Picos da Europa

O nosso mundo é feito de modas. As modas vão e vêm. E o que acontece quando vamos na onda do que está na moda e nos apaixonamos? Agora parece que está na moda as actividades nos grandes espaços, subir montanhas, escalar paredes, descer rios, passeios na neve, enfim, desfrutar a mãe natureza.

Quando isto acontece aos trinta anos a sensação é de frustração. Se eu tivesse começado a fazer isto há dez anos atrás… Calma, há vida depois dos trinta e é sempre uma boa altura para se começar a fazer aquilo de que se gosta.

Foi neste verão já no final de Setembro que após uns dias de férias em casa de férias surgiu a ideia. E se fôssemos aos Picos da Europa? Arrancámos sem grandes objectivos e sem nenhuma preparação, tínhamos apenas quatro dias e a ideia era ir ver os Picos.

Fizemo-nos ao caminho já a meio da manhã e a viagem foi dura. Seguimos pela A1, saímos para Braga, e depois em direcção a Chaves, quase até Espanha. Em Espanha seguimos pelas Auto-vias até à bonita capital Asturiana, cidade de Oviedo.

A terça-feira começou cedo em direcção a Cangas de Onis, já no Parque Nacional dos Picos da Europa. Até aqui estava a ser uma viagem como algumas outras, foi em Cangas de Onis que comprámos um livro-guia sobre os Picos e começámos a perceber o fantástico mundo dos Picos da Europa. Seguimos para Covadonga em direcção aos lagos de La Ercina e Enol. O caminho até aos lagos é fantástico, como diz um amigo nosso as vacas tentam afiar os cornos nos carros que passam, o que apesar de engraçado não deixa de ser preocupante. Depois de um longo caminho entre curvas e vacas chegamos ao primeiro lago, o lago Enol. Os Picos começam a surgir em todo o seu esplendor. No lago Enol percebemos que poderíamos ir a caminhar até ao La Ercina, mas optámos por seguir continuar de carro. Os Picos não estavam ainda enraizados. Chegados ao parque de estacionamento do lago La Ercina, tudo pareceu muito óbvio, trocámos os ténis pelas botas, colocámos mochilas às costas e aí fomos nós.

Visitámos as minas de minério e seguimos até à margem do lago La Ercina, olhámos para um monte e decidimos subi-lo, era um pequeno monte mas lá em cima o cheiro era diferente. Começámos a reparar nas rotas, devidamente identificadas, rotas grandes, rotas pequenas, mas nenhuma era circular. Se houvessem rotas circulares ainda fazíamos alguma.

O passeio continuou, acabámos por caminhar até ao Enol e quando demos por nós já tínhamos feito uma grande parte de algumas rotas. A Fabada Asturiana foi a paragem seguinte. Depois de uma caminhada, apesar de pequena, a fabada, uma comida perto da nossa feijoada, parece mesmo a única comida possível para restabelecer as forças.

Seguimos depois caminho até ao santuário de Covadonga. Construído na rocha, é dos mais bonitos que já vi.

De acordo com o nosso livro guia, Fuente De parecia um bom local para acampar.

O caminho de Covadonga para Fuente De, pela zona de La Ermida, é lindo e sempre preparado para os caminheiros. Uma ideia não saía na nossa cabeça: isto era bom era a pé!

Chegámos a Fuente De ao final do dia, uma imensa parede de rocha surge à nossa frente. Habituados a ver montanhas ditas “normais”, aquelas paredes quase verticais pareciam irreais. Ainda nessa tarde, Um teleférico leva-nos numa subida vertiginosa até os 2000 metros de altura. Lá em cima ficamos em El Cable. Lá em cima a vista perde-se e ficamos rodeados pelos Picos da Europa. Num breve passeio cruzámo-nos com dezenas de caminheiros que voltavam ao fim da tarde. Mais uma vez a ideia surge, fazer uma caminhada é que era giro. Estava a fazer-se noite e tínhamos que ir à procura do parque. O parque é muito perto da base, em Fuente De, e depois de instalados olhamos à volta e continuávamos rodeados pelas paredes de pedra.

Havia que decidir o percurso do dia seguinte. Continuávamos de carro para onde? Mais uma vez consulto o meu livro guia e a rota que parte de El Cable não nos sai da cabeça. A decisão está tomada, o dia seguinte será de caminhada.

Depois de devidamente apetrechados com as nossas sandes de jambon e queso  fizemos novamente a ascensão no teleférico, até El Cable.

Lá em cima começou a aventura. No início vêem-se prados verdes do lado esquerdo e rebanhos de ovelhas que são guardados por cães. Não se vêem pastores. Os picos à nossa direita crescem abruptamente, entre eles o Old Crag de 2.613 metros. Até aí o trilho é largo e de bom piso.

Após essa primeira fase da caminhada, conhecida como La Vueltona, começamos a subida em terreno de pedras soltas e o declive começa a sentir-se. A subida em zigue-zague vai ficando cada vez mais íngreme e o bichinho começa a instalar-se. O desafio da subida, o cansaço de quem não está habituado a terrenos hostis, a luta é constante, parar ou não parar, o desafio de continuar sempre.

Passamos o desvio para a Cabana Verónica (refúgio de montanha). O destino era a Torre de los Horcados Rojos (2.506 metros) e nessa altura já não tinha noção do que ainda faltava.

A subida dos últimos duzentos metros foi feita lentamente, um pé atrás do outro, mas sempre sem descansar. O descanso deveria ser feito no cume. Com algumas zonas feitas quase de gatas uma vez que a determinada altura falhámos o trilho, a chegada ao cume for feita com a alegria interior de quem venceu o seu pequeno desafio. Ao longe avista-se o Naranjo com a sua encosta quase vertical. Aquela paisagem cinzenta, quase lunar, conquistou-me.

Quando estávamos no cume chega um caminheiro com o seu cocker. Vinham de Fuente De porque o cão não pode andar no teleférico. Por isso, para os mais corajosos, podem começar a caminhada da base da parede de pedra.

Depois de uma merecida refeição de sandes e de desfrutar o silêncio e o cheiro daquele “topo do mundo” iniciámos a descida. Os joelhos queixam-se, mas a vontade de descer é tão grande como a vontade de subir. A caminhada estava a ficar viciante. No caminho de regresso fomos à famosa Cabana Verónica. A Cabana Verónica é a cúpula de um antigo porta?aviões americano, levado até lá a cima às costas peça por peça.

Seguimos o caminho de regresso e à medida que nos aproximamos do El Cable uma sensação de “soube a pouco” começou a apoderar-se de mim. Então agora vamos subir o quê?

Regressados à tenda o cansaço foi chegando lentamente mas a minha única pena era termos de voltar para Lisboa no dia seguinte.

Foi assim a minha aventura nos Picos da Europa. O bicho nasceu e agora o problema é lidar com a vontade de partir todos os fins de semana à procura de um mundo que está ainda por descobrir…Afinal de contas há vida depois dos 30.


Teresa MoutinhoÚltima actualização ( quarta-feira, 30 de novembro de 2005 )