Diário de uma viagem (2ª Parte)

O MosquiTTo no Mali 2005 – Diário de uma viagem
(1ª Parte – Do Portop a Tombouctou)

Num segundo revi todo o tempo que levei na preparação da viagem e na construção do menu e agradeci o entusiasmo, a partilha e a sinceridade. Depois a A1 para casa. Ainda era sexta feira e o melhor da viagem foi reencontrar a família que se mantinha acordada.

Agora é tempo de parar e reflectir no que foi a viagem!

20º. Dia, 10 de Fevereiro

A manhã invariavelmente fria começou cedo. Uma maliana, com o filho às costas, vem oferecer-nos pão. São seis pães, redondos, espalmados e ainda quentes. Deliciosos!
Depois alguém se lembra de distribuir os brinquedos que tinha levado de Portugal. A confusão instala-se com miúdos e graúdos, pois era manifestamente impossível mante-los alinhados e sossegados ante a perspectiva de receberem um presente. Valeu a intenção!
Os miúdos vestidos só com um T-shirt aquela hora da manhã, tiritam de frio. Faz dó vê-los só com uma velha T-shirt e muitas vezes esburacadas. Distribuímos bolachas e outros alimentos, mas o nó no estômago não me passou!
Retomamos a pista para Douentza. São cerca de 200kms num estradão de “chapa ondulada” . Entre os 85 e os 90kms/h consigo andar com relativo conforto e segurança. Acima dessa velocidade não consigo controlar o carro. A sensação de insegurança que tenho é brutal. Partes há em que opto por conduzir com a tracção integral. Andar mais devagar é destruir o carro. E isto durante 200kms! Depois ainda os oueds que atravessam a pista, fazem saltar o BJ 40 e aterrar de frente. O transito em sentido contrário a velocidades muito pouco recomendáveis. Nem sequer abrandam nem se desviam, muitas das vezes em grandes lombas de visibilidade nula envoltos em enormes nuvens de pó. Vão valendo os VHF e os avisos de – atenção, transito em sentido contrário!

Em Douentza abastecemos, bebemos umas bebidas frescas e comemos uns amendoins que uns miúdos vendiam. Depois o almoço e ainda tempo para reparar um furo na KTM. Na realidade só desmontamos a roda e a operação de desmontar o pneu foi feita numa “collage”, nome dado às oficinas de reparação de penus. Depois a montagem da roda não correu muito bem. O veio é que nos causava este atraso e nada como umas marteladas para o meter na ordem e no sitio! Compram-se pequenas mangas e laranjas.
Agora a pista para o país Dogon!

Alguma indefinição no percurso a seguir, as velhas IGN são chamadas e após alguma troca de argumentos arrancamos. A falésia de Bandiagara está mesmo à direita e começam já a aparecer as aldeias que mal se distinguem de tão integradas que estão na paisagem.

Na pista, miúdos e graúdos assaltam-nos com pedidos de cadeaux e de venda de artesanato.
Depois o acampamento num camping, onde tudo foi negociado, menos o pequeno almoço. Para melhor perceber, o exemplo desta negociação: para dormir 1000CFA, queriam 3.500; as coca-cola 400CFA, queriam 700; Para os Malianos a negociação é concerteza uma forma de diversão, a nós cansa-nos!
O jantar foi “poulet. Lembramo-nos dos desgraçados dos pombos de Léré e perguntamos se eram frangos criados lá ou se eram frangos da cidade. Riram-se e garantiram-nos que eram locais, não eram frangos de Paris! Passávamos sempre por franceses…
As desgraçadas ainda gemeram um bocado antes de irem parar à panela.
As motos continuavam a atrair as atenções

21º. Dia, 11 de Fevereiro

Ao pequeno almoço, uma espécie de “sonhos”. Bons!
As visitas às aldeias começam, Damassongo é a primeira opção.

As viaturas cá em baixo e a progressão a pé começa. A encosta íngreme, pedregosa sob um calor abafado.

O “harmatan sopra quente, com muito pó no ar escurecendo o Sol. Rapidamente somos envolvidos por miúdos que nos vão mostrando o percurso sinuoso, entre as casas pequenas, desalinhadas e cobertas de palha. A casa onde as mulheres naqueles dias do mês se recolhem

mas advertem-nos que para a fotografar são 500CFA. Depois a casa do feiticeiro onde nos proíbem de tocar…

A subida continua. O calor e a sede também. A grande praça onde a aldeia se reúne nas ocasiões festivas e onde fazem os bailes, disseram-nos.
Na casa dos anciãos assinamos o livro de visitas.

Um antigo combatente mostra orgulhosamente o seu bilhete de identidade. Nasceu em 1907!
Avançamos para outra aldeia, pois estas sucedem-se ao longo da falésia. Ainda nos cruzamos com um grupo de turistas que alugam os 4×4 mas com condutor.
O grupo divide-se. Uns decidem continuar na visita, outros, nos quais eu me incluo decidimos ir almoçar, no restaurante onde previamente encomendamos o almoço. Tempo para ficarmos a saber, através de um funcionário do Ministério do Turismo, que apenas é necessário o visto para não ser incomodado no Mali. Falamos da extorsão. Referiu que estão cerca de 800 agentes da autoridade presos por delitos relacionados com este tipo de crime. Aconselhou-nos a pedir sempre recibo e em caso de novas tentativas, dirigirmo-nos às “delegações do turismo” que existem em qualquer grande cidade. Lembrei-me de Léré e de Tombouctou e disse-lhe que nesta ultima cidade a extorsão tinha acontecido no próprio quartel da policia. Encolheu os ombros…
Depois do almoço, algo de muito típico para aquelas paragens e delicioso: um “matelas”! Um colchão. Pedimos um colchão, que é colocado sobre uma esteira e dormimos uma sesta. Entretanto o grupo reúne-se.
Outra aldeia. O final da tarde aproxima-se e decide-se não a visitar. É a famosa aldeia de pigmeus, mas como levaria ainda algum tempo a visita-la, a opção é não o fazer. Ainda tivemos que guiar por rádio um aventureiro que se perdeu. Nem o World Map lhe valeu. Seguimos para os crocodilos!
De facto há uma aldeia que tem crocodilos. Um lago, em que os sáurios estão na margem, pachorrentos.

