Diário de uma viagem (1ª Parte)

O MosquiTTo no Mali 2005 – Diário de uma viagem
(1ª Parte – Do Portop a Tombouctou)

Esta foi uma viagem de emoções. Mais do que qualquer outra que tenha feito, esta foi de facto uma viagem de emoções.

Para começar, toda a novela patética que a antecedeu, com trocas de mimos, com insistências bizarras, manipulações, votações e teimosias absurdas, para terminar com desistências várias vezes anunciadas mas nunca concretizadas, colocando alguns ingénuos na incerteza do desfecho até praticamente à véspera e isto apesar dos compromissos assumidos com patrocinadores. O nível de preparação de pessoas e máquinas foi completamente diferente uns dos outros.

Soluções adoptadas que não tinham sido testadas, peças defeituosas que mecânicos afiançavam como seguras, terminando num desconhecimento básico de um país que era o principal objectivo da viagem. Pasme-se, mas havia quem não soubesse que o Mali é um país interior e por isso não é banhado por nenhum oceano.
Daqui se pode inferir do ambiente que estava presente à partida.

1º. Dia, 22 de Janeiro

Na realidade o dia começou ainda na sexta feira, quando rumei para Sintra. Tempo para arrumar alguma da bagagem do motard a quem me propus dar apoio e colar os últimos autocolantes dos patrocinadores.

O dia começou muito cedo. O encontro estava previsto para as 6h45 na estação de serviço da BP no Aeroporto Internacional da Portela.

Muitos dos que foram acompanhando a preparação da viagem estavam presentes. Quiseram despedir-se e desejar-nos boa viagem. Atitude simpática de muitos, que contrastou claramente com a ausência de quem tinha obrigação de estar e não estava. É que, muito se fala e escreve, mas a realidade demonstra exactamente o contrário. São normalmente os que menos falam que de facto estão presentes quando o momento assim o exige.

As fotos do momento, os abraços e a corrida para os computadores para serem os primeiros a colocar as fotos da partida on-line! Grande motivação esta, a contrastar com o marasmo e o “jogo do empurra” que foi depois da viagem à RIM em 2003 a colocação de textos e fotos.
O nível da valvolina do BJ teima em confundir-me. É que suspeito que há uma fuga, mas só muito mais tarde acabo por perceber o sucedido. A “fuga” não era mais do que valvolina em excesso, que sob efeito do calor saía pelo respiro.


O Nordic Jet, ferry dinamarquês leva-nos até África.

Em Tanger as formalidades. Perguntam-nos se somos uma caravana humanitária. Respondemos que não e rapidamente as autoridades comunicam entre si. Sabem agora que o destino é o Mali.
Á chegada a Asilah, um outro sobressalto. A caixa de velocidades do BJ apresenta alguma dificuldade no seu manuseamento. A solução é encontrar um mecânico na manhã seguinte para diagnosticar e tentar resolver o problema.

2º. Dia, 23 de Janeiro

De manhã cedo procuro um mecânico. Abordo um taxista que prontamente me apresenta um mecânico. Afinal tudo não passava da embraiagem desafinada.
A viagem até Marrakech decorre sem sobressaltos, até que se detecta uma fuga de valvolina numa outra viatura. O condutor nem sabe onde fica o bojão da caixa de transferencias. Tinha já sido prevenido do defeito da peça, mas o mecânico insistiu que a peça estava em perfeitas condições. Por telefone pergunta ao mecânico onde fica o bojão para repor o nível da valvolina… compra-se valvolina com grau de viscosidade 140 para tentar atenuar a fuga, mas o mecânico insiste na 90. O condutor desdenha o conselho, mas posteriormente e já envergonhado adopta a 140. Que há pessoas para quem valvolina e água com sabão são exactamente a mesma coisa, há!
Com tudo isto a etapa fica mais curta do que o previsto e já não conseguimos chegar à “cidade dos anjos”, Agadir. Dormimos no jardim de um restaurante, sob uma noite fria e ventosa.

3º. Dia, 24 de Janeiro

Frequentemente somos apanhados em excesso de velocidade. Uns cigarros e uns pouco sentidos pedidos de desculpa acabam por levar a melhor face aos 400 DH de multa que tencionam aplicar. O calor começa a sentir-se. À noite o GPS todo iluminado desperta curiosidade. É uma televisão exclamam eufóricos, depois a desilusão da realidade do GPS. A chegada ao “Camping Beduíno” (N27º 27’ 717”; W 13º 03’ 105”), uns 30 quilómetros a norte de Layounne, acontece já de noite.

E nem sequer chegam todos ao mesmo tempo. É que supostamente os veículos de média relativamente baixa deveriam ser os últimos a chegar e nunca o foram. Parecia a rábula da corrida da lebre e da tartaruga.

4º. Dia, 25 de Janeiro

No trópico de câncer tiram-se fotografias.

O hotel Barbas surge no horizonte. Perguntamos se têm lagosta. Não, respondem-nos. A história da lagosta é muito simples: sempre que brincávamos na expectativa da viagem apostávamos quem pagaria uma lagosta no “Barbas”. Não nos deixaram alternativa e peixe grelhado foi a opção. Claro que o menu também incluía “poulet” e a omnipresente “fanta fraiche”

Depois foi a operação de substituição dos pneus de estrada por uns “todo-o-terreno” no “moscardo” ou “mamba negra”, nomes de guerra da fabulosa KTM LC8.

