Diário de Uma Viagem 3ª Parte: Conclusões

Os objectivos:
Esta viagem tinha como objectivo conhecer a famosa pista de Nema na Mauritânia e o Mali. A pista de Nema por ser palco de etapas perfeitamente diabólicas no maior rallye do mundo, o “dakar”.

O Mali, país desconhecido e cujas histórias de violência e roubo mas com uma cultura riquíssima, acabaram por despertar um grande interesse. Tombouctou a cidade mítica. A ideia da viagem surge no cimo de uma duna na “Pista do Comboio” na RIM em 2003, quando atravessei o Maqteir. Depois foi definir o percurso e apresenta-lo a um conjunto de pessoas, algumas das quais tinham estado na viagem de 2003. Estávamos então na Lousã, no ultimo fim de semana de Janeiro de 2004.
Tinha um ano para me preparar e para preparar o Toyota. A partir daí, foi recolher informação e sistematiza-la naquilo a que a Marisa e eu chamamos brochura. Tinha toda a informação possível entretanto recolhida.
A grande incógnita era o percurso e por isso manteve-se provisório até à viagem propriamente dita. É que, é impossível definir com rigor uma viagem tão longa e com tantas incertezas. Escolhemos o menu e recolhemos os passaportes com os vistos.
Os participantes foram definindo as suas preferencias e opções. Seis veículos 4×4 e 2 motos num total de 12 pessoas. As informações ou não existiam ou eram contraditórias. Muita da informação não era possível obter porque pura e simplesmente não era actual, nomeadamente aquela referente à parte do Mali que pretendíamos visitar. Tínhamos que ir a Tombouctou, a mítica, a misteriosa.
A motivação era muita e a expectativa grande face a um percurso que se sabia duro. Mais duro e exigente se tornava até para credibilizar, ou não, muitos dos argumentos que foram trocados ao longo deste ultimo ano.

Informação:
A recolha de informação foi fundamentalmente através da internet. Contactos que se foram estabelecendo, que hoje se tornaram em verdadeiros amigos em torno das viagens de aventura. Muitos sabiam do projecto, muitos contribuíram para o enriquecer com informação e acima de tudo, disponibilidade para apoiar, aconselhando.

Treinos:
Vários foram os testes que entretanto foram realizados. Nas dunas de S. Pedro de Moel, passando por uma iniciativa fantástica que foi a ligação Troia – Sagres por fora de estrada. Este fim de semana foi interessantíssimo porque fomos acompanhados de um grupo de “Motards” – o Nomad’s Trail Moto Club Portugal. Serviu este fim de semana para testar algumas soluções,  aferir andamentos entre motos e carros e definir apoios logísticos, uma vez que as motos tem a dificuldade do transporte de bagagem e da autonomia, bem menor do que qualquer 4×4.

Vistos:
Marrocos não exige visto. Apenas o passaporte em dia. Os vistos para a RIM foram obtidos na Doca Pesca em Lisboa e os vistos para o Mali foram conseguidos através de uma agencia de viagens, vistos estes que ainda demoraram cerca de 3 semanas a conseguir. A decisão de dispormos desde logo dos vistos, prende-se com a possibilidade efectiva de extorsão nas fronteiras, apesar de ser possível adquirir o visto na fronteira para a Rim, custando cerca de 50 Euros.

O clima:
Em Janeiro, na RIM faz frio à noite. Durante o dia, as temperaturas são agradáveis. Senti pela primeira vez as amplitudes térmicas que acabaram por originar as tão desagradáveis constipações. No litoral, a chuva acabou por ser uma realidade.
No Mali, as temperaturas sempre foram altas, quer durante o dia, quer durante a noite. A época das chuvas começa em Março e prolonga-se até Setembro. Os meses mais quentes são os de Junho e Julho. A época alta para o turismo é de Outubro a Fevereiro.

Seguros:
O seguro de responsabilidade civil utilizado em Marrocos foi o constante da carta verde. Para a RIM combinei via e-mail com um mauritano, que no dia e hora estava na fronteira lá estava com o respectivo seguro. As autoridades certificaram-se uma vez de que dispunha do documento. No Mali não fiz qualquer seguro. Quando estávamos a sair do Mali, ainda na fronteira, pediram-nos o seguro. Entregamos uma carta verde, logo sem qualquer efeito prático no país, mas que acabou por convencer o policia de que era um seguro válido.

