião.

Dez horas depois, às três da madrugada, chegava a Bini-N´Konni, meio surdo, todo moído e meio morto de fadiga. Aí passei no “acampamento”, assim são chamadas umas casas, mantidas pelo Estado, para os viajantes pernoitarem. Não têm pessoal, nem dispõem de electricidade. As pessoas entram e instalam-se. Como é necessário levarem-se roupas para a cama e eu nada levava, tive de dormir, tapado apenas pelo mosquiteiro, à mercê de um frio de rachar. Esta região já sofre a influência do Saará: clima desértico, com grandes amplitudes térmicas, o que equivale a dizer dias muito quentes e noite gélidas.

No dia seguinte, terminei de maneira airosa os restantes 145 quilómetros que me separavam de Dogondoutchi: empoleirado na parte traseira de um jeep aberto, entre uma gaiola com um papagaio, dois tuaregues, uma indígena seminua e um monte de cabaças…

Do Livro “Uma Aventura em África”


(1ª Volta à África em Automóvel)


Fernando Laidley