A operação acabou por ser um sucesso e demorou menos tempo do que suspeitávamos, não fosse ainda o facto de insistirmos em martelar o veio da roda da frente no sentido contrário correcto.
A outra moto, vinha comodamente instalada num atrelado, já devidamente preparada para a aventura que se avizinha. Esta moto, “Zeppelin” ou “diabo vermelho”, mostrou-se sempre verdadeiramente endiabrada até pelo facto de poucos serem capazes de a pôr a trabalhar. Era vê-los desesperados a dar ao pedal sob o ar divertido do “motonauta” que sem qualquer esforço aparente a punha a roncar. E que ronco!

Depois veio o drama do fantasma da segurança…a discussão, as tentativas de manipulação e os acordos que nem todos tinham tido conhecimento prévio. Houve quem amuasse, se fartasse de espernear, mas não teve outro remédio senão redefinir o que tinha combinado com o “informador”. E tanto mais gemeu pois alegava que agora a 3.000 kms de distancia não podia dar formação ao pivot. Mas apesar de tudo, nada que colocasse em perigo ou sobressalto o espirito da rapaziada que se preparava para deixar o alcatrão e entrar nas pistas, essas sim imprevisíveis e a exigir toda a atenção e a solidariedade do grupo. O episódio, triste, acabou por ser rapidamente esquecido.

5º. Dia, 26 de Janeiro

Primeiro a fronteira de Marrocos. As formalidades algo demoradas, arrastam-se sem qualquer razão aparente. Depois a pista minada na terra de ninguém. A fronteira da RIM já mudou de lugar e agora a estrada de alcatrão começa exactamente aí. Começam as conversas da treta, a declaração de honra em que nos comprometemos a não vender a viatura, a declaração de divisas e valores, a extorsão, que agora parece mais ou menos normalizada em 10 Euros por viatura. Já ninguém discute. Passam inclusive um recibo em que alegam “trabalho suplementar”.

O Artouro, guia mauritano, agente de seguros e cambista espera-nos. Tínhamos combinado por mail fazer seguro de responsabilidade civil para algumas das viaturas. À hora lá estava ele. 10 Euros por viatura é o preço do serviço. Aproveitamos também para cambiar dinheiro, mas no “oficial”, pois precisamos da declaração de cambio para provarmos que compramos dinheiro legalmente.
Depois de cumpridas as formalidades arrancamos em direcção a Choum. Primeiro a estrada de alcatrão que agora liga as duas principais cidades do país, depois a pista do comboio. Este ano soubemos manter uma distancia segura, e o cruzamento com o maior comboio do mundo deu-se sem problemas.

Desta vez optei por rolar mais a sul da via férrea, mais fácil a progressão, num terreno mais ou menos duro, sem a imprevisibilidade dos furos causados pelos bocados de ferro espalhados pela areia. Ao final do dia, as motos deveriam reunir-se, mas tal não acontece. Há uma moto que fica sem gasolina e a outra vem dar conta disso mesmo. Os rádios VHF não têm um alcance que permita as comunicações a distancias superiores a 20kms. No local em que esperávamos as motos tivemos ainda oportunidade para apreciar uma “michelin” bem típica, daquelas que julgamos não existir, mas existem.

Feito o reabastecimento, já com o sol no acaso, montamos acampamento.

6º. Dia, 27 de Janeiro

O monólito Ben Amera, e as primeiras dunas.

Um furo e o inesperado: pernos que partem quando pretendemos desapertar os parafusos das jantes. Isto vem alterar o que se tinha planeado que era seguir por um atalho em direcção a Atar. O cansaço começa já a dar mostras, principalmente em quem teve o arrojo de montado no moscardo fazer toda a longa viagem para Sul.

Mas a decisão de não fazer o atalho pela zona de dunas, vem revelar-se como a mais acertada. È que mal iniciamos o percurso pelas dunas, foi um desastre em termos de viaturas enterradas na areia.

Mal um resgate estava concluído, logo a viatura se voltava a afundar na areia macia. E isto várias vezes seguidas num espaço de poucos minutos. Então as viaturas mais pesadas…

Com todos estes acontecimentos acabamos por nos atrasar um dia face à previsão que tinha sido feita inicialmente e o acampamento foi montado no meio das dunas.

7º. Dia, 28 de Janeiro

Depois de alguma confusão em termos de navegação e da dificuldade em encontrar a “boa pista”, eis-nos na RN1 (Route Nationale 1) em direcção a Atar.

Na verdade é uma longa pista com a “chapa ondulada” mais demolidora que já encontrei. Pista utilizada por camiões, acaba por degradar-se rapidamente.

Todos tentam o melhor percurso e a melhor trajectória e o resultado é uma pista com inúmeras alternativas, nenhuma delas fácil de progredir. Tento de tudo: pista principal, atalhos, fora de pista, mais rápido, mais lento, mas o resultado é sempre um sacudir violento que ameaça desmantelar o carro. Nem a 80kms/h consigo progredir sem andar aos saltos. A mais velocidade tenho perfeita noção que não consigo controlar a viatura. A grande nuvem de pó que vamos deixando para trás ameaça envolver-nos e isso faz-nos acelerar sempre. Se aceleramos, saltamos, se abrandamos somos absorvidos pelo pó. Se por qualquer razão paramos, retomar a marcha é simplesmente penoso, pois temos que fazer as lombas da “tole” a velocidade reduzida, até atingirmos a velocidade de cruzeiro.

Os andamentos são dispares, as distancias entre as viaturas aumentam, tudo isto sob o olhar divertido dos motards que em pé, nas sua montadas, passam por nós com um sorriso divertido. O “Moscardo”, coisa de 950cc e 200kgs, uma KTM e o “Zeppelin”, 600 cc e 140 kgs, uma Honda XR. “Zeppelin, porque passa a vida a sobrevoar os obstáculos a grande altitude. Refere o feliz “motonauta” que a suspensão aguenta qualquer coisita.