Fotografamos e compramos artesanato. Depois vem a extorsão. É que supostamente é preciso pagar para fotografar, mas a placa que tal indica está meia escondida. Fartamo-nos de reclamar até sermos dispensados de o fazer. Depois há um aventureiro que por iniciativa própria e em nome pessoal o faz. Ficou encerrado o episódio dos crocodilos e da extorsão, ou quase pois esse mesmo aventureiro arrancou para o local onde pretendíamos montar o acampamento sem a…mulher!
A noite cai e o acampamento é montado numa duna oposta à falésia. Já não estávamos habituados à areia e a subida ainda deu algum trabalho pois a pressão dos pneus alta não ajudava, mas gradualmente o grupo foi-se juntando. Depois tempo para a brincadeira pois o explorador não sabia da sua mulher! Aproveitei o fim do dia e fiz alguma manutenção, nomeadamente a substituição do pré filtro do gasóleo que já estava cheio de impurezas.

22º. Dia, 12 de Fevereiro

Logo pela manhã, a pressão dos miúdos. Depois os adultos sempre na venda de artesanato. Mal tínhamos acordado e já estavam prontos para o negócio. Pela pista ainda tempo para ver a agricultura e o cultivo de cebolas, muitas. Campos e campos que os agricultores tratam. Curioso ver uma paisagem verde depois de tanto amarelo

As aldeias estão já para trás. Avançamos para Bandiagara. Aqui há cerveja fresca, amendoins e boa musica, avisam-me os motards. Nem hesitei. Depois de tanto calor e pó, uma cerveja fresca é sempre uma cerveja fresca e o som do Bob Marley é sempre o Bob Marley!.
Estamos no alcatrão. Estão cumpridos cerca de 2.800kms só em pista. Desde Bir Gandouz em Marrocos que estamos em pista. Mopti é o destino. Estamos de volta ao transito, aos táxis. Há muito tempo que não via taxis, os táxis africanos, tão característicos. Uma primeira abordagem à cidade e ao porto. Procuramos um lugar para almoçar. A escolha recai no melhor restaurante da cidade. Arroz de peixe e cerveja fresca. Depois para sobremesa um mamão, grande!

Os vendedores assaltam-nos. Tudo vendem e a preços cada vez mais baixos. Trocam-se Euros por CFA. Falam do grupo de portugueses assaltados no Mali. Todos tentam mostrarem-se à altura do acontecimento. Afinal não é todos os dias que há portugueses no Mali em 4×4 e motos e o grupo que se reúne no restaurante sabe disso.
Depois a visita ao porto. É o pulsar da segunda maior cidade do país depois da capital e com o maior porto comercial do país.

O turismo é uma parte importante. Pirogas e “pinasses”, barcos de grande capacidade de transporte que fazem a viagem de Bamako até Tombouctou e Gao. Transportam de tudo, pessoas animais, motocicletas, bagagem de toda a espécie. Uma azafama agradável de viver…

“Magnifique” maliano de uns 25 anos oferece-nos uma viagem pelo Rio Bani para assistir ao pôr-do-sol de barco. Mas o “harmatan” continua a esconde-lo. Quando refiro que não é possível assistir ao pôr-do-sol porque não há Sol, ri-se. Não vi nenhum maliano que não fosse capaz de se rir quando é apanhado nalgum esquema para ganhar uns trocos. Riem-se com imensa vontade, apertam-nos a mão várias vezes e riem-se. São simpáticos e divertidos, estes malianos! Com o “Magnifique” como guia, por entre as bancas caóticas de vendedores visito o porto. Peixe seco, aos milhares de todos os tipos e tamanhos

amendoins torrados e por torrar, cabaças, colheres, peles de animais, frutas e todo um conjunto de quinquilharia típico de uma qualquer feira.

Rumamos para Djenné. A noite cai e o fusível dos máximos queima. Tenho que o substituir. Depois volta a queimar. Definitivamente estou sem máximos. No desvio para a cidade cobram-nos 1000CFA, como que uma taxa turística. Depois o ferry. Como o expediente já terminou, vem a extorsão de 1500 CFA pelas “horas suplementares”. Ida e volta, mais o “fora de horas” custa-nos 4.500CFA. Exigi que escrevesse no bilhete a taxa suplementar. Depois de muito gaguejar assim fez!


Depois o albergue, o peixe “capitaine”, as batatas fritas e o terraço para dormir. Adormecer ao som dos tambores e a observar as estrelas, sinto que estou no céu!

23º. Dia, 13 de Fevereiro

Toda a noite os tambores rufaram. Rapidamente percebi porquê. É que o Presidente da Republica está de visita à cidade e todos o querem receber em festa. Para isso treinam num frenesim impressionante as danças e os toques dos tambores. Os caçadores, vestidos nos seus trajes típicos e armados com os seus bacamartes celebram o momento disparando para o ar do meio da rua. Os estampidos são insuportáveis e nós decidimos ir para o meio da multidão, longe dos caçadores e das suas armas arcaicas.


A agitação é imensa. Todos querem impressionar o Presidente. Dançam e martelam furiosamente nos tambores. Somos europeus e de máquina em riste ninguém ousa impedir-nos o acesso, pelo que livremente saltamos de lado para lado apreciando a festa.

Os serviços secretos aparecem: de auricular, fato quatro números acima do tamanho certo, gravata e…sapatilhas! Depois os militares armados com pistolas metralhadoras e armas sem recuo, tipo RPG!
Depois o Presidente, sorridente e dando mostras de um grande à vontade. Passa mesmo ao nosso lado, saúda-nos e a seguir a mole humana envolve-nos numa histeria presidencial.

Numas pick up toyota seguem umas cabras amarradas. Não percebi se seriam para o almoço ou seriam ofertas. Depois a mesquita, a grande mesquita, a maior do mundo feita em terra.

