Marinheiros da areia…

Marinheiros da areia: diário de uma expedição por África

Dia 1 – 04-09-2004
Seixal – 100km a sul de Saragoça (813 km)
“The time to hesitate is through”
Jim Morrison

A partida foi algo atribulada depois de vários dias, ou deverei dizer meses, a preparar a expedição. a chuva complica o carregamento do jipe, a máquina fotográfica digital não queria ligar devido à humidade excessiva que pairava no ar no princípio de Setembro e o pneu traseiro do lado direito ficou em baixo (um pequeno prenuncio do martírio que se seguiria!).
Há alguma tensão no ar; não é de animo leve que se dá à ignição de um jipe para iniciar uma viagem de quase 20000 quilómetros, para atravessar o deserto do Saara em dois sentidos.


Quem já participou em expedições reconhecerá nestas palavras aquele nervoso miudinho que se apodera dos viajantes nos instantes que antecedem a partida. E não é para menos; afinal estávamos prestes a iniciar uma expedição científica que iria atravessar a Tunísia, a Líbia, o Níger, o Burkina-Faso, o Gana, o Mali, o Senegal, a Mauritânia, o Saara Ocidental e Marrocos. E tudo isto apenas com um jipe, um Nissan Patrol 2.8D de 1995 e já com 190.000km no conta-quilómetros, e duas pessoas, biólogos do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO/UP).


Os objectivos desta expedição visavam recolher informações que nos permitissem compreender melhor a história evolutiva das Lagartixas-de-dedos-serreados, género Acanthodactylus. Estas lagartixas ocorrem na Península Ibérica, África a norte da faixa equatorial, e desde o Médio Oriente até ao extremo ocidental da Índia. No entanto, a África Ocidental constitui uma área notável para se estudar estas lagartixas, uma vez que metade do número total de espécies que se conhecem (36 espécies) ocorrem nesta região. Para as estudarmos, tínhamos que as conseguir capturar, para depois tomar diversas medidas (como o comprimento do corpo ou da cabeça), quantificar certos tipos de escamas (como o número de escamas ventrais ou supralabiais) e recolher uma amostra de tecido (a ponta da cauda, a qual regenera ao fim de algo tempo) para análises genéticas. As lagartixas seriam ainda detalhadamente fotografadas, 10 fotos por indivíduo, por forma a registar os padrões de coloração e outras características morfológicas. Com estes dados esperávamos poder compreender de que forma é que os fenómenos paleontológicos na Península Ibérica e Norte de África (as diferentes configurações da linha de costa do Mediterrâneo e as flutuações climáticas que o deserto do Saara sofreu ao longo do tempo) afectaram a evolução destas lagartixas e originaram os padrões de riqueza de espécies que actualmente observamos.

O tempo para as hesitações tinha efectivamente terminado. Despedimo-nos dos familiares e rumamos ao sul. Demasiado ao sul!. Na A2 esquecemo-nos de virar para Évora e seguimos na direcção do Algarve. Deve ter sido inconscientemente, mas sempre que fui para África foi via Marrocos, pelo que liguei o piloto-automático e provavelmente só pararia em Algeciras. Lá corrigimos o problema, saindo em Alcácer do Sal e retomando a A6 por atalhos. Viagem tranquila, sempre por auto-estrada, através das planícies alentejanas e extremadurenses. Fizemos apenas três curtas paragens para comer e reabastecer.
O peso que transportamos faz-se notar e o jipe segue lentamente sempre que apanhamos uma subida. Afinal levamos connosco uma parafernália de utensílios e peças sobresselentes para a expedição: material de campismo (tendas, sacos-cama, botija de gás, lanternas), 10 jerrycans de 20l para o gasóleo, 4 jerrycans de 20l para a água, equipamento de desatascanço (pranchas, hi-lift, pá, enxada, compressor de ar), dois pneus sobresselentes, várias peças e óleos sobresselentes (correias, bomba de água, filtros, juntas, amortecedores, óleo do motor, caixa, travões, etc., etc.), várias caixas com produtos alimentares que julgamos ser difícil encontrar nas aldeias do deserto (como chocolate para o leite ou cereais), equipamento para cozinhar, equipamento para o trabalho científico que iríamos desenvolver, livros científicos, computador portátil, equipamento de navegação (GPS e mapas), equipamento de emergência (telefone via satélite e uma farmácia diversificada) e, finalmente, a nossa bagagem pessoal. Quando levássemos todos os jerrycans cheios, estimo que transportaríamos uns 900kg de carga.
A auto-estrada convida à introspecção e os sentimentos que nos atravessam são indescritíveis: ansiedade, curiosidade, receio, mas sobretudo um grande desejo de chegar a Tunis e finalmente dar início à viagem. As horas passam-se, os quilómetros também, e o cansaço vai-se instalando. Cerca de 800km feitos de jipe proporcionam uma noite bem dormida e sem insónias. Mesmo que seja à beira da estrada nacional, a caminho de Saragoça!