Nem fumar um cigarro tranquilamente consigo e isto durante horas. Além do facto do vento acabar por consumir mais tabaco do que eu! Depois é a subida para um grande planalto onde a paisagem que se avista é soberba.

Atar já não fica longe e o calor convida a umas bebidas frescas. Já mais próximo de Atar a pista torna-se arenosa e foi precisamente numa dessas zonas que quase acontece um acidente frontal entre uma pic up local e o HZJ. Ainda tocam no espelho retrovisor. Paramos todos e fartamo-nos de discutir perante o olhar calmo e tranquilo do mauritano. Deve ser normal este tipo de condução e mais tarde percebemos que de facto estes “toques” são de facto normais.
Já na cidade, os dois motards defronte de umas garrafas de coca-cola já vazias olham-nos como que estranhando a nossa cara cansada e poeirenta!

No menu escrito na janela da esplanada um autocolante do 100Rumo. Juntei um do mosquitto e outro do TTverde.

Depois fomos à procura do parque de campismo. A tarde foi ocupada na reparação dos pernos e no descanso bem merecido numa “khaima”.

No parque uns franceses em 4×2 numa expedição humanitária. Para jantar, um restaurante senegalês. Boa comida, a preço justo!

8º. Dia, 29 de Janeiro

De manha fomos às compras, abastecemos de combustível e cambiamos dinheiro. A curiosidade pouco agradável é que somos imediatamente rodeados de intermediários que fazem inflacionar o preço de tudo. Um pão que normalmente custa 100UM passa imediatamente a 200. Incrível a forma como este comércio se processa. Na dependência de cambio é tamanha a confusão que o cambista pede a ajuda da policia que dispersa sem grande alarido a pequena multidão que entretanto se juntara. Mas já o cambista tinha tentado o esquema de tornar o câmbio muito menos apetecível. Tudo isto era feito com a maior naturalidade. Os preços mudavam de segundo a segundo.
O “Dakar” tinha estado à pouco tempo na cidade e tinha atraído tudo o que há de pior. Ainda se mantinham a deambular pela cidade estes tipos que vivem de esquemas momentâneos. Não encontrei interesse absolutamente nenhum em Atar e achei-a muito mais suja e desagradável do que em 2003.
Tempo ainda para reparar um furo de uma viatura.

Um grupo de holandeses e um espanhol ainda pensam juntar-se ao grupo para fazerem a pista até Tidjikja, mas desanimam e alertam-nos para uma tempestade de areia que se vislumbra no horizonte. Nada tementes à tempestade, arrancamos. Num posto de controlo, somos “forçados” a dar uma boleia. No cruzamento entre Chinguetti e Tidjikja ficou apeado.
As motos à frente com a recomendação de seguirem o “track” definido pelo GPS. Num entroncamento a duvida: pela esquerda ou em frente? Seguimos em frente, pela montanha e o resultado foi que nos separamos das motos. Pouco depois um amortecedor de uma viatura cedeu. O reagrupamento é feito via rádio. De nada serviu o “track” para a navegação, pois propositadamente ou não, acabamos por seguir uma pista paralela à que deveríamos seguir. Não será alheio o facto de termos encontrado um sinal com a indicação de “route barré”, mas com tanto fora de pista que acabamos por fazer…

O andamento era lento, a navegação confusa. É que, com tanta cartografia, pontos, routes e afins…Uns diziam que o World Map no GPS indicava uma estrada, outros ainda defendiam-se com os Mapas do IGN com 50 anos, outros ainda com as cartas russas…Se juntarmos a isto os pontos previamente recolhidos, as routes definidas e os tracks… A confusão instala-se. Ainda nos rimos um bocado pensando nos holandeses que se nos tentassem seguir, teriam que se confrontar com uma desorientação muito grande. Seria por questões de segurança que nem nós sabíamos muito bem por onde seguir?

Estávamos afastados para Oeste cerca de 30 kms. A pista há muito que não é utilizada. Areia imaculada inunda a pista. Os motards seguem junto com as viaturas.

A imprevisibilidade da pista assim o exige. Uma aldeia abandonada no meio de um oásis. É estranho ver uma aldeia com casas em bom estado estar abandonada. Julgamos que será uma espécie de abandono sazonal. O oásis é belo, contrasta com o amarelo da areia e o negro das pedras.

O fim do dia aproxima-se, a “boa pista” não surge e avançamos numa zona de pedras grandes e soltas. Para finalizar este dia, castigamos as suspensões e os motards divertem-se, ora na areia macia e fofa ora nas pedras.

Numa zona de “barkhanes”, mais ou menos abrigada, montamos o acampamento. Hoje prescindo da cama de campanha. Está frio!

9º. Dia, 30 de Janeiro

Um inferno; a pedra é um inferno! Fazer uns quilómetros fora de pista na pedra, mais parece uma prova de trial. Procuramos encontrar a velha pista do 953 da Michelin. Tínhamos vindo a seguir essa pista, mas agora com o avanço da areia, nem a pista conseguimos encontrar. Infernal! Ao fim de alguns quilómetros a pista. Primeiro muito indefinida, depois com pequenas pedras em montículos a delimitarem-na. Navegamos agora para Leste. Pelos pontos marcados no GPS sabemos que vamos encontrar a pista que liga a Tidjjka e que nunca deveríamos ter abandonado. Nas cartas IGN, esta pista está marcada como “Nacional 4”. Para atrasar, mais um furo!
No “moscardo” uma pancada na jante. Com um maço de madeira tentamos minimizar o estrago. À noite, fizemos uma fogueira com lenha que entretanto fomos encontrando pelo caminho. Ainda caíram uns pingos de chuva.