É tempo de preparar a etapa na direcção de Bamako. Primeiro as operações de manutenção, depois o banho. A seguir a pista, o apelo da pista em detrimento do alcatrão. Momentos há em que saímos da pista principal porque a pista se dirige para norte. Poucos depois retomamos a pista principal e percebemos que a dependência do GPS é tanta que nos obriga a andar quase fora de pista numa obsessão cartográfica! Tempo ainda para assistirmos a um DAF que só se deteve junto a uma árvore. Não havia qualquer obstáculo, apenas a pobre da árvore.

No meio do nada, montamos o acampamento. Para jantar carne de vaca e cabrito já grelhada que tínhamos comprado em Djenné. Fizemos uma fogueira e a carne aquecida, acompanhada de arroz branco…delicioso jantar. Depois o “abafado”, bom para o convívio em mais uma noite daquelas…africanas!
Dois aventureiros não estão connosco. Tinham decidido ficar um dia mais em Djenné e juntar-se-iam ao resto do grupo em Bamako.

24º. Dia, 14 de Fevereiro

O melhor amigo do maliano é um rádio a pilhas!

O Mali é o país do pó. Pistas rápidas em terra vermelha, só podem ser pistas com muito pó e embondeiros.

A vegetação arbustiva aparece e algo de curioso também. Manadas de vacas atravessam braços de rio na procura de melhores pastos. 

Aldeias perdidas no tempo, isoladas cujos habitantes se abeiram de nós sem a vulgar pedinchisse. Nem sequer falam francês. Uma das vantagens de andar por pistas isoladas e pouco turísticas é o facto da pressão que exercem sobre os viajantes ser muito menor.

Ficam satisfeitos por nos verem. Os miúdos acabam por apanharem enormes sustos sempre que o “Zeppelin” é posto a trabalhar. Divertidos e com um sentido de humor impressionante, riem-se daqueles que mais se assustam. Nós, que antecipadamente conhecemos o “ronco”, já estamos à espera dos saltos em pânico. Também nós nos rimos!
Ainda tempo para, junto ao alcatrão, numa banca de venda de beira de estrada, comprarmos mangas. A 3 cêntimos cada. Deliciamo-nos com estas mangas, maduras, saborosas. Pena é estarem quentes. Depois é o alcatrão até Segou. No Niger, o dia-a-dia!

Depois e uma vez mais por indicação do “Guia do Routard” o almoço, bom, num espaço muito agradável e fresco, o Djoliba.

A estrada para Bamako é repleta de surpresas. Camiões avariados, camiões acidentados e animais mortos. Os cadáveres dos animais invariavelmente atropelados jazem na berma. Não é agradável. A estrada é, apesar de tudo, pouco movimentada e à entrada e saída das localidade umas grandes lombas obrigam-nos a reduzir a velocidade. Barracas de venda de combustível avulso (garrafas de 1 litro), lenha, fruta e as “collage”. Um autocarro acelera vertiginosamente. Não fossem as sucessivas paragens nas várias localidades e o autocarro tinha levado a melhor ao BJ40!
Em Bamako optamos por acampar num parque de campismo (Parque das Acácias) que um amigo francês, Fred, nos tinha indicado. Fica nos arredores, mas é seguro para homens e máquinas e tem excelentes condições a preços justos (N12º 36’ 140”; W7º 56’ 127”)

Simpaticamente, Jean, o proprietário disponibiliza-se para nos arranjar recipientes para verter o óleo usado. É tempo para mudar o óleo, os quilómetros percorridos assim o exigem. Impressionante o lixo que se produz.

Diz-nos que usam o óleo usado para espalharem na estrada de terra para evitarem o pó! Lamentamos, mas estamos em África…e as preocupações ecológicas ainda não são as europeias.
Depois, Bamako à noite! Jean leva-nos na sua pick up. De pé e sentados na caixa de carga da pick up pela cidade fora. Estamos em África, sem duvida. Divertidos dois aventureiros que optaram pelo seu pajero tiram-nos fotos. Sob a luz dos faróis trocamos no mercado negro Euros por CFA.
A seguir o jantar. O grupo opta por menus diferentes. Um bravo alega que a nossa opção num restaurante libanês se resume a má comida e a prostitutas. No dia seguinte, tive oportunidade de dizer a esse mesmo expedicionário que o “bife com 5 pimentas” era uma delicia e quanto a prostitutas… éramos nós os únicos clientes!
Depois o Blá Blá bar, o Blá Blá Club e o Eden Club!
O regresso ao camping é já tardio.

25º. Dia, 15 de Fevereiro

A manhã foi-se arrastando. Afinal a noite tinha sido longa. O almoço foi servido numa sala agradável. Iniciamos o percurso para norte. Primeiro o alcatrão, depois a pista rápida, a “chapa ondulada” e o pó! Junto à pista bebidas frescas. O comerciante também vende combustível em garrafas de 1 litro. Compra bidões em Bamako depois aplica uma miserável margem e revende o combustível. Ainda nos oferece um chã. Queremos pagar, mas é peremptório na sua recusa. Há africanos generosos! Este comerciante que aparentava ter muito pouco de seu, não aceitou qualquer tipo de retribuição. Oferecer-nos um chã, foi para ele, um acto de cortesia.

Uns quilómetros antes de Kita, acampamos. A floresta, seca nesta época do ano, já se faz sentir. Ainda por cima também há incêndios e acampamos numa zona que tinha ardido num passado recente. Lamentei os incêndios da mesma forma que os lamento em Portugal e perguntei a mim mesmo o porquê de tamanho crime?
Apanhamos lenha e com o devido cuidado fizemos uma fogueira. Só faltavam os leões rugirem na noite africana!