Alimentação:
Em termos de alimentação, em Marrocos é possível comer bem e barato. As tagines, são típicas, mas desaconselháveis a estômagos mais sensíveis, dados os condimentos. A carne grelhada no momento é sempre uma boa alternativa. Há muito boas saladas. O café não presta, mas o “tea a la mente” é delicioso.
A gastronomia na RIM é muito pobre. Limita-se a arroz, massa e couscous. Depois como acompanhamento o “sauce”. Molho com carne de camelo ou cabra. A carne de camelo é normalmente dura. Não existe fruta ou então é difícil encontra-la e resume-se a laranjas. As maças, são uma amostra, de pequenas que são. É possível adquirir cenouras, batatas e cebolas em qualquer mercado ou “mercearia” Não há problema com a água que existe engarrafada, de boa qualidade e em qualquer localidade.
No Mali, há mais variedade gastronómica. O peixe faz parte da cozinha maliana e a fruta já existe em variedade e quantidade.
Uma refeição custa entre 1.5 Euros a 5 Euros, mas é preciso negociar. Aliás, tudo, mas mesmo tudo tem que ser negociado, não só a refeição, mas também as bebidas. Um argumento que pode ser utilizado na negociação é o numero de pessoas que vão almoçar. Na perspectiva do lucro, são sempre sensíveis ao numero.
Ao almoço normalmente consumíamos conservas, enchidos e pão. Ao jantar, as opções gastronómicas que levávamos do tipo “só juntar água e ferver””. Uma botija de camping gás de 1.8 kgs foi suficiente para cozinhar para 4 pessoas.

Alojamento:
Em Marrocos e fácil de arranjar e barato, mas pode ser complicado arranjar algo compatível com os padrões europeus. Os albergues são uma boa opção. Para quem desejar experiências mais próximas da natureza, então uma “khaima” ou tenda berbere, que não é mais do que uma grande tenda onde podem ficar 4, 6 ou mais pessoas. Já dispõem de colchão.
Em alternativa ao alojamento, ou porque pura e simplesmente não há outras opções, no caso das pistas isoladas da Rim e do Mali, as tendas de campismo ou as camas de campanha, são uma boa opção. As camas de campanha têm a vantagem de serem fáceis de montar e de desmontar e não tem o inconveniente de serem assentes em solo quente, desagradável com as tendas de campismo.

Comunicações:
Em Marrocos os telemóveis funcionam, excepto nas pistas mais isoladas e no Sahara Ocidental. Na RIM ou no Mali, o GSM só funciona nas grandes cidades e há operadores que obrigam ao accionamento do serviço de “roaming”. Como alternativa e para fazer face à insuficiente cobertura da rede móvel, o aluguer de um telefone satélite é uma excelente opção. Utilizei um Thuraya, operado pela TMN, com um serviço a todos os títulos notável. Para a comunicação entre viaturas, um rádio VHF portátil, ao qual se adapta uma antena exterior permitindo um maior alcance, é uma excelente opção.

Navegação:
O Gps é “mais um” instrumento de navegação”, não é “o” instrumento de navegação. Na RIM só é preciso encontrar a boa pista, depois segui-la. No Mali, a navegação é mais fácil apesar de tudo. O país é muito mais populoso, logo é fácil pedir uma qualquer informação, a um qualquer local. O mapa da michelin continua a ser muito útil.

Riscos e dificuldades:
Não há qualquer instabilidade política nos países visitados.
No Mali, país diversas vezes mencionado como perigoso dado o banditismo existente, não tivemos qualquer situação susceptível  de risco. As maiores dificuldades prendem-se com a extorsão praticada nas fronteiras de Nouâdhibou, Nema, Lére, Tombouctou (registo) e Aourou que podem exigir alguma habilidade para a negociação. Atenção aos preços inflacionados nos ferry´s, na alimentação e comercio. È obrigatório regatear!
Em Marrocos, estradas como a de Marrakech exige muita atenção devido à intensidade de transito. No Sahara Ocidental, a condução à noite representa algum perigo dado o transito de veículos pesados com as luzes desalinhadas.
As pistas são mais exigentes na Mauritânia do que no Mali. Na RIM as pistas são predominantemente de areia. A pedra aparece aqui e ali, mas fundamentalmente são de areia. No Mali, as pistas são de terra vermelha, muita “chapa ondulada” ou “tole” e muito pó. Atenção aos filtros de ar.
A pista de Nema, exige alguma atenção, não pela dificuldade da pista, mas fundamentalmente pelo completo isolamento. A Estrada da Esperança, obriga a ter particular atenção aos animais que atravessam a estrada, principalmente ao final do dia. O transito nas estradas de alcatrão nem sempre é fácil pois as viaturas locais normalmente não têm espelhos retrovisores. A aproximação para a ultrapassagem tem que ser feita com muita antecedência para que se apercebam da manobra.