10º. Dia, 31 de Janeiro

A manhã, invariavelmente fria e ventosa. Está sempre vento! A pista ou a ausência dela continua a limitar o nosso andamento. Por incrível que pareça, ainda demoramos algum tempo a reencontrar a pista que estávamos a seguir no dia anterior. Afastamo-nos tanto de olhares curiosos que depois até a nós nos custa encontrar a pista!

Surgem as dunas. Impressionante!

Uma descida sob a areia macia. As dunas sucedem-se e a sua transposição, ao ritmo certo, acaba por não apresentar grandes dificuldades. A “erva camelo” e com ela a areia muito macia com alguns buracos que convém evitar. De manhã a progressão é fácil.

À medida que o Sol aquece, os atascanços surgem.

O almoço é feito sob um Sol escaldante. Os termómetros registam 40ºC. Depois a pista continua indefinida. Desviamo-nos das pedras e enfiamo-nos num oued. Uns nómadas divertem-se a verem-nos em dificuldades. Indicam-nos a pista certa e a completamente fora de pista, por cima das pedras, avançamos aos saltos.

Finalmente a pista. Muito mal marcada e em cima de pedra. Depois a areia. Depois o pó mas a progressão mais ou menos rápida. As acácias e a areia. As zonas mais lentas de areia muito macia em que as transmissões gemem!

A chegada a Tidjikja, o alcatrão e um posto de controlo onde nos perguntam pelo passaporte, os documentos da viatura e o seguro. Uns têm, outros não, mas tudo acabou por ser resolvido com 1.000 Ou e uma esferográfica! Há um elemento com uma otite que pergunta pelo hospital. De imediato é liberto dos tramites burocráticos sem se preocuparem mais com o seguro automóvel. De salientar a boa impressão com que ficamos do hospital e do seu pessoal, pelo testemunho directo de quem precisou dos seus cuidados.
Depois foi arranjar um albergue.

Uns franceses estavam lá abandonados à sua sorte. Comentavam que tinha sido a primeira e ultima vez que se metiam numa aventura destas depois de andarem ás voltas com um guia que sabia menos do que eles. E fizeram questão de mencionar a organização francesa: orpist!
O tipo do albergue adverte-nos para uma dificuldade muito ao estilo africano: o abastecimento de combustível. Há racionamento de combustível e só é permitido o abastecimento sob autorização da prefeitura, mas prontamente sugere duas alternativas: ou o mercado negro (na sua estação de serviço) ou 120 kms até Moudjéria, onde não há qualquer tipo de restrição. Decidimos tentar a autorização.
Discutem-se as etapas seguintes. A pista de Nema! A opção de ir ao Mali! O que é que se vai ver no Mali? Que tempo vamos ter para visitar o Mali? Mais do que físicas, já há quebras psicológicas. A perspectiva de uma pista incerta e dura acaba por fazer estragos, mesmo sem se ter iniciado o percurso!

11º. Dia, 1 de Fevereiro

Feitas as contas das necessidades para a pista de Nema, um elemento vai pedir autorização. São concedidos menos 100 litros dos que tínhamos pedido.

Até o pedido (sério) das necessidades é negociado. Incrível, mas é assim que se passa. A manhã é passada na revisão e manutenção das viaturas. Mais pernos para substituir e solda-se um amortecedor. Abastecemos 650 litros de gasóleo. Já todos em Tidjijka deveriam saber que o nosso destino era Nema. Lembrei-me das preocupações com as questões de segurança que tanto tinha exigido dos teclados em Portugal e deu-me vontade de rir! Lembrei-me da discussão no “Barbas” por causa do atraso ou não na informação a prestar e voltei a rir. Uns franceses nos seus HDJ100 olhavam para o meu BJ40 e deveriam pensar que eu os invejava, mas não, ria-me da ignorância demonstrada perante a evidencia de um abastecimento de 650 litros de combustível na única estação de serviço da cidade!

Tentamos encontrar um restaurante. Nada. Ainda encontramos uma cozinheira, mas o almoço só estaria pronto ás 15h30. A opção voltou a ser novamente as conservas e o pão. No mercado ainda compramos fruta e cenouras.

Depois do almoço, arrancamos então para a famosa pista de Nema. A areia surge de imediato. Com o calor intenso que se faz sentir, a progressão é lenta. Curioso, mas a sensação que tenho é que as piores partes das pistas acontecem sempre da parte de tarde.

E ao longo de muitos kms fui verificando sempre essa coincidência. Pouco depois mais desorientação relativa à pista a seguir. Em frente, seguia a pista para Kiffa. Desta vez a desorientação foi minha. A direcção a seguir era Sueste e não Sul!
Mesmo saindo tarde ainda conseguimos fazer uns bons quilómetros. Os corvos ao final da tarde sobrevoam o acampamento. Já há longo tempo verificamos que estão particularmente interessados num “motonauta”.

12º. Dia, 2 de Fevereiro

“Erva camelo”, pedra e areia durante muitos quilómetros. Assim se pode definir a pista para Tichit, principalmente os últimos 70 kms. Depois começam a aparecer umas balizas que indicam a pista.

A chegada a Tichit é absolutamente fantástica. Primeiro um longo palmeiral, depois, no alto os edifícios. A cidade está a ser reconstruída e as casas apresentam paredes meticulosamente aprumadas.