Dia 2 – 05-09-2004
100km a sul de Saragoça – Cassis (Marselha)
991 km

Dia longo, muito longo, com 12 horas de condução a uma média de 90 km/h. Atravessamos os planaltos rasgados por gargantas de Soria e depois descermos para os bosques de pinheiro-manso do litoral Mediterrânico do norte da Catalunha e sul da França. As estações de serviço na auto-estrada estão apinhadas de veraneantes em busca dos últimos dias de sol de um Verão chocho.
Chegada a Marselha já de noite. Cidade recortada por inúmeras e confusas vias rápidas num ambiente muito industrial. É muito complicado encontrar um parque de campismo aberto; tentamos o de Gimenoz mas estava já fechado. Finalmente lá nos deixam entrar num pequeno parque de campismo em Cassis. Dormida à 1:00h da manhã em cansaço absoluto.

Dia 3 – 06-09-2004
Cassis (Marselha) – Cassis (Marselha)
94 km

Embora tivesse-mos bilhete de barco marcado para o próximo dia, como chegamos a Marselha um dia antes do que contávamos, acabamos por sair de manhã para tentar apanhar o barco desse dia. O trânsito matinal muito complicado e as inúmeras vias rápidas de Marselha fizeram-nos perder tempo e impedir que apanhasse-mos o barco. A impressão da noite anterior confirma-se à luz do dia: Marselha está bastante degradada e abandonada, e o ambiente é muito industrial. Apenas a zona da Marina velha, o Vieux Port, conserva o traçado e a beleza própria de uma cidade do Mediterrânico.


Regressamos a Cassis onde aproveitamos a tarde para passear pela vila. Terra típica da Reviera francesa, muito arranjada e limpa com dezenas de infra-estruturas turísticas e uma fauna desejosa de sol e praia. Todos os metros quadrados de terrenos estão ocupados por vivendas, hotéis, casinos e lojas. Faz lembrar o Algarve mas devidamente planeado, e por isso, com muito mais bom-gosto. Fim de tarde numa falésia a rever pormenores no jipe e a ler alguns artigos científicos sobre lagartixas. Voltamos ao parque de campismo para mais uma noite de espera.

Dia 4 – 07-09-2004
Cassis (Marselha) – Mediterrânico (barco)
33 km

Desta vez saímos bem cedo de Cassis para evitar o trânsito matinal. Chegamos ao porto de Marselha às 9:00h onde ficamos numa fila com mais uns 20 carros à espera. São carros de matrícula francesa de emigrantes tunisinos que ao regressarem a casa aproveitam para encher todos os espaços do carro com caixas e caixotes, televisões, frigoríficos, cobertores e edredões, bicicletas, etc., etc. O tempo passa, a espera arrasta-se e as horas tardam até finalmente embarcarmos. A partida só se dá por volta das 15:00h. Nessa altura ficamos a saber que só deixaríamos o porto duas horas mais tarde devido à partida nessa mesma tarde da regata America’s Cup do porto de Marselha.
O barco é descomunal!


Tem 10 pisos, sendo que dois são garagens para os carros. Corredores enormes, átrios espelhados e luminosos, restaurante, discoteca, piscina, etc.


Os motores são abissais e as oito chaminés que se erguem alguns metros acima do convés são prova disso mesmo.
Vista do mar, Marselha permanece industrial, com dezenas de contentores, guindastes, camiões TIR e fábricas junto ao mar. Salvam-se as imponentes falésias que envolvem a cidade, por vezes com dezenas de metros de altura .


Aproveitamos o resto de dia para ler e descansar. Amanhã entramos em África. Só agora a aventura vai começar!