26º. Dia, 16 de Fevereiro

Kita. O grupo divide-se numa sucessão de mal entendidos e acordos que nem todos sabiam. Para começar o abastecimento de combustível e as compras. Uns tinham combinado parar em Kita para fazerem compras e reabastecerem. Eu passei por Kita, vi abastecerem, mas o Toyota BJ40 como nem consome muito, não abasteci. Disseram-me: segue que já te alcançamos! Ainda no acampamento um motard tinha combinado comigo a aldeia de Toukoto como ponto de reabastecimento e de encontro. Despreocupadamente avencei com mais duas viaturas, selva adentro! À saída ainda tempo para o insólito: queriam que pagasse 1.000CFA por um suposto estacionamento na localidade. Pelo menos era o que dizia o recibo que pretendiam passar. Como começava a estar farto de extorsão, retorqui: – não pago nada, vou para Kayes, se quiseres manda a policia atrás de mim! Nenhum policia me seguiu. Quilómetros à frente verifiquei que a terceira viatura já não nos seguia. Por razões que ainda hoje não percebo, esta terceira viatura parou à espera dos outros. Eu e outra viatura paramos e esperamos. Era a técnica que utilizávamos. Como com o pó é difícil manter contacto visual e a multiplicidade de pistas não ajuda à navegação, de tempos a tempos parávamos para reagrupar. Esperamos, mas nada, nem ninguém nos seguia. Esperamos uns 30 minutos e arrancamos agora só duas viaturas. O percurso não tinha nada que enganar. Era seguir Noroeste em direcção a Kayes numa pista inclusivamente marcada no 953 da michelin!

A pista seguia a via férrea Dakar-Niger e eu não sei quantas vezes cruzei a linha.

A densa vegetação nem sempre permitia uma navegação fácil e muitas vezes nos interrogamos que pista era esta, pois claramente os sinais de pouco uso eram mais do que evidentes. Nas sucessivas aldeias perguntávamos a direcção de Kayes e invariavelmente a resposta era a mesma. Sempre em frente! A via férrea que se cruzava connosco deixava pouca margem de erro! Esta era a pista certa ou pelo menos a pista que tinha sido acordado fazer!

Fazer esta pista na época das chuvas deve ser tarefa difícil, mesmo muito difícil. As pontes que já não existem, o atravessar de leitos pedregosos de rios que existem só na época das chuvas, a densa floresta, os bambus! Avisam-nos que a ultima viatura que por aqui passou, passou há três dias…
Invariavelmente temos que contornar as aldeias e reencontrar a boa pista e depois nem sempre é tarefa fácil. Mas os locais acabam por nos fornecer indicações certas e precisas. São horas de almoçar quando chegamos a Toukoto, povoação com a única estação entre Bamako e Kayes.

Esperamos pelo resto do grupo. Afinal tinha sido aqui combinado o ponto de encontro. De rádio VHF na mão insisto nas comunicações, sempre com o silencio como resposta. Encomendamos o almoço e as sempre presentes coca-cola e fanta! O comboio chega, a aldeia agita-se, os pedidos de cigarros acontecem e depois algo estranho. Um árabe pede-nos dinheiro para viajar. Diz-se pobre, apesar das roupas o diferenciarem dos negros, esses sim com sinais evidentes de pobreza. Não lhe satisfazemos o pedido.

Depois do almoço o contacto via rádio! O grupo, mais atrasado, parou para almoçar numa espécie de escola a uns 12 quilómetros de Toukoto. Afinal estamos todos na direcção certa! Para não nos atrasarmos, comunicamos que seguimos em direcção ao objectivo a velocidade reduzida.
Atravessamos o rio Senegal pela ponte do caminho ferro! Sabíamos o comboio parado na estação.

Passados uns minutos perguntam-nos via rádio se tínhamos passado o rio pela ponte ou a vau. Respondemos: – pela ponte! Foi a ultima vez nesse dia que comunicamos.
A facilidade de progressão numa pista difícil e de navegação confusa é muito maior com duas viaturas do que com quatro. Esta é a única explicação que tenho face ao facto de nunca mais termos sido alcançados pelo resto do grupo, apesar da velocidade moderada a que circulávamos. Às 17h00 paramos. Julgávamos que a hora e meia até ao final do dia seria tempo suficiente para que o grupo se juntasse. Limpamos filtros, conversamos, fizemos alguma manutenção e nada nem ninguém aparecia. A excepção foi mesmo um local que acompanhado da sua mulher, bonita e risonha, tentava por a sua “mobylette” a trabalhar que insistia em engasgar! Com um fio de aço de um cabo de travões limpou um “jigler” do carburador. Depois desmontou a vela, e com o mesmo cabo de aço, raspou a vela. Montou a “mobylette”, deu aos pedais, riu-se e desapareceu mais a sua mulher floresta adentro.
Já com a noite a cair tornava-se evidente que o resto do grupo não iria aparecer. Uns 300 metros à frente acampamos.

27º. Dia, 17 de Fevereiro

De manhã decidimos pregar uma partida ao grupo! Atravessamos um tronco na pista, colamos uns autocolantes e em jeito de aviso escrevemos que tinha sido aquele o lugar em que tínhamos esperado Não sabíamos se iriam passar por lá ou se alguém iria destruir a “mensagem”.

Depois o rio Senegal faz-nos companhia.
Em Bafoulabé o ferry. Um grupo de mulheres na sua rotina doméstica de tomarem banho e lavarem a roupa dizem-nos que temos que buzinar para chamar o ferry. Ainda nos divertimos no diálogo possível com estas mulheres jovens e simpáticas, pois apenas uma falava francês.

Perguntamos se tinham mangas. Uma mulher idosa que até então se tinha mantido em silencio, faz-nos saber que as mangas não são para os brancos. De uma forma ríspida aponta para a cara e diz que as mangas são só para os negros. Resolvo brincar com ela. Esta mulher apresentava cicatrizes na face. Agarro num marcador preto e faço uns riscos na minha própria cara! Tudo muda. Ri-se, agarra-me num braço e entoa um cântico. Tinha conquistado a simpatia da mulher idosa, mas mesmo assim não consegui as mangas porque pura e simplesmente porque elas não tinham.
No ferry a extorsão continua. Queriam 20.000CFA para a travessia. Com os carros já embarcados, retorquimos que temos tempo de sobra para negociar, afinal esperávamos o outro grupo. Depois de trocarmos argumentos pagamos 8.000CFA.