A minha surpresa quando me informam que aqui só existe gasóleo no mercado negro e mais surpreso fico quando me dizem que o combustível chega de camião, vindo de Nouakchott pela mesma pista que tínhamos utilizado. “Marché trés, trés noir”, foi assim que se referiram ao preço do gasóleo em Tichit e eu tive que me sujeitar a 300UM o litro. Faziam-me falta 20 litros, os que tive que prescindir dado o racionamento em Tidjijka. Apesar de tudo a satisfação quando me disseram que a qualidade do gasóleo era boa pois ainda era gasóleo utilizado pelo “Dakar”. O controlo no posto de policia e de imediato somos convidados para uma visita guiada à biblioteca e à mesquita. A visita guiada custou 50 euros! Repara-se mais um furo, mas o material para a operação teve que ser nosso. Avisaram-nos logo que não tinham nada para reparar o furo. Assim só a mão-de-obra é que foi local.
O jantar revela-se um fracasso total. Encomendado previamente, não satisfez ninguém! Massa e arroz com carne de camelo. A carne era intragável de dura que estava e a massa e o arroz tinham tanta areia que mastigar era uma sinfonia! Estava meio constipado, fui-me deitar, mas comi uma lata de feijoada.

13º. Dia, 3 de Fevereiro

O dia invariavelmente começa cedo. Há uma grande tempestade de areia. O vento sopra muito forte. O homem do gasóleo é também padeiro e traz-nos um saco de pão acabado de cozer. O melhor pão que comi nesta viagem, acreditem!
O interior do BJ 40 está cheio de areia. A operação de reabastecimento revela-se tarefa difícil. Manobramos as viaturas de modo a protege-las do vento e foi assim que enchemos os depósitos. O “moscardo” prega um susto: tanta era a areia que a chave da ignição não funciona. Não consegue rodar. Já tinha visto do mesmo num passeio/treino mas tinha sido numa BMW. Lembramo-nos do então foi feito e tentamos o mesmo. Óleo do motor e a seguir WD40. A chave rodou e a moto está operacional. Para evitar situações idênticas no futuro, usa-se um processo simples mas eficaz, cuja matéria prima é latex…!
Arrancamos no meio da tempestade, mesmo pelo meio da pista de aviação cujas mangas baloiçavam furiosamente.

Pedra e areia. Areia e “erva camelo”. Na pista vendedores de artesanato e putos que correm atrás do “cadeaux”. Subidas íngremes que exigem alguma aplicação das máquinas.

Junto aos poços a agitação habitual. Pessoas e animais misturam-se numa comunhão tranquila. E os burros imóveis. Sempre me impressionaram os burros na sua pose estática em contraponto aos nervosos camelos que com as suas patas longas e esguias descrevem manobras sempre imprevisíveis.

Uma formação rochosa, imponente. Já conhecia através de fotografias esta formação rochosa, mas agora aqui ao vivo a dimensão é completamente diferente. Em determinados ângulos parecem elefantes.

14º. Dia, 4 de Fevereiro

Retoma-se a pista. Subidas e descidas em areia e “erva camelo” nem sempre se fazem de uma forma fácil. Mas a técnica é simples para alguns: nas zonas mais difíceis convém avançar em primeiro lugar. Assim toda a caravana fica para trás e em caso de necessidade todos são compelidos a ajudar. Os últimos acabam por ser incentivados a não atascarem, pois a ajuda já se encontra à frente, logo ficarão ali a estorricar ao Sol até que alguém se aperceba que uma viatura ficou para trás. E a técnica funciona, acreditem que funciona. Aos poucos todos se posicionam de forma a não ficarem atrás das viaturas que mais atascam. Normalmente espera-se no alto da duna, com a frente virada ao vento e observam-se os sucessivos atascanços.

Depois via rádio pergunta-se se é preciso ajuda. Invariavelmente a resposta é – não, obrigado, não é preciso! Depois é só esperar pelo reagrupamento com a consciência tranquila. 11kms em 1h30 espelha bem as dificuldades desta parte da pista. Custa sempre readquirir o ritmo. Depois, começa tudo a fluir com maior naturalidade.

Ainda tempo para desatascar o “moscardo”. Mas a forma como estes motards andam, deixam-me invejoso. Ainda vou fazer isto de moto. As máquinas queixam-se, a progressão é difícil e estes tipos vestidos à “robocop”, todos equipados, como que nos gozam, tamanha simplicidade com que superam as zonas complicadas. È vê-los no alto das suas montadas escolherem a boa pista, numa espécie de “slalom” entre os tufos de “erva camelo”. Invariavelmente esperam-nos nos “waypoints” deitados sobre a areia. Fumam um cigarro ou uma cigarrilha e com um sorriso nos lábios perguntam-nos: já aqui estão? Vá, sigam que nós já vos apanhamos! Isto foi fácil, continuam! Viemos por ali, seguimos o “track” e foi sempre a andar!
As subidas e as duvidas. Será que vou conseguir? Depois as descidas, sempre a deslizar pela areia macia e a questão: e se tivesse que inverter o sentido da marcha será que subia? Não tentei!
A pedra reaparece. E com a pedra a pista bem definida. Agora é sempre a andar se exceptuarmos os pequenos saltos provocados pela areia acumulada na pista por acção do vento. Já estamos mais ou menos prevenidos.

15º. Dia, 5 de Fevereiro

Um atascanço. O mais rápido que já vi! Depois de nos termos enfiado num oued para passar a noite, evitando os olhares curiosos, na saída uma viatura mal inicia o andamento fica presa na areia. As pranchas saíram logo pela manhã.

O próximo ponto é Oualata. A pista começa a ser rápida. O Sahara está já para trás. Agora o Sahel. Erva rasteira e solo duro, aqui e ali marcado por rodados na época das chuvas. O transito de camiões e os grandes sulcos que estes deixam.

A transição faz-se de um momento para outro. Uma caravana de camelos, uma “azalai”. Estão armados, prenuncio de que a zona pode ser perigosa. Depois outra, e ainda mais outra. Seguem para Nema dizem-nos.