Dia 5 – 08-09-2004
Mediterrânico (barco) – Raf-Raf /Tunísia
69 km

Despertar sonolento seguido de pequeno-almoço ventoso junto à piscina. À nossa frente, o mar aberto permite uma viagem tranquila com ondas baixas. Seguimos lentamente, a 30-40 km/h, daí que cheguemos a Tunis só às 16:00h. Aproveitamos os últimos momentos de descontracção, antes de pisar solo africano e enfrentar a primeira das muitas fronteiras que iríamos cruzar.
E de facto não ficamos desapontados! As formalidades alfandegárias para a entrada com um carro na Tunísia são um horror. Primeiro implicam com o livrete e título de registo de propriedade do carro. Estão habituados à Carte Gris, documento que, muito sabiamente, reúne os dados acima descritos num único papel. Não lhes cabia na cabeça que em Portugal houvesse dois documentos e que estavam conectados por aqueles pequenos caracteres que diziam “Matrícula”. Depois veio o GPS; tínhamos que ter uma autorização especial para poder circular na Tunísia com um GPS! OK, nada de especial, era só obter a autorização. Mas claro que não; o responsável pela emissão das autorizações estava em parte incerta e ninguém parecia saber dele. Segue-se mais 1 hora de penosa espera até que o digno funcionário apareceu e a respectiva autorização foi emitida. Entretanto consegui a proeza de destruir um toldo que fazia sombra a um guichet da polícia. Foi com a grade do jipe, dei-lhe um toque e simplesmente arranquei uma das extremidade do toldo da parede. Após este contra-tempo seguiu-se a inspecção ao jipe: o que está naquela caixa?; o que contém este saco?; para que servem estas canas?; as peças sobresselentes do jipe são para vender?. Às perguntas insistentes respondemos com calma, até que o zeloso funcionário se deu por satisfeito. Menor sorte tinham os viajantes de nacionalidade tunisina: a estes os guardas alfandegários obrigavam a retirar toda a bagagem do carro e a abrir todas as caixas e sacos, para poderem inspeccionar até ao mais ínfimo pormenor. Mais tarde, no Níger, fiquei a saber que o proprietário da agência de turismo que tínhamos contratado já tinha ficado sem um GPS nesta fronteira. Depois de terminada a inspecção lá podemos seguir. Arrancamos, saímos do porto e finalmente respiramos de alívio: estamos finalmente em África!!
Dirigimo-nos para Tunis para apanhar a hora de ponta, ziguezagueando entre os carros. A cidade é moderna, limpa e bem arranjada, aliás como toda a Tunísia. Seguimos para a actual e bem conservada auto-estrada que liga a Bizerte, onde vemos uma brigada de trânsito local deslocar-se num B.M.W. de topo de gama. É assim a Tunísia, limpa e arranjada, moderna e cosmopolita. Mesmo o trânsito, embora confuso, não chega aos níveis caóticos que caracterizam as metrópoles africanas. Aliás a maioria das pessoas veste-se com roupas ocidentais sendo relativamente raro observar as tradicionais djellabas.
Acabamos por dormir à beira de uma pequena estrada, a caminho de Raf-Raf.

Dia 6 – 09-09-2004
Raf-Raf – Cabo Serrat
165 km

Amanhecer com neblina que se dissipou num par de horas. Passamos a manhã na praia de Raf-Raf à procura de lagartixas, mas não conseguimos encontrar nada. As dunas estão muito destruídas, com casas e plantações de Acácias. Acabamos por desistir já com alguma apreensão: primeiro local em que procuramos lagartixas não encontramos!

Mudamos de praia e de sorte: seguíamos por uma pista junto à falésia, quando uma pequena lagartixa se atravessa no caminho. Paragem brusca. Poucos minutos depois, e após muitas pedras levantadas, já tínhamos capturado duas lagartixas.


São Acanthodactylus blanci, um endemismo do norte da Tunísia e da Argélia. Os seus parentes mais próximos habitam a Península Ibérica, pelo que tínhamos na mão um primo das nossas lagartixas. Finalmente o trabalho começa a correr bem!!
Aproveitamos o intenso calor que se fazia sentir durante a tarde para nos deslocarmos para oeste ao longo da costa. Centenas de hectares de campos agrícolas de sequeiro entrecortados por pequenos eucaliptais marcam a paisagem. A paisagem faz lembrar uma qualquer planície do Baixo Alentejo. Também aqui são notórios os efeitos da sobre-exploração dos solos para fins agrícolas e produção florestal.
A comida é saborosa e muito bem confeccionada e o gasóleo mais barato do que em Portugal. Simpático este país! Acampamos numa pequena planície de aluvião junto a uma praia .