Na outra margem o tempo passa devagar. O outro grupo não chega. Os hipopótamos ao longe mostram-se. Propõem-nos uma viagem de piroga para ver os hipopótamos. Recusamos. Os hipopótamos são dos animais mais perigosos em África e os confrontos com pescadores e turistas incautos resulta frequentemente na perda de vidas humanas! Depois ficamos a saber que há anos em que organizam uma caçada aos hipopótamos para controlo da população. Abatem um cuja carne é distribuída por duas ou três aldeias. A caçada é feita sob licença das autoridades, avisam-nos logo.
Uma africana, vende-nos bananas e um mamão. Lentamente torra amendoins numa enorme panela de ferro. Oferece-nos amendoins! As horas vão passando. Jogamos à bola com uns miúdos. A comunicação com o outro grupo restabelece-se. É hora de almoçar e decidem almoçar na outra margem. Fazem inclusivamente uma votação para decidirem se atravessam o rio juntando-se a nós, ou em alternativa, avançam por uma pista em direcção a Kayes que os locais dizem ser impraticável. A nossa opção gastronómica passa por arroz com molho de amendoim!

O grupo está novamente reunido. Tinham tido algumas dificuldades de progressão com o percurso planeado, tinham-se atrasado, mas estávamos novamente juntos.
Depois um pista larga e rápida. Um furo na KTM resolvido com “mousse”. O alcatrão aparece, mas optamos sempre que possível por andar fora da estrada. É que os buracos são tantos…Kayes já não está longe e o Senegal agora é um rio enorme

A pista regressa. Perdizes e papagaios. Muitas perdizes atravessam a pista numa correria frenética e escondem-se num qualquer arbusto. Fesh fesh com fartura e pó, muito pó

A chegada a Kayes é feita já de noite e a procura de hotel ainda se revela tarefa difícil pois as opções disponíveis não passam de espeluncas caras em torno de uma via férrea que é o centro da actividade da cidade. Mas um aventureiro acaba por descobrir um Hotel que vem a revelar-se uma agradável surpresa!

28º. Dia 18 de Fevereiro

De manhã apreciamos a vida frenética de Kayes junto ao rio.

Depois procuramos a pista para Kiffa. Uma floresta de embondeiros. A pista rápida e poeirenta, acaba sempre por criar alguma distancia entre as viaturas e as motos. O Mali começa a ficar para trás. Em Aourou são tratadas as formalidades de saída – “Vu a la sortie du Mali au poste de securité Aourou ce jour 18-02-05” escrevem no passaporte. Depois o carimbo! A seguir um policia pergunta se não os presenteamos com um qualquer brinde? Um garrafa de whisky faz a sua aparição e os olhos até brilham. É advertido que não se trata de “whisky berbere” mas sim de “whisky europeu” . Com um largo sorriso, responde que sabe perfeitamente do que se trata e de imediato prova-o. Confrontado com a religião ri-se encolhe os ombros. As formalidades foram muito, mas muito rápidas! A ressaca no dia seguinte devia ser algo de muito mau, mas o policia dava mostras de já estar habituado!
Depois o pó e as pistas intermináveis. Tempo ainda para reagrupar e entramos na RIM. Impressionante, mas a areia está de volta. A pista arenosa apresenta grandes sulcos do transito de pesados. Em Kankossa tentamos cumprir as formalidades de entrada na Mauritânia. Depois de alguma demora no posto de policia, somos aconselhados a tratar dos carimbos em Kiffa. O fim do dia aproxima-se rapidamente e é tempo de abandonarmos o posto de policia e de procurarmos um local para pernoitar.

No cimo de uma duna, depois de mais um encontro com um escorpião, a discussão instala-se. O nosso “Jimmy Carter”, homem convicto do poder das eleições, reclama das regras da democracia ou da ausência delas. É que supostamente deveríamos ter votado a decisão de acampar e o local onde montaríamos o acampamento. Ao longo de 28 dias, sempre as decisões tinham sido tomadas com o bom senso que o momento e o lugar exigiram. Por uma qualquer razão desconhecida de todos, hoje tal não se passa! A discussão prolonga-se inútil e despropositada. Vale a amizade que os une! A pressão dos dias no Mali tinha deixado marcas, estávamos já na Mauritânia, longe dos bandidos e da ameaça sempre presente, do roubo das viaturas. Com os problemas de uma guerra civil na Costa do Marfim, as cadeias tinham sido abertas e tudo o que era bandido tinha-se passado par o Mali, explicaram-nos! Cada um acredita no que quer e eu nunca acreditei que fossemos perturbados se fossemos cautelosos. Toda uma logística necessária para assaltar uma coluna não se prepara de um momento para outro e tão pouco no meio da noite com umas luzes furtivas na cabeça a que chamamos frontais não inspirará muita confiança e tranquilidade a um qualquer grupo desconhecido!