Para almoçar, o grupo divide-se. Uns optam por fazer mais 30 quilómetros até Oualata, outros decidem almoçar no meio da pista. As formalidades do registo na policia e um Unimog do “Instituto Mauritano de Pesquisa Cientifica” que terminou os seus dias na areia.

A aposta no almoço em Oualata veio a revelar-se a melhor. Depois de cumpridas as formalidades no posto de policia, uma feliz coincidência: a portuguesa que alguns tinham conhecido em 2004 em Ouadanne está agora em Oualata. Rapidamente alguém se encarrega de nos por em contacto. De seu nome Isabel, aconselha-nos um albergue e de facto a escolha foi muito boa pois a refeição foi a melhor que tivemos em muitos dias de deserto. Pintora, permite-nos ver alguns dos seus trabalhos e as notas que vai tomando dos lugares e das gentes que vai conhecendo. Combinamos um encontro em Nouakchott, 15 dias depois.
Entretanto o grupo está de novo todo reunido e alguns aproveitam para visitar a cidade enquanto outros se deliciam em saborear o descanso que os sofás do albergue proporcionam.
Tempo de partir. A vertigem espera-nos! Vertigem, porque a pista de Oualata a Nema é feita a ritmos alucinantes. Como se de repente algo se apoderasse de nós. Primeiro uma zona de areia, depois a pista rápida serpenteando por entre as acácias. As imagens do “Dakar” estão bem presentes e desenfreadamente aceleramos! Pistas paralelas, curvas em “slide” e os eternos saltos. De tudo valeu. Afinal a Pista estava feita. A temida e isolada Pista de Nema estava feita e foi como que um descarregar de adrenalina acumulada ao longo de cinco dias, o tempo que nos demorou a percorrer os 800kms num isolamento digno de registo. É o isolamento que mais impressiona, muito mais dos que as dificuldades da pista que até nem são muitas, agora o isolamento e o receio de alguma avaria, isso de facto infunde respeito e muita concentração, pelo menos a mim exige!

Um furo. Tamanha a diversão na condução, que uma pequena pedra, pontiaguda provoca-me um furo. Eu ainda a vi, mas não me consegui desviar. Pensei que não tinha causado dano, mas a realidade foi outra. Estava a poucos quilómetros de Nema e não me apetecia estar a mudar um pneu. Primeiro meti ar. Pouco depois estava novamente em baixo. Lembrei-me dos “tacos”. Então, foi só aplicar um “taco” sob o ar incrédulo e pouco seguro de todos. Funcionou e de que maneira! O pneu fez o resto da viagem de “taco”. Nem quero ouvir falar de outra coisa. De facto, para pneus sem câmara, a opção é fantástica. Nem foi preciso abrir mais um pouco o furo. Foi só aplicar e meter ar. Prático e eficaz, como eu tanto gosto!
A entrada em Nema faz-se já de luzes acesas e a opção para passarmos a noite recai no melhor hotel da cidade. Merecíamos!
Uma portuguesa, envolvida em trabalhos de arqueologia em Oualata estava lá instalada.
Ainda houve quem se queixasse do bocado de frango que lhe calhou em sorte ao jantar e como quem não berra não come frango, este aventureiro berrou e comeu!

16ª. Dia, 6 de Fevereiro

O dia começa praticamente por aquilo que seria mais ou menos comum nos dias que se seguiriam: a extorsão. Somos abordados em plena rua pela policia que nos pede os passaportes. Vamos para o posto da policia e a interminável demora no carimbo para dar seguimento às formalidades de saída da RIM. Depois de muito negociado acabamos por ter que pagar 100 Euros por um trabalho que diz ser “extraordinário”. Absurdo, mas é assim que funciona. Queria receber por passaporte e por viatura, mas acabamos por pagar 100 euros pelo grupo todo.

Entretanto um furo numa outra viatura exige a nossa atenção e decidimos aplicar a técnica do “taco”. Primeiro com uma chave de fendas retiramos uma pedra cravada e sob o olhar dos tipos da “michelin” foi aplicado o “taco”. De imediato o “pssssst” do ar a sair acabou. De tão surpresos que ficaram, ainda nos agradeceram! Ainda devem estar a pensar na técnica que utilizamos!
Cambiar dinheiro, comprar viveres e mudar seis pneus!
Uma viatura tinha sido particularmente castigada com furos. Seriam as câmaras de ar? Seriam os pneus? As câmaras já tinham sido todas substituídas, pelo que optou por substituir também os pneus. Deu à troca os pneus novos BF Goodrich que trazia, e meteu seis Michelin XS, os míticos pneus para areia, só que a areia já tinha terminado e o resto do negócio nem vale a pena contar!
Com tudo isto saímos de Nema em direcção ao Mali eram já 16h00. Para quem estava já atrasado face ao que tinha sido previsto, não restavam grandes duvidas de que o destino Mali não era muito apetecido para alguns! Um bravo, pontual como o “Big Ben” na sua hora de almoço, acabou por se sentar para almoçar só às 14h30, pois tinha estado a dar apoio moral à “operação XS”!
Nema é uma cidade suja, cheia de vícios e frequentada por gente pouco recomendável. Depois de almoçarmos queriam que pagássemos o local onde as viaturas tinham estado aparcadas, defronte do restaurante…
Ficamos também a saber que os raptores de um grupo de pessoas que andavam à caça com um príncipe do Qatar eram de Nema. O rapto tinha acontecido dois meses antes e os raptores tinham sido todos liquidados, garantiram-nos.
Decidimos avançar para o Mali por Nampala e não por Nara. Informaram-nos que a pista era segura e que não havia problema com as formalidades de entrada no Mali, pois podiam ser tratadas em Nampala. A pista é rápida o que nos permite cumprir 115 kms em 2h30, à estonteante média de 45.6km/h.