Dia 7 – 10-09-2004
Cabo Serrat – Noroeste de Nefza
133 km

Manhã nas dunas costeiras à procura de lagartixas. Vimos muitos rastos mas poucos indivíduos. A partir das 11:00h da manhã faz muito calor, pelo que a actividade parece restringida às primeiras horas do dia. Mudamo-nos para outra praia mas continua o mesmo problema: muitos rastos na areia mas poucos indivíduos observados. Aproveitamos para tomar banho na praia. Tarde a prospectar num pinhal, mas nada de lagartixas. O dia passa e acabamos por fazer um percurso nocturno à procura de morcegos com um detector de ultra-sons. Dormida no pinhal.

Dia 8 – 11-09-2004
Noroeste de Nefza – Tajerouine (sul de Le Kef)
222 km

Manhã novamente na praia à procura de lagartixas, mas nada de novo. O desespero instala-se e decidimos abandonar a praia para começar a prospectar nos pinhais litorais. Quando nos deslocamos vejo uma lagartixa a cruzar a estrada e a refugiar-se num tronco de pinheiro. Paragem brusca e nem queremos acreditar. Embora o habitat estivesse fortemente alterado e perturbado (era constituído por tocos de pinheiro cortados de reduzidas dimensões e sem vegetação arbórea ou arbustiva) viam-se dezenas de lagartixas a correr de um lado para o outro, para se esconderem em pequenos abrigos que escavavam na base dos tocos de pinheiro. Sistema simples mas muito eficaz, pois com uma corrida rápida conseguiam um abrigo bastante seguro. Estas lagartixas são diferentes das anteriores, são Acanthodactylus (maculatus) mechriguensis e com a ajuda de vários miúdos apanhamos cinco rapidamente. Eles utilizam uma técnica muito eficaz para os capturar: escavam com um pequeno pau o buraco onde a lagartixa se escondeu até a obrigar a sair. A manhã está salva. Medimos as lagartixas, fazemos as fotografias, colhemos uma amostra da cauda e partimos. Já temos amostras da costa mediterrânica da Tunísia, pelo que partimos rumo ao sul junto à fronteira com a Argélia Atravessamos extensas planícies agrícolas, essencialmente de sequeiro. Também aqui os solos esqueléticos e sobre-explorados marcam presença e recordam-nos o Alentejo. Até passamos por uma cidade de nome Beja…
Acampamento junto à estrada nacional, numa pequena elevação que nos protegia do ruído dos carros e camiões.

Dia 9 – 12-09-2004
Tajerouine (sul de Le Kef) – Tozeur
323 km

Manhã passada junto à fronteira com a Argélia. Nota-se maior actividade militar com postos de controle e polícias nos principais cruzamentos. Prospectamos num vale de um rio onde encontramos cobras-de-água e algumas outras espécies de lagartixas como Ophisops occidentalis e Mesalina olivieri. Deixamos esta área para viajamos para sul. A salpicar a paisagem encontramos vestígios romanos, como aquedutos e fontes, que demonstram a posição estratégia deste país e o interesse que sempre despertou junto de outros povos.

Entretanto a paisagem mudou, as pequenas montanhas dão agora lugar a vastas estepes.

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Mais uma paragem e encontramos Acanthodactylus boskianus, sobretudo recém-nascidos.

Estamos no final do Verão, no momento em que o desenvolvimento embrionário terminou e as posturas acabaram de eclodir. Dezenas de pequenas lagartixas de cauda vermelha correm de arbusto em arbusto em busca de refúgio. Mas facilmente capturamos uma meia dúzia.
O dia está a terminar e chegamos a Tozeur, a Meca do turismo de deserto para os ocidentais. Na cidade abundam as ofertas de alojamento e restaurantes. Nota-se um elevado nível de desenvolvimento, com várias farmácias e bancos, mas também uma notável subida no preço dos bens. Com tanta oferta, rapidamente encontramos um parque de campismo e um excelente restaurante.

Dia 10 – 13-09-2004
Tozeur – Douz
241 km

Após um banho e dormida reconfortantes partimos para as margens do Chott el Djerid em busca de lagartixas. Esta depressão salina, com uma extensão máxima de 120km de comprimento por 80 km de largura, reflecte de tal forma o calor que o ar se torna irrespirável. A uns bons quilómetros antes de atingirmos a sua margem já se começa a sentir o ar quente que entra pela janela do carro. Prospectamos nas suas margens e encontramos mais Acanthodactylus boskianus, mas o calor é de tal forma intenso que se torna impossível a sua captura. Estão hiper-activos, pelo que fogem a grande velocidade mal nos aproximamos. Somos obrigados a procurar noutro local e acabamos por encontrar várias lagartixas do grupo Acanthodactylus dumerilli-scutellatus.

