Kanimambo – Moçambique

Acolhidos pela magnifica boa disposição dos locais, nem tivemos tempo de contabilizar o tempo perdido na alfândega.

Rapidamente lembrei-me da primeira vez que tive contacto com este país. Foi há uns bons anos atrás e limitei-me apenas a conhecer a cidade de Maputo. À chegada, fomos surpreendidos por uma “onda” de calor enorme. Note-se que vínhamos da Europa, onde as temperaturas do ar estavam francamente baixas.
Ainda me lembro das avenidas longas e arborizadas, das esplanadas repletas de pessoas, do ar quente, da cor, da alegria que se vivia!

Da janela do meu quarto vislumbro a famosa e magnifica Baía do Espirito Santo. O ar é fresco, a contrastar com o calor que se faz sentir no interior do quarto.

O mar está calmo, exercendo sobre nós um poderoso e magnifico encanto.

Depois de um merecido descanso, resolvemos percorrer as ruas da cidade e dirigimo-nos para o mercado municipal, que estava completamente apinhado de gente. Nas bancas podíamos comprar de tudo: alimentos frescos e coloridos, peças de artesanato. Envolvia-nos uma atmosfera de boa disposição, contagiando qualquer forasteiro que por ali passasse.

Já a sobrevoar Pemba, consigo avistar uma paisagem luxuriante, composta por uma diversidade de vegetação verde a contrastar com o azul do oceano e o vermelho dos estradões de terra salpicados de embondeiros. Embora com algum atraso, o avião acabou de aterrar.

Depois das formalidades, dirigimo-nos para o Pemba Beach Hotel. Estava um calor intenso e abafado. Ao longe, nuvens de tempestade em tons de cinzento escurecem a paisagem e anunciam chuva, o vento sopra baixinho. Acompanhada de um estrondo, a trovoada, apareceu sem darmos por isso. Caiu uma bátega de água, transformando a estrada praticamente num rio de corrente rápida, trazendo consigo um ar fresco e o cheiro da terra molhada. Estou em África, não tenho dúvidas.

O Hotel, é um edifício muito bonito. A sua arquitectura tem fortes influências árabes, os jardins são cuidados, amplos e muito verdes. No interior, há uma forte presença do estilo colonial.

Algumas salas, são autênticos museus de caça. São inúmeros os exemplares expostos. Podemos apreciar, galinhas do mato, dentes de elefantes, chifres de kudus, rinocerontes. As fotografias que decoram as paredes, retractam tempos áureos dedicados a esta prática desportiva. Durante alguns minutos, detive-me e observei uma magnifica fotografia a preto e branco: um caçador branco de caça grossa, com guias negros ao seu serviço, ostentando os despojos do dia: impalas e uns chifres enormes de rinoceronte.

No dia seguinte partimos à descoberta. A chuva havia parado, dando lugar a um sol quente e brilhante.
A cidade de Pemba, possui uma diversidade muito grande de mercados tradicionais, que podem ser encontrados nos bairros de Paquitequete, Natite.
Podemos também apreciar a imensa baía, a cidade antiga ou mesmo o porto Amélia.

À medida que caminhávamos, íamos fortalecendo o contacto com os locais que sorriam e cumprimentavam-nos de uma forma bastante efusiva. Fomos abordados, por uns miúdos que simpaticamente nos convidaram a entrar num bar local e ofereceram-nos bebidas frescas. Conversámos durante algum tempo e deliciamo-nos com as suas histórias .

A alegria dos miúdos está sempre presente e acaba por nos contagiar.
A simplicidade deste povo, não nos deixa indiferente. Sinto-me em casa e é com alguma tristeza que me despeço destes africanos e da sua acolhedora habitação.

Percorremos a estrada bordejada de palmeiras, até avistarmos a praia de água azul e transparente. A praia do Wimbe!
A maré da tarde, trouxe consigo algas marinhas, pedaços de madeira e outros detritos que todas as marés arrastam para todas as praias.
Fiquei por ali durante algum tempo, conversei com os locais e contemplei o farol na linha do horizonte.

Sem perdermos contacto com a linha de água, visitámos o Farol. Para além da magnifica vista sobre o mar, a área que o circunda possuí um tom vermelho muito escuro. Ficámos também a saber que é a província mais a norte de Moçambique. A fronteira é separada pelo rio “Rovuma”, tendo a Tanzânia a Norte e sendo banhada a Este pelo Oceano Indico.

