A magia da África Austral!

Foi tudo muito rápido!… infelizmente já estava a aterrar no aeroporto da Portela. Tinham passado três semanas e o tempo simplesmente voou!!. Fica a saudade, e a vontade de rapidamente apanhar o avião e regressar…


Encontrei um país muito diferente daquele que conheci: a maior parte dos edifícios estão destruídos, uns pelas metralhadoras, outros pelas bombas.  Os musseques ou bairros de lata, os escombros, os amontoados de lixo, as casas em ruínas, o capim alto, gente massacrada e até esfomeada, reflectem a actual situação de um povo que procura através de uma lenta reconstrução, sobreviver.

É difícil escrever sobre estes povos, caracterizados principalmente por terem personalidades muito próprias.

O voo foi longo e à medida que avançávamos no espaço aéreo a ansiedade aumentava. Agora não havia tempo para dúvidas e incertezas. O primeiro passo tinha sido dado a alguns meses atrás e a este, inevitavelmente, seguiu-se a habitual correria em busca de informação, as consultas de aconselhamento e posteriormente a fase mais difícil… a decisão.

Há muito que pensava neste destino e se não o concretizasse agora, dificilmente o faria num futuro próximo.

Para além das paisagens deslumbrantes e do clima magnifico que apanhámos, existem sempre pequenos episódios que nos marcam. É através deste convívio com gente simples que diariamente têm o mínimo para sobreviver, que conseguimos ou pelo menos tentamos perceber a importância de pequeninas coisas.

Quando chegámos ao Lubango, fomos abordados por um comandante da polícia que simpaticamente e tentando ser prestável perguntou se podia ajudar. Antes de obter qualquer resposta, adiantou-se dando algumas informações úteis relativamente à cidade. Era visível o contentamento no seu rosto.

Antes de nos despedirmos, assumimos o compromisso de uma visita atenta à cidade assim como a toda a área que a circunda. Já afastados ainda ouvimos a sua última recomendação… a uns 20 kms daqui têm a cascata da Tunda Vala e a Serra da Leba.

Enquanto procurávamos o hotel, íamos sendo abordados pelos habitantes, que trajando roupas coloridas e sorrisos francos, apelavam a dois dedos de conversa. Embora o tempo fosse escasso, é muito difícil resistir a este convite e inevitavelmente acabamos por ceder. Entre gargalhadas sonoras e histórias ainda do tempo colonial, a desconfiança inicial desaparece e o dialogo que resulta é de facto, impressionante. Querem saber tudo e como sinal de gratidão pelo tempo que estamos com eles, estendem uma bacia de plástico ressequida pelo sol com amendoins… fartei-me de comer “jimguba torrada”

Conseguimos finalmente atravessar o Lubango, constatando que a sua beleza se mantém. Dirigimo-nos para o local onde se encontra a estátua do Cristo Rei e completamente deslumbrados apreciamos a vista maravilhosa sobre a cidade, aliás só deste ponto é que conseguimos ter noção da dimensão desta… e da estátua. É curioso a calma que nos é transmitida neste local.

Percorrida a imponente estrada que serpenteia a Serra da Leba o nosso destino fica a aproximadamente a 225 Kms.


Já na EN280 , a qual se traduziu numa autêntica revelação, tivemos contacto com algumas povoações… Lembro-me de uma criança pequena de olhos muito brilhantes, que procurando captar a minha atenção, olhava-me muito atentamente. Percebi de imediato que tiritava de frio. Aproximei-me e tocando levemente no seu rosto, fiz-lhe uma festa. Ficou surpreendida com o gesto, tal como eu. A temperatura que o seu rosto tinha, dava para fritar qualquer coisa. Estava a arder com febre. Perguntei-lhe se estava doente e com um leve aceno de cabeça, disse-me que lhe doía o corpo e a cabeça… era mais uma vitima de malária.

Infelizmente, esta doença é muito frequente no continente Africano. Aliás, recordo-me das recomendações que tivemos no Instituto de Medicina Tropical, sobre esta doença antes de viajarmos. Para além das doses semanais ou diárias de anti-paludico, fomos aconselhados a ter cuidados adicionais com as picadelas dos mosquitos… Apesar de não conseguir distingui-los, fiquei a saber que a fêmea é que é portadora da doença…
http://www.fiocruz.br/ccs/glossario/malaria.htm#

O pôr do sol, as magnificas praias, os tanques de secar peixe… de jipe e por estradas de terra batida avançávamos em direcção ao deserto do Namibe. Esta província é considerada um porto no Oceano Atlântico, com uma superfície de aproximadamente 58 137 Km2, conta com uma população de 168 200 habitantes.

Está localizada no extremo sul do litoral e é o maior centro pesqueiro do país. Esta província faz fronteira com a República da Namíbia.
Resultante da proximidade do mar, este litoral apresenta um clima húmido.

Percorremos trilhos intermináveis de uma beleza verdadeiramente única. A areia fina e fofa por vezes obrigou-nos a paragens e porque o calor é quem mais ordena nas lides do deserto, os momentos de tirar o jipe da areia, tornaram-se num verdadeiro martírio.

Durante a minha incursão por estas paragens, explorei um deserto variado. Aprendi a apreciar o nascer do dia e os primeiros raios solares. Gradualmente estes começam a incidir na rocha, pintando-a de mil e uma cor. O céu vai-se tornando progressivamente mais azul, à medida que o sol sobe… da vegetação rasteira, às pedras robustas, tudo foi novidade.

Foi neste cenário que vivi uma aventura que jamais esquecerei!


Aprendi a ouvir o canto dos pássaros, a respeitar os insectos , a apreciar uma verdadeira raridade… a sinistra e rastejante planta Welwitchia Mirabilis , a mais famosa planta de Angola que existe só e apenas no deserto do Namibe.


Os nativos da região chamam-lhe Tumbo. As suas folhas chegam a ter vários metros de comprimento. É uma planta muito dura e resistente que se alimenta de insectos. O rinoceronte por vezes masca as suas folhas quando tem muita sede.

Para finalizar, recordo-me da correria que foi o fim da viagem. Estava no aeroporto, quase a embarcar quando na alfândega advertiram-me sobre a ausência de selo num pacote de jinguba… todos os artigos adquiridos devem identificar a proveniência do produto (esta exigência tem como objectivo principal o de acabar com o mercado paralelo) .Como não ia deixa-lo ficar ali, tive que correr em direcção contrária e pedir que colocassem o respectivo selo, pois queria levá-lo comigo…

Angola 2005
M. Lopes
( quinta-feira, 01 de setembro de 2005 )