Pelo caminho fomo-nos cruzando com enormes camiões que transportam cargas perfeitamente absurdas. No meio de umas acácias acampamos. Depois ainda tempo para alarmismos e chamadas de atenção por causa do perigo que uma luz de cortesia poderia trazer ao acampamento. Afinal estávamos próximos da pista. A luz de cortesia podia ser um perigo, mas a luz vermelha de uma porta aberta, não! Era a pressão do destino a acentuar-se!

Uns pingos de chuva ameaçam-nos mais do que qualquer árabe mal intencionado e por isso decidimos montar um toldo sobre as camas de campanha.

17º. Dia, 7 de Fevereiro

A progressão por pistas diferentes acaba por criar alguma divisão e confusão relativa à boa pista. Os VHF continuam a prestar um serviço excelente, pois o contacto é constante. Apesar de tudo ainda há uns aventureiros que se atrasam por indefinição face à pista. Nem as cartas do IGN ajudam!
Reunimo-nos na ultima aldeia na RIM, onde encontramos, escondido num buraco, um escorpião. Provocado por uma pequena palha, não hesitou em lançar-se sobre a ameaça. Depois os locais com um chinelo trataram de o meter na ordem!
A entrada no Mali faz-se sem pompa alguma. A Pista continua estreita e sem movimento absolutamente nenhum. Tiramos umas fotos para documentar a entrada no país!

Em Nampala, um militar com uma AK-47, diz-nos que podemos e devemos tratar das formalidades em Léré. Agora as gentes apresentam vestes coloridas e são muito mais espontâneas nos cumprimentos. Estamos já na África negra e não há duvidas nenhuma, pelo menos para mim, como uma linha imaginária de fronteira acaba por influenciar hábitos e costumes.
No meio da pista o reabastecimento e a duvida: paramos já e montamos o acampamento ou avançamos para Léré? É que europeus em motos e viaturas 4×4 por aquelas paragens, só têm um destino e esse destino é Tombouctou. Ninguém precisava de perguntar. As autoridades invariavelmente colocam como destino Tombouctou. Todos nos indicam o caminho para Tombouctou. Voltei a lembrar-me da questão da segurança em que não se podia saber para onde íamos…e do atraso na informação a prestar…!

Em Léré, a extorsão continua. O policia queria 10 Euros por pessoa por fazer o seu trabalho. Negociamos 5. À luz de um candeeiro a petróleo desenha as letras relativas às formalidades de entrada no Mali. Depois a alfândega. Já de noite é preciso ir buscar o oficial. Não se mostra desagradado, nem exige qualquer tipo de retribuição. Um exemplo, este oficial. 5.000 CFA custa o obrigatório “Laissez-passer Touristique”, pagamos em Euros por ainda não termos CFA.

Questionado acerca da segurança da pista de Tombouctou, afirma que não há nada a recear pois a pista é segura. Educadamente pergunta se podemos dar boleia a um primo. Chama-o e faz as apresentações. Fica combinado encontrar-se connosco no dia seguinte, no albergue às 8h00. É que entretanto já tínhamos negociado o jantar e o alojamento no único albergue de Léré. Arroz com carne de vaca, disse! Mas a realidade foi na verdade outra e muito diferente. A vaca tinha asas e das pequenas. A dita carne de vaca não passava de uns desgraçados de uns pombos! Ninguém se sentiu particularmente satisfeito pelo sacrifício imposto aos pombos, mas uma vez que já estavam cozinhados…
O albergue era uma espécie de arca de Noé, com galinhas e coelhos espalhados por todo o lado. Lembrei-me dos pombos e da sorte que os coelhos e as galinhas tinham tido naquela que deveria ter sido uma espécie de “Lista de Schindler”, numa qualquer “Cristal Nacht gastronómica”!

O estalajadeiro queixa-se da falta de turistas. Fala da questão da segurança e lamenta-se dos turistas que não aparecem e dos impostos que tem de pagar. De facto sente-se que o turismo há muito abandonou este percurso.

18º. Dia, 8 de Fevereiro

A pista, bela com palmeiras. O rio Niger vai-se mostrando.

Seguir a boa pista nem sempre é fácil e acabamos por seguir uma usada por carroças, mas pelo menos vamos na direcção certa. Depois fazemos um circulo completo…até seguirmos para Niafounké, terra natal do grande musico Ali Farka Touré. Vale a pena parar e ouvir “Talking Timbuctou” de 1994, obra prima feita em conjunto com outro Grande Senhor da musica norte americana, Ry Cooder!
Os montes de térmitas as pistas de terra vermelha e o fesh fesh!

Num talho que é também restaurante, almoçamos. A carne é grelhada, partida em pequenos pedaços e servida com cebola; deliciosa! A cidade é divertida, com uma vida muito própria de gentes coloridas e exuberantes. As motos pulverizam as atenções.

Sempre que parávamos as motos eram irresistíveis. Atropelavam-se para espreitar para os velocímetros. Curioso eram as reacções quando estas eram postas a trabalhar. Debandavam como coelhos assustados. Riamo-nos a bom rir.

Interessantes são as cabinas telefónicas, as padarias e as omnipresentes camisolas do FCP!

Depois foi a pista rápida e as pontes cujo tabuleiro era em…madeira, sempre a acelerar em direcção a Tombouctou, a mítica, a misteriosa, a cidade dos 333 santos!

A estrada em construção ainda nos permitiu momentos verdadeiramente divertidos. É que seguíamos à frente e algumas vezes os trabalhadores entusiasmados por nos verem passar, acabavam por nos incentivar e aplaudir como se de uma corrida se tratasse. Abriam os cadeados e desviavam os camiões, vibravam por nos verem passar por cima dos montes de terra acabados de despejar de uma qualquer báscula. Foi divertido. Gritavam rallye, rallye!
A chegada a Tombouctou tem algo de mítico.