29º. Dia, 19 de Fevereiro

A pista continua com uns sulcos profundos que dificultam muito a progressão. Depois a pista torna-se rápida e larga, e sem demora chegamos a Kiffa. Procuramos a policia, carimbamos os passaportes e depois, bem depois foi África no seu melhor, ou seja a alfândega. Ninguém sabia exactamente o que fazer. O policia andava de carro para trás e para a frente. Ou lhe faltava o conhecimento dos procedimentos administrativos ou lhe faltava o carimbo. Fomos nós que acabamos por ditar o que ele deveria colocar no passaporte. A confusão era tanta que ainda chegou a escrever num passaporte “sortie”, quando na realidade o que deveria colocar era “entreé”. Risca e pergunta-nos se sabemos escrever francês? Sim, respondemos. Então pede-nos que sejamos nós a escrever no passaporte o que é necessário. Depois ainda exigimos que coloque as características da viatura. É que a fronteira de Nouâdhibou já nós conhecemos…e se não entrarmos formalmente com uma viatura na RIM, como é que podemos sair a bordo de alguma? O posto de alfândega não tem declarações de honra para as viaturas nem declarações de valores. Calculamos que nos vão fazer falta à saída da RIM, mas não temos outra opção que é arrancar dali com as formalidades tratadas desta forma. A conclusão que chegamos é que não deve ser habitual utilizar-se esta fronteira, mas sim Ayoun el Atroûs. Pouco depois paramos para almoçar e ninguém se lembrou de elaborar nenhum processo eleitoral…e nem por isso houve discussão! A pressão dava mostras de abrandar…
Estamos já na famosa “Estrada da Esperança” em direcção à capital. Etapa longa numa estrada bela, mas pejada de cadáveres de animais que inundam as bermas, num cheiro nauseabundo!
As carcaças de viaturas acidentadas abandonadas pela estrada fora fazem acreditar que a assistência em viagem…não existe. Pequenos símbolos como este fazem-nos recordar onde estamos e em que condições. Dependemos de nós e da solidariedade do grupo!
Em Aleg até o abastecimento de combustível temos que regatear, pois pretendo pagar em Euros. Primeiro oferecem-me 290UM por cada Euro! Depois o empregado chama o patrão e este vai até às 330UM. Decididamente há que negociar. Quando percebe que são seis viaturas e duas motos, cede às pretensões de 350! Mas é duro negociar com estes tipos. Depois a longa estrada, que de noite apresenta muito mais perigo. Que o digam duas vacas e um camelo atropelados, apesar de tudo sem gravidade para a máquina e animais. Só o “mata vacas” entortou, não havendo registo de qualquer óbito! Apenas e só o susto e os míticos XS’s quadrados da derrapagem!
A chegada a Nouakchott faz-se já de noite.
O jantar promete. Um motard já conhece o restaurante e tece os melhores elogios. Eu deixo-me seduzir por uma lagosta. Tinha prometido a mim mesmo. Cumpri a promessa.
O albergue que era um parque de campismo ou um parque de campismo que era um albergue. Não percebi, mas também não foi relevante. Na realidade era uma vivenda que alugava quartos e quem quisesse dormia numas khaimas montadas no jardim. Ficamos numa camarata sob umas redes mosquiteiras. Um tecto! Soube bem um tecto até porque chovia!

30º. Dia, 20 de Fevereiro

A manhã chuvosa ou abençoava a próxima etapa ou então castigava-nos. Depois do calor do Mali esperava tomar um banho na praia. Merecia essa prenda, achava eu, mas não cheguei a tomar banho na praia.
O pequeno almoço foi tomado sob um toldo no jardim. A curiosidade de um casal de portugueses que lá estava. Vinham da Guiné num Nissan Patrol. Despediram-se desejando-nos boa viagem. Retribuímos os votos de sucesso. Na precipitação do abastecimento de combustível e da partida não me despedi de dois companheiros de aventura que por opção decidiram não fazer a pista da praia. Já em movimento pelo porto de pesca, contando as viaturas e as motos num acto automático repetido tantas vezes no ultimo mês, me apercebi que uma moto e uma viatura já não estavam connosco. Lamentei não me ter despedido, mas posteriormente rectifiquei a falta.
As duvidas acerca da maré não nos deixavam muito tranquilos. Os pescadores tinham-nos dado informações contraditórias e de facto o espaço de que dispúnhamos na areia molhada não era muito. A chuva caía. Raios, tinha logo que chover hoje. Bem poderia ter chovido numa pista poeirenta, mas não, tinha que chover logo hoje e o mar está tranquilo e azul.

Os quilómetros foram-se sucedendo a bom ritmo. O prazer de circular livremente na praia é imenso! Acelera-se, fazem-se curvas apertadas, foge-se do espraiar da ondas num bailado suave…
Os pescadores entretidos nos seus afazeres respondem aos nossos acenos. As pirogas coloridas alinhadas na praia parecem desafiar Neptuno.
Com o almoço o Sol reapareceu. Primeiro timidamente, depois mais forte, mas o vento fez-lhe companhia. Ainda aproveitei a paragem do almoço para reparar um fio eléctrico que se tinha partido deixando de alimentar o VHF. A vantagem de um carro como o BJ 40 é que é fácil identificar a causa de pequenas avarias e um bocado de fio eléctrico e um alicate invariavelmente resolvem o problema.
A duvida acerca da maré continua. Nem depois de algum tempo na praia conseguimos perceber se está a subir ou se está a descer.
As fotos vão-se sucedendo. As brincadeiras com as gaivotas também. Enormes bandos levantam voo à nossa passagem para pousarem pouco depois.

Mais à frente deparamo-nos com uma Renault Nevada parada na praia, junto à linha de água. Paramos e pedem-nos ajuda. O carro está avariado e precisam de o por a salvo do mar. De imediato uma viatura com guincho posiciona-se e o carro fica a salvo.

Ficamos então a saber a história dos três franceses. Fazem parte de uma organização humanitária e o objectivo é venderem o carro e as bicicletas que transportam no sul da RIM e posteriormente entregarem o apuro à organização sediada no Senegal. Faziam parte de um conjunto de mais viaturas com as quais nos tínhamos cruzado na praia. Uma Nevada, uma Espace e um 4×4. Mas o azar tinha batido à porta desta equipa, ou melhor tinha batido no “carter”. Com a maré a subir aproveitavam as algas espalhadas pela praia para conseguirem uma melhor tracção. Escondida no meio destas, uma pedra amolgou o “carter” e a bomba do óleo deixou de funcionar. Pararam de imediato o motor para evitar danos maiores. Perguntei como iriam resolver o problema. Fácil, respondem, apenas vão demorar algum tempo. Como? “Pas de probleme”, riem-se. Um é proprietário de uma oficina Renault, outro é chapeiro e outro ainda mecânico de motos. O problema não era comigo, mas mesmo assim respirei de alivio. Afinal eles sabiam o que faziam. Mas primeiro precisam de se alimentarem. Só tinham sardinhas e vinho, disseram-nos. Muitas latas de sardinha que lhes tinham sido dadas em Marrocos. Oferecemos pão. A boa disposição destes franceses não deixava ninguém indiferente. Por rádio ficamos a saber que uma viatura que se tinha atrasado estava a apresentar problemas de aquecimento. Decidimos reagrupar ali mesmo. Os franceses entretanto iniciam a reparação. Cortam um bidão para acolher o óleo do motor, desmontam o “carter” e “abrem” a bomba do óleo que se tinha amolgado com a pancada. Depois com um martelo endireitam o “carter” e limpam a junta. Depois é só montar, meter óleo e por a trabalhar. O motor “tosse”, mas pega. Trabalha que nem um relógio. FANTÁSTICO! Uma reparação feita ali mesmo, no meio da praia e sempre, mas sempre divertidissimos!