Estávamos cansados. O calor, as picadas de terra vermelha, os sucessivos atolanços na areia fofa e macia, a curiosidade… tudo despertava interesse e mesmo exaustos foi com alguma decepção que entrei para o jipe e me dirigi para o hotel.

Hoje espera-nos um percurso aparentemente fácil: a EN1 é uma estrada asfaltada e leva-nos para Inhambane.

Saímos muito cedo. Anuncia-se mais um dia quente e o caminho embora não seja longo, apresenta muito trânsito, sobretudo camiões completamente carregados! Chego a preferir as duras condições das pistas de terra vermelha, cheia de crateras, do que estas estradas onde o perigo está sempre presente.

Os seus ocupantes acenam-nos efusivamente e deixam transparecer uma alegria fantástica.

O jipe, era uma relíquia de 1961, desconjuntado e arejado. Só por milagre é que andava.

Atravessamos pequenas aldeias limpas e cuidadas. Os miúdos que encontrámos, apresentam sinais de uma calma e tranquilidade invejável.

A paisagem é soberba. A estrada atravessa uma luxuriante vegetação tropical muito diversificada. Longas extensões de palmeirais, carregados de cocos a contrastar com culturas de citrinos, bananas, canas de açúcar, de arvores carregadas de papaias… à beira da estrada vimos autenticas pirâmides de cocos, prontas a serem recolhidas por camiões.

Depois de sairmos de Inhambane, prosseguimos a nossa viagem ao longo de uma estrada costeira, que apresentava pouco trafego. Encontrámos uma picada que nos levou a uma bifurcação, à esquerda fica a Ponta da Barra, para o lado direito fica a praia do Tofo. O nosso objectivo era a praia do Tofo, que dista aproximadamente 10 quilómetros de Inhambane. No entanto e levados pela curiosidade, fizemos uma pequena incursão até à Ponta da Barra… andávamos alguns metros e POF!… saíamos do carro, retirávamos a areia que estava junto às rodas e tentávamos prosseguir mais um pouco… escusado será dizer, que as horas, os minutos não paravam, em contrapartida nós não saímos do mesmo sitio.

É impressionante a quantidade de areia. Mesmo utilizando os nossos próprios meios, era uma autentica aventura, a progressão que conseguíamos ter.

Já exaustos, resolvemos retomar o percurso inicialmente definido e dirigimo-nos então para o Tofo.
Mergulhámos nas águas calmas e quentes e deixamo-nos ficar ali.

Com o final do dia a aproximar-se, tivemos de procurar alojamento para pernoitar. Estávamos praticamente no fim das férias e queríamos aproveitar o pouco tempo que nos restava. Foi com alguma contrariedade que saímos da praia e nos dirigimos para os complexos turísticos a procura de uma solução.

Ficámos instalados no “Albatroz”, um complexo fantástico! Possui uns chalés com vista sobre o mar. As casa são de tijolo, pintadas a branco e o tecto é de colmo. Entre as paredes e o tecto existe uma abertura de dez centímetros, que possibilita a renovação do ar, assim como a entrada de tudo o que é bicharada….! 

Este complexo pertence a uns Sul – Africanos. À entrada tivemos a oportunidade de conhecer um homem sábio e com fortes marcas do tempo estampadas no seu rosto. Não me lembro do seu nome, no entanto tenho presente a forma como protegia a propriedade privada, utilizando uma “zagaia”. Divertimo-nos imenso, com a sua habilidade e destreza no manuseamento da sua estimada “arma de defesa”…

As casas são muito confortáveis e face à quantidade de mosquitos existentes, possuem uns mosquiteiros que estão presos a umas ripas de madeira, simples e eficazes.

Esta era a nossa última noite em Moçambique, sentamo-nos na varanda do chalé e enquanto bebíamos uma cerveja, perdemo-nos a observar os minúsculos insectos que ziguezagueavam em torno da luz. Ao longe ouvíamos o barulho das cigarras e dos pássaros.

Não tínhamos mais tempo e rapidamente começamos a arrumar a nossa bagagem…

Da janela do avião, despeço-me desta maravilhosa terra que tão bem me soube acolher, durante estes dias…!
É o adeus às galinhas do mato, às colinas verdes e onduladas, ao solo encarnado-vivo…ao cheiro do capim!.

Fátima Geraldes
Moçambique 2005