São 13:00h e faz um calor terrível, bem acima dos 38ºC, mas estas lagartixas parecem não estar muito incomodadas. De facto estas formas estão fortemente adaptadas aos ambientes desérticos e semi-desérticos. Tanto melhor, pois facilmente(!) conseguimos capturar umas quantas.
Almoço em Tozeur e reforçamos a impressão da noite anterior: grande cidade turística com dezenas de hotéis, um aeroporto e mesmo uma universidade. A cidade vive dos dezenas de turistas franceses e alemães que chegam em voos charter e sedentos de uma aventura no deserto.
Após o almoço atravessamos o Chott percorrendo a interminável recta em direcção a Douz. A paisagem é de uma planura incrível e mostra-se terrivelmente hostil para qualquer forma de vida. O sal que se acumula nas margens da estrada desenha padrões curiosos.

Jantamos em Douz e acampamos juntos a um cordão dunar perto do Chott.

Dia 11 – 14-09-2004
Douz – Pista do pipeline para Ksar Ghilane
155 km

Acordamos nas dunas brancas e moles. Estamos finalmente no deserto! Vemos dezenas de Acanthodactylus do grupo dumerilli-scutellatus e alguns rastos de serpentes na areia. Sol é forte logo pela manhã e o calor faz-se sentir, mas o trabalho corre bem. Apanhamos perto de 20 lagartixas e descobrimos um local de simpatria entre boskianus e dumerilli-scutellatus. Estas três formas têm na Tunísia meridional o limite norte da sua área de distribuição, pelo que conseguimos amostras de uma região limítrofe da ocorrência destas espécies. Almoçamos em Douz sob um calor abrasador. A cidade é pequena mas muito pitoresca, com dezenas de lojas de artesanato no souk.
Partimos em direcção a Ksar Ghilane pela pista que segue paralela a um pipeline que vem do Grande Erg Oriental. Esta pista encontra-se fortemente ondulada devido à passagem de dezenas de camiões que abastecem o oásis de Ksar Ghilane.
Acampamos numa pequena depressão na vasta estepe que nos rodeia. A noite é calma mas ventosa. Sabe bem voltar a estas paisagens!

Dia 12 – 15-09-2004
Pista do pipeline para Ksar Ghilane – 30km a sul de Ksar Ghilane
78 km

Continuamos a progredir numa imensa estepe árida, ao longo da pista do pipeline. Somos ultrapassados constantemente por grupos de turistas que seguem em alta velocidade, em Toyotas Land Cruiser e Nissan Patrol GR, para o Oásis de Ksar Ghilane. E após algumas horas a procurar lagartixas, também lá chegamos à hora de almoço.
Localizado nas margens do Grande Erg Oriental, o oásis consiste numa nascente que alimenta um lago natural e que foi convertido em piscina.

Ksar Ghilane apresenta todas as comodidades exigidas pelo turista ocidental: restaurantes, parques de campismo, albergues, hotéis, artesanato e aluguer de dromedários. Portanto, era vê-los chegar, totalmente pálidos depois de duas horas a serem sacudidos em alta velocidade na pista do pipeline. Saem do carro, são colocados em cima de dromedários para uma pequena excursão às dunas, dormida num hotel e partida pela manhã, para mais umas horas de abanões até Tozeur. A aventura do deserto estava consumada e os euros que deixam ficar alimentam um turismo massificado. Ora não trouxessem todos eles a respectiva pulseira colorida……
Nós tínhamos outros objectivos. Depois de mais um almoço de frango assado, um entre as dezenas que se seguiriam, esperamos pelo fim da tarde. Logo que o calor amainou, procuramos lagartixas nas dunas abaixo do antigo Ksar de origem romana.

São às dezenas e correm de arbusto em arbusto. Os seus tons pálidos não deixam dúvidas; são do grupo dumerilli-scutellatus. Aproveitamos para fazer umas fotografias no forte ao pôr do sol e voltamos ao oásis ziguezagueando por entre as dunas e a erva de camelo.


Jantamos no oásis ao dobro do preço que costumamos pagar na Tunísia (!) e rumamos para este, para acampar numa pequena depressão ao lado da pista que leva a Tataouine.