Tínhamos conseguido. Depois de tantas dificuldades, depois de tantas idiotices que foram ditas e escritas, os medos e receios inconfessáveis, tínhamos provado que era possível chegar à cidade dos homens de azul. As fotos tiradas então tiveram um significado muito, mas muito especial.
Rapidamente a realidade chega sob a forma da obrigatoriedade do registo na policia. Ficam com uma ficha com os nossos dados, carimbam o passaporte e exigem-nos 20 Euros! Respiramos de alivio, afinal são 20 Euros a dividir pelos doze elementos do grupo.
No hotel Bouctou bebemos umas cervejas, a comemoração assim o exige! A camisola da selecção atesta que Portugal não é desconhecido

19º dia, 9 de Fevereiro

Ainda não tínhamos CFA. A opção foi ir ao banco. Umas boas duas horas para cambiar dinheiro. As ruas de areia e a estrada de alcatrão. Uma sandália insistia em rebentar, pelo que, num sapateiro na berma da estrada encomendei que a cosesse solidamente. O sapateiro solicito e nada disposto a fazer-me esperar emprestou-me uns sapatos enquanto fui ao banco!
Depois fomos visitar a cidade. O mercado, as compras, a mesquita. A rua René Caillié em honra do aventureiro, explorador e naturalista que em 1928 entrou na cidade vedada aos europeus. Ainda um bravo aventureiro perguntou se Caillié era mais um musico famoso a exemplo do Ali Farka…!

Não há duvida que a cidade é mítica. Não é por ser particularmente bela, que não é. Os seus habitantes nem são particularmente simpáticos. A pressão turística até existe. Todos querem ser guias e assim ganharem uns trocos. Mas que a cidade tem uma aura especial tem. Mas gostos, são gostos!

O almoço foi num restaurante recomendado e pedimos algo típico. Uma desilusão. Um pão com molho e uns pedaços de carne. Que saudades tive eu de uma “francesinha”…! Arrancamos em direcção ao ferry e eu ainda pensava na “francesinha”.

À espera do ferry a tragédia quase acontece. Um camião sai do ferry, mas não consegue imobilizar-se na margem íngreme. Ainda tentam meter-lhe um calço, mas sem efeito e eis que o camião completamente fora de controlo vêm de marcha atrás até ao ponto de onde tinha saído momentos antes, o ferry! Momentos antes a KTM tinha estado no sitio por onde o camião passou! Um bravo aventureiro que estava no ferry a negociar o preço da travessia ainda teve que dar um grande salto para se desviar do camião. A tangente que passou ao Pagero que estava parado à espera de embarcar foi digna de registo. O certo é que foi um momento de grande preocupação para todos, pois o acidente perfeitamente estúpido, não aconteceu por uma mera casualidade.

Depois a travessia num outro ferry, uma vez que o primeiro ficou fora de serviço, com o camião meio embarcado, meio atascado. Quatro viaturas e duas motos embarcam, os outros esperaram deliciando-se com as manobras de recuperação do camião e do ferry.

Já em pleno Niger, altura para uma brincadeira: o GPS. Interessado na velocidade a que navegávamos, um motard olha o GPS. Um tripulante curioso observa. Convidado a verificar a velocidade, não acredita. Pede então ao skipper que acelere. Só acreditam quando vêm no écran 7 km/h, 7,2kms/h, 7,5hms/h, 8kms/h! É vê-los a acelerar o ferry para verificarem se o GPS mede a velocidade. Ficam eufóricos com a estonteante velocidade de 8kms/h!

Depois, na outra margem esperamos o reagrupar da coluna. Conversamos com uns franceses, e começamos a perceber a grande azafama do fim do dia. Muitas viaturas se precipitavam para a margem, uma particularmente interessante pelo modelo e pelo tamanho da carga. Impressionante a resistência, durabilidade e longevidade Toyota!

Um guia aborda-nos. Lembra-se dos assaltos que uma expedição portuguesa foi vitima no Mali nos idos anos 90. Falamos sobre o incidente.
Quando o ferry regressa com o resto do grupo, a anarquia instala-se! Mas anarquia é mesmo anarquia! Todas as viaturas se precipitam para a margem para ocuparem um dos 4 lugares disponíveis. Amolgam os 4×4 uns contra os outros, buzinam furiosamente, queimam embraiagens, gritam, gesticulam, tudo numa azáfama e numa precipitação como se de uma fuga se tratasse perante um invasor implacável. Não respeitam ordem de chegada absolutamente nenhuma. Quase que fecham a saída ao grupo acabado de chegar no ferry. Ainda temos que ajudar a manobrar a Excalibur, em apuros perante a horda de carros alinhados na margem. Depois de todos estarem a salvo, deliciamo-nos a observar o cumulo da organização e disciplina africana…
Decidimos acampar nas margens do Niger, a poucos metros do local do ferry. Nas sucessivas deslocações pudemos verificar a agitação do embarque. Não esquecerei nunca a algazarra e o quanto nos divertimos a apreciar a continua barafunda, mesmo noite fora.

Por decisão unânime, tínhamos abandonado o projecto de avançarmos até Gao e à reserva dos elefantes de Gourma. As pistas já tinham deixado as suas marcas em termos de tempo e o tempo é algo que numa viagem destas nunca se recupera senão à custa de cortes no percurso. Foi feito o que tinha de ser feito. Cortou-se o percurso!

Continua…!

8 de Março 2005


por António Magalhães
Última actualização ( terça-feira, 19 de julho de 2005 )