Problemas mecânicos:
Embraiagem desafinada;
Quatro fusíveis queimados, devido ao pó que se acumulou no comutador de luzes;
Um furo;
Um fio eléctrico traçado de alimentação ao rádio VHF;
Uma antena exterior do rádio VHF perdida numa pista do Mali;
Casquilhos de borracha das molas a precisarem de serem substituídos;
Uma “porca” de apoio a um amortecedor perdida.

Cuidados de saúde:
Obrigatório a vacina da febre amarela e fortemente aconselhável a profilaxia da malária. Depois um conjunto de medicamentos, nomeadamente alguns antibióticos de largo espectro. Um estojo de primeiros socorros.
Em Tidjijka, socorremo-nos do hospital para tratar uma otite. Ficamos com muito boa impressão. Foram os únicos cuidados médicos requeridos na viagem. Nas zonas próximas de rios/lagos é necessário ter particular atenção aos mosquitos (só com um T) e é conveniente usar repelente, quer na pele quer na roupa.

Dados estatísticos:
35 dias
12.051 kms percorridos
4.162 kms de pista
204 horas de condução
220 kms percorridos em média nas pistas
6 horas em média de condução diária
1.718 litros de gasóleo gastos
14.26 litros de média aos 100
1 mudança e óleo
990 kms, 35ª etapa, a mais longa
16 kms, 16ª. Etapa, a mais curta

Conclusão:
Conheci mais da Mauritânia, país fantástico, com potencialidades absolutamente soberbas para a prática do todo o terreno em autonomia. País de uma pobreza e de um isolamento que chegam a ser sufocantes. As gentes são simpáticas e acolhedoras. A areia domina num deserto imenso, vazio e quente.

O Mali é um país riquíssimo sob o ponto de vista cultural, de fauna e de flora. As suas gentes encantam pela graciosidade e colorido. As pistas são de um vermelho apaixonante, que nos fazem vibrar e andar como que atordoados em sucessivos quilómetros de “chapa ondulada”. Os embondeiros…

Lamento não ter tido tempo para visitar a Reserva dos Elefantes de Gourma. Os atrasos iniciais assim o ditaram.
Acerca do grupo e como pontos menos positivos, não posso deixar de mencionar a pouca preparação, senão ignorância e a tentativa de manipulação disfarçada de teimosia de alguns membros. Posturas pouco consentâneas com as emoções próprias de uma viagem desta dimensão e com o desgaste inerente. As preocupações e as incertezas todos nós as sentimos!
Como foi possível votar para decidir do reagrupar ou não a coluna no meio de uma pista desconhecida?
Nos últimos dias, perante uma avaria de uma viatura que limitasse o andamento ou mesmo pusesse em causa a chegada no dia e hora marcado, quem ficaria para trás a dar apoio? Ficariam todos?
Mas todos tinham estado juntos à partida na estação de serviço da BP a abastecer os respectivos depósitos…

De salientar o companheirismo, a partilha e a muito boa disposição daqueles que souberam sempre para onde íamos e em que condições!

Agradecimentos:
BP – ultimate
Castrol – lubrificantes
Revista 4×4
Revista Motojornal
Autoni – pneus e óleos, lda
TTVerde
Os Lobecos
Fitnessfactory – Ginásio

Um agradecimento muito especial ao Álvaro Oliveira pela dedicação e empenho que sempre mostrou antes, durante e depois desta viagem, nomeadamente com os telefonemas diários e alguns a horas pouco recomendáveis, na preocupação constante de informar todos aqueles que acompanharam o desenrolar da expedição.
O meu muito obrigado à “minha assistência em viagem” a quem, numa emergência, precisaria apenas de comunicar as coordenadas!


António Magalhães
22 de Março de 2005

Última actualização ( terça-feira, 19 de julho de 2005 )