Dia 13 – 16-09-2004
30km a sul de Ksar Ghilane – 15km a nordeste de Tataouine
143 km

A pista fortemente ondulada segue por estepes a perder de vista entrecortadas por vales arenosos. Saímos do deserto e subimos para as montanhas de Tataouine, com desfiladeiros encaixados e encostas com enormes pedras em equilíbrio precário.

Foi nesta paisagem alucinante que George Lucas rodou as cenas da Guerra das Estrelas que se passavam no planeta Tataouine. Aliás o próprio planeta recebeu o nome da principal cidade destas montanhas.
Passamos por Chenini, aldeia escavada nas encostas de uma montanha pelos Chorfas.

Mais uma vez dezenas de autocarros transportam turistas até estas paragens para visitarem a aldeia. Subitamente, Portugal vem-nos à memória: as figueiras, oliveiras e dezenas de pequenos campos agrícolas delimitados por muros de pedras relembram-nos que estamos próximos do Mediterrâneo. Paramos para procurar lagartixas, mas sem sucesso. Um jovem berbere que por ali aparece acompanha-nos na busca, mas também ele não as conseguiu encontrar. Estamos em meados de Setembro, mas ainda faz muito calor durante as horas centrais do dia.
Após um chá retemperante em Tataouine, acampamos a poucos quilómetros numa pequena encosta salpicada de campos agrícolas, perto da estrada para Ben Guerdane.

Dia 14 – 17-09-2004
15km a nordeste de Tataouine – Zarzis
100 km

Passamos a manhã a capturar lagartixas num oued arenoso mesmo ao lado da estrada de alcatrão. Arrancamos para a costa e passamos por Ben Guerdane, típica cidade fronteiriça: degradada e com muito lixo o que, aliás, contrastava com toda a Tunísia. Percebe-se que os turistas dos voos charter não chegam a estas paragens tão próximas da fronteira com a Líbia.
Decidimos então rumar um pouco para norte em direcção à ilha de Djerba. Aproveitaríamos a tarde para reorganizar internamente o carro, por forma a conseguirmos ganhar espaço para levar o guia Líbio que nos esperaria na fronteira no próximo dia. E como as maiores dificuldades da viagem começariam no dia seguinte, decidimos passar a noite num resort para turistas ocidentais e aproveitar as comodidades oferecidas por estes locais.
Escolhemos Zarzis para procurar um. Esta cidade litoral encontra-se totalmente descaracterizada, pois dezenas de casas, resorts, hotéis e restaurantes ocupam toda a linha de costa e são construídos em cima das dunas móveis.

A construção desenfreada e falta de planeamento fazem-nos lembrar o pior do Algarve. Lá escolhemos um que era ocupado essencialmente por turistas alemães que chegavam em autocarros. Os enormes muros isolam o resort do meio envolvente e conferem uma sensação de que tudo está absolutamente controlado. No exterior há a piscina, os campos de ténis e a praia privativa; no interior temos um restaurante e uma pista de dança num ambiente luxuoso. Os quartos são simples mas cómodos e a casa de banho é de uma brancura imaculada; algo que já não víamos à algum tempo e que, certamente, não voltaríamos a ver nos próximos meses. Portanto, aproveitamos o conforto para tomar um grande banho e desencardir a roupa suja.
A noite quente convida a uma reflexão sobre os contrastes que notamos na Tunísia. Embora o litoral e alguns locais no interior, como Tozeur e Ksar Ghilane, sejam fortemente turístico, o norte é essencialmente rural e apresenta fortes problemas de desertificação. Já o sul, está em grande parte coberto pelas dunas do Grande Erg Ocidental. Aliás cerca de 30% da Tunísia é areia. Este país moderno e desenvolvido vive do turismo pelo que a factura da massificação está a ser cobrada pelas praias litorais.
Estamos quase a sair da Tunísia e começam a vir ao de cima as dúvidas sobre a Líbia, esse grande temido e desconhecido país. Como serão as pessoas? E as condições de vida? Haverá problemas de segurança? Amanhã rumamos para a fronteira, e todas as nossas dúvidas serão esclarecidas.

Dados técnicos:
Visto de entrada:
 não é necessário
Preço do gasóleo: 0.475 dinares tunisinos/l (cerca de 0.31 euros/l)
Preço de uma refeição: 5 a 7.5 dinares tunisinos
Preço de uma noite num parque de campismo: 7 euros para 2 pessoas e um carro
Embaixada de Portugal: 2, Rue Sufétula. 1002 Tunis Belvédere. Tel.: (216) 71893981 e 71788189.

José Brito