Curiosamente ainda tiveram tempo para nos dar umas dicas relativas à reparação de uma fissura no radiador numa das nossa viaturas. A razão do aquecimento não era mais do que uma fissura no radiador que deixava a água escapar. Com uma daquelas “barras repara tudo” e um tapa fugas debelou-se o problema.
Entretanto um Galloper, matricula de Malaga, com um árabe ao volante e duas senhoras chega no meio de um grande aparato de movimento. Começam por atascar ao tentarem sair da zona molhada. Empurramos! Este espaço estava a tornar-se um verdadeiro ponto de encontro de viajantes. Iam para a Gâmbia. Tinham sido apanhados pela subida da maré e estavam apavorados. O árabe dizia-se guia, mas seria talvez o mais básico do grupo dos três ocupantes. O Galloper com os pneus cheios como um ovo gemia e afundava-se sempre que manobrava. Olhamos uns para os outros e perguntamo-nos como seria possível tamanha insensatez! Uma senhora era espanhola, a outra, alemã.

Arrancamos para arranjarmos um local menos concorrido para acampar, mas passado pouco tempo desistimos. Decidimos acampar junto aos franceses e às “espanholas” como passaram a ser conhecidas.
Um bravo aventureiro questionava como é que iríamos aturar o árabe, tamanha a simpatia que nutria por ele! Ninguém simpatizou muito com este pseudo guia.

Depois fomos à pesca. Tínhamos levado umas canas de pesca e umas sardinhas em sal para servirem de isco, mas que acabaram por não se conservarem tão bem como queríamos . O grupo ria-se e alguns foram preparando o jantar duvidando das nossas capacidades. Vingamo-nos com uns sargos e uma “vária” ou “baila”, espécie de robalo. Os crentes no sucesso da pescaria foram presenteados com um arroz de peixe, com um toque indiano absolutamente delicioso. Os franceses foram convidados a juntarem-se a nós. Depois ainda tivemos oportunidade de verificar como um mauritano só com uma linha, um chumbo e três anzóis em dez minutos pescou 10 vezes mais do que nós! Retirei-me para a minha cama de campanha completamente derreado perante tamanha demonstração de eficácia. Jurei vingar-me no dia seguinte!

31ª. Dia, 21 de Fevereiro

A manhã apresentou-se agradável, com Sol, mas o vento continua. Espera-se pela maré. Vamos à pesca. O mauritano da noite anterior tinha deixado peixe espalhado na areia que nos serve de isco. Um regalo de pescaria, foi o que foi!

Entretanto o problema no radiador não deixava ninguém indiferente. Decide-se avançar para o alcatrão para evitar males maiores. O motard vai a Nouâmghar procurar ajuda. O chefe do PNBA regressa com ele. Aproveita para pedir emprestados 20 litros de gasóleo e aconselha um guia para seguir em direcção a Nordeste.
Seguimos até à entrada do Parque Natural e então obriga-nos a pagar a entrada no Parque, mesmo sabendo que não o vamos atravessar. Primeiro exige 3500UM. Depois de muito discutirmos acaba por cobrar as mesmas 1200UM que tinha cobrado em 2003.

Ainda fazemos 85kms antes de alcançar o alcatrão, agora com um militar a servir de guia, o melhor guia da Mauritânia afirmou…!
Agora, no alcatrão, rapidamente chegamos ao posto de fronteira. As autoridades avisam-nos de imediato que o posto marroquino está fechado. Inclusivamente, à laia de recado, diz que o posto fronteiriço da Mauritânia está aberto 24 horas e o marroquino não! Nós queremos é avançar e pouco nos preocupamos com esse facto! Tememos a falta das declarações de “honra” e a de “valores”. Quando o policia questiona as ditas declarações, alegamos que entramos por Kiffa e nada nos foi entregue! Kiffa? Pergunta, admirado…! Não deve ser habitual entrar por Kiffa e as formalidades de saída são tratadas rapidamente, de facto foi tudo muito rápido.
Depois a velha estrada e a pista minada.
Junto ao posto marroquino, uma corda encerra a fronteira. Já de noite, deixamos a luzes acesas e a pé dirigimo-nos à guarita. Somos um grupo de turistas que se atrasou e pretendemos entrar em solo marroquino, dizemos. O militar ouve-nos, manda-nos esperar e faz sinal a um outro que se encontra num edifício. Esperamos uns bons minutos até que nos diz para avançar. Somos recebidos por um militar vestido à civil cujo francês correcto nos deixa surpreendidos e que contrasta com a amostra de francês que falamos.
Explica-nos sem deixar qualquer margem de duvida ou equivoco que depois das 19h00 a fronteira fecha e a zona passa a estar sob autoridade militar. Ainda argumentamos, mas de nada valeu. Disse que mesmo que permitisse a nossa entrada já não estava ninguém nos serviços administrativos. Cinicamente ainda referiu no meio de um sorriso que “a vida de turista às vezes é dura”. Para terminar, desejou-nos boa sorte no regresso a território mauritano. “Os vossos amigos mauritanos terão muito gosto em receber-vos de volta”. Pedi para acampar ali mesmo. Riu-se e disse que não. Pediu-nos que tivéssemos cuidado no regresso até às viaturas e não nos desviássemos da pista. Raio de vizinhos que insistem em estarem de costas voltadas! Apeteceu-me mandar o militar aquela parte, mas não tivemos opção senão acampar na terra de ninguém. Até o acto de ir atrás do arbusto despejar águas me deixava nervoso a olhar para os pés!
Arranjamos uma tampa de um bidão, umas pedras e uns cartões e fizemos uma fogueira onde grelhamos o peixe que tínhamos pescado naquela manhã. Uma delicia!

32º. Dia, 22 de Fevereiro

Dois aniversários. Hoje é dia de aniversário para dois aventureiros! Feliz coincidência.
Depois as formalidades na fronteira marroquina que já está sob “domínio civil”. A única curiosidade foi o facto de quererem verificar os números de chassis das viaturas. Ou excesso de zelo de algum chefe acabado de chegar ao posto, ou então a possibilidade de termos trocado de carro no Mali! Foram rápidas as formalidades. Estamos já em Marrocos e a sensação é a de que já estou em casa, apesar de me faltarem 3.300 kms até ao Porto. Isto de fazer 3.300kms é “só” o equivalente a fazer Porto – Londres – Porto, num Toyota Land Cruiser BJ40 de 1980 e em quatro dias…

No Hotel “barbas” reabastecemos e almoçamos. Afinal a longa marcha para norte ia começar. A KTM avança para Dakhla para trocar os pneus de todo-o-terreno pelos de “estrada”. O reencontro combina-se em Port Layounne, no hotel já conhecido.
Quilómetros e mais quilómetros, só assim se define a longa estrada através do Sahara Ocidental.
O jantar, no Cabo Bojador. Pediram-nos 400Dh por um pargo. Oferecemos 100 DH e recusamos negociar. Aceitaram sem discutir a proposta!
Já tarde chegamos ao hotel. Um aventureiro que tinha decidido não almoçar no “barbas” tinha chegado e tinha noticias do motard. Um pneu tinha rebentado e decidiu ficar em Dakhla. Pediu para deixarmos no hotel em Port Layounne alguns dos seus pertences que transportávamos. Pela primeira vez, nesta viagem, tive dificuldade em adormecer. Um Bravo, por razões que lhe eram alheias, tinha ficado para trás…

33º. Dia 23 de Fevereiro

Ao pequeno almoço tomamos a decisão de esperar pela “mamba” e não estive sozinho nessa decisão. Tínhamos iniciado a viagem juntos, chegaríamos juntos!
Combinamos o reencontro com o resto do grupo que entretanto avança, para Tiznit, uns 100kms antes de Agadir. Era apenas uma questão de horas e eu ainda estava de férias.
Aproveitamos para a respectiva manutenção, lavar as viaturas bem lavadas depois da pista da praia e abastecer de combustível. Afinal gasóleo a 2.92DH faz a diferença. Desmontei o comutador de luzes e limpei o pó. Agora já tenho novamente “máximos”. Enquanto almoçávamos o motard apareceu. Ninguém está assim para trás e o reencontro é sempre agradável. A história do motard é simples, e contada pelo próprio ainda mais fantástica acaba por ser. Depois de mudar os pneus e uns 30kms depois do cruzamento de Dakhla um pneu rebenta, o de trás. Contactado o mecânico, a solução é ir buscar a moto, mas de ambulância. Mas meter uma moto de 200kgs dentro de uma ambulância não é tarefa fácil e a solução é pedir ajuda aos camionistas que vão passando e não se fazem rogados ao pedido de auxilio perante um “acidente”. Para justificar a requisição da ambulância, o mecânico precisa de um ferido, então o motard finge-se de ferido. Como supostamente está ferido, tem de ir ao hospital. No hospital, acaba finalmente, por se ver livre do imbróglio. Já corriam na cidade testemunhos de camionistas que tinham presenciado o acidente e tinham visto inclusivamente o pobre motard dar três voltas no ar antes de se estatelar no chão! Com tudo isto, toma a decisão de arrancar só no dia seguinte até pelo pneu que agora tem montado na KTM, que é o pneu de todo-o-terreno!
Depois a estrada, sempre longa e a chegada a Tisnit já de noite.


34º. Dia, 24 de Fevereiro

De manhã as inevitáveis operações de manutenção e verificação de níveis. Depois, tempo ainda para acrescentar óleo no circuito de embraiagem da “mamba”. Os aventureiros do pajero despedem-se, pois ainda dispõem de mais um dia e tencionam aproveita-lo por terras marroquinas.
Agadir e a chuva. O tempo chuvoso está de regresso. Decidimos ir pelo litoral, evitando deste modo a estrada movimentada de Marrakech.
A chuva continua. O bravo aventureiro que montado na sua máquina de guerra tinha feito todo o percurso em duas rodas decide esperar que o tempo melhore evitando deste modos a sempre perigosa estrada molhada. Decide ficar em Essaouira. Mais um grande companheiro de viagem este!
Depois a estrada movimentada, os ais das ultrapassagens e os taxistas de fim do dia…!
Já na auto-estrada ainda tempo para jantar numa estação de serviço que para comer, não tinha nada, senão bolachas e chocolate. Mais sorte tiveram outros aventureiros que apostaram numa outra estação de serviço por causa de um mal entendido e de um encontro falhado. Fartaram-se de nos gozar por não haver nada para comer, mas o espirito divertido impera, mesmo nos últimos dias de uma viagem tão especial.
A chegada a Asilah acontece já tarde, mas a Europa está já perto.

35º. Dia, 25 de Fevereiro

Ultimo dia de uma viagem tão longa e tão exigente sob tantos aspectos. O Nordic Jet, acolhe-nos e leva-nos de regresso a Tarifa, não sem antes um “operador de câmara” ser chamado à atenção por estar a filmar uma zona portuária em África, é que ainda estamos em África e às vezes temos tendência a esquecermo-nos. Depois um Galloper “morre na praia” ao ficar sem combustível uns 100metros da estação de serviço. Tantas contas fez, que se enganou por 100 metros. Dou-lhe o beneficio dos 100 metros! As despedidas recomeçam. Em Beja reabastecemos e as despedidas continuam. Mais dois companheiros de viagem rumam para outros destinos. Em Lisboa digo adeus e até ao meu regresso. Num segundo revi todo o tempo que levei na preparação da viagem e na construção do menu e agradeci o entusiasmo, a partilha e a sinceridade. Depois a A1 para casa. Ainda era sexta feira e o melhor da viagem foi reencontrar a família que se mantinha acordada.
Agora é tempo de parar e reflectir no que foi a viagem!

Continua…!

15 de Março de 2005


por António Magalhães
Última actualização ( terça-feira, 19 de julho de 2005 )