A Histórica do LZEC #11

Estamos no dia 29 de Março de 2005. A chuva já chegou, mansa, muito mansa. Os filhos de Wang Lung já não se podem queixar, a terra está outra vez húmida.

Daqui a dois dias acabam as inscrições para o Lzec 2005, pelo menos a primeira fase. Passados tantos meses de trabalho, sinto que a mensagem não passou, ainda. A expectativa de haver um grande número de potenciais candidatos, perde-se no tempo, não passa de uma ilusão. Pensei por largas semanas que poderia, finalmente, descansar um pouco. Errado.

Ainda não foi desta que eu consegui fazer com que os participantes se deslumbrassem com a História de Portugal – pequenos bocados de tempo e de vida emanados de portugueses de todas as origens, côres e feitios – naquele bocadito de terra perdido no meio do mar. Ainda não foi desta que eu consegui transmitir, ou alertar, para o insólito. Não é de facto, todos os dias que se está em plena selva e se encontra um miúdo a falar Português. Não é todos os dias que se vai até um sítio como este e se pode pensar se falhámos, ou não, enquanto potência colonizadora.


Foto de Brígida Rocha Brito

Para mim, pessoalmente, não chega nunca, ler o que os livros contam, o que os jornais noticiam ou o que a televisão retrata. As minhas emoções têm, forçosamente, que ser sentidas. Precisei sempre de estar nos sítios próprios e no tempo certo, para poder complementar a informação que tenho recebido ao longo da vida. Achei sempre que o Latitude Zero – Equatorial Challenge podería ser um poço de emoções, pronto a ser absorvido por um sem número de participantes. Mas não, afinal de contas, a motivação para o projecto reside fundamentalmente na Organização que se identificou com a idéia desde o primeiro momento. Será que é porque temos todos alguma coisa a ver com África?…talvez…
Nunca, em momento algum, me lembro de ouvir um participante dizer que “aquilo que mais me marcou foi ver aquele rapazito meio nu, sem saber ler nem escrever, no meio do mato, ou ouvir aquele velho contar histórias do antigamente”… e em Português.

Ou seja o mais maravilhoso deste cenário ainda não passou para o exterior. Acaba por permanecer, praticamente enraízada, dentro de nós, Organização, sem vingar, crescer e, dar flôr e fruto. Os participantes, pedras fundamentais de todo este processo, acabam por extravasar emoções de circunstância, referindo-se à camaradagem entre todos, às dificuldades do percurso, ou à beleza das praias. A maior parte deles ainda não se apercebeu do pouco bem que já fizemos, com as coisas que oferecemos tais como, livros, roupas, medicamentos e outros. Talvez todas estas acções estejam demasiadamente prostituídas. De facto nada disto é novidade, já muitos o fizeram antes de nós. Mas, também, nenhum de nós, Organização e Participantes, havia estado envolvido em semelhante situação, penso eu. E também nunca houve corrupção àcerca deste assunto. Nem podería haver, era só o que nos faltava.
Afinal, onde é que eu, como líder do projecto, estou a falhar? Sinto-me com forças para prosseguir? Seguramente, sem limites ou fronteiras, até o que permitir a força humana, neste caso a minha e da minha maravilhosa equipa. Se fôr preciso faremos como em 2003, ou seja, vamos alguns, os melhores. Não podería nunca traír quem nos estimulou desde o primeiro dia. Acabamos por avançar em nome da Portugalidade, ou melhor, actualizando-me, da Lusófonia. Na era da globalização poucos foram aqueles que perceberam a verdadeira história das pontes que queremos recuperar. São Tomé e Príncipe aguarda-nos, particularmente as gentes de Willy, Sta. Josefina, Sto. António e são Miguel.


Foto de Brígida Rocha Brito

Acaba por ser um estímulo vasculhar o arquivo e reler as emoções de 2003.
Alguns textos, a tal substância, do arquivo que é vasto:

19 de Outubro de 2003
Acreditem que a minha relação com Àfrica alterou-se.
Antes de STP, todas as minhas incursões africanas não deixaram muitas saudades.
Talvez porque alguns desses países estavam em guerra,
talvez porque o cheiro das grandes cidades era pestilento,
talvez porque alguns povos não foram hospitaleiros,
talvez porque havia sempre insegurança,
talvez porque não fui integrado num grupo de pessoas decididas e bem dispostas e com mulheres bonitas,
talvez porque não havia tempo para tomar banho na praia, às duas da madrugada,
talvez porque o desafio não fosse tão apaixonante,
talvez porque não conhecia São Tomé e Princípe!
Obrigado pelas novas experiências e amizades.

Fernando Veludo
(fotojornalista do PÚBLICO)

25 de Outubro de 2003
Meus Caros

Tinha estado por uns brevíssimos quatro dias em S. Tomé no Verão de 2000. Fiquei, ficámos apaixonados. Decidimos logo ali que havíamos de voltar. Mal me caíu na sopa o fax do LZEC nem queria acreditar que poderia estar aberta a porta para voltar à latitude zero do Mundo, a um lugar mágico, que nos faz sentir tão bem e tão mal, tão longe e tão perto, tão solidários e tão egoístas, uma terra de contrastes absolutos, que jamais nos deixará indiferentes.

Voltámos.

O pretexto foi, de facto a expedição, mas tínhamos na mente outros propósitos, talvez não tão nobres mas igualmente importantes.
Por isso, se calhar, alguns não nos considerem «da equipa». Têm razão. Não fomos ao mato, passamos ao lado… não vimos a ponte ruír com o Jorge debaixo, não apanhamos chuva nem cozinhamos o nosso jantar, não fizemos isto nem aquilo. Mas fomos.
E S. Tomé ficou ainda mais mágico, mais entranhado, mais perto.
Às vezes tenho saudades da imprensa escrita, para poder descrever da forma brilhante como faz o Pedro Garcias no «Fugas» de hoje, os cheiros e as cores, os sentimentos, a alma que se enche, as imagens que nos ficam retidas na mente e que nunca esqueceremos. Ou como faz o Fernando Veludo no «Fugas» da semana passada, com um testemunho escrito e visto do mato, do desafio, da «Expedição…».
Confesso que ficamos com uma ponta de inveja de afinal não termos ido… «ao mato».
Mas verão, se quiserem, nos próximos dias e semanas que não fomos apanhar banhos de sol. Que vamos contar outras histórias de STP, de gente que sofre, e que ri, e recebe de braços abertos, uma história que é a nossa, de pretos, brancos, mulatos, mestiços, enfim, histórias de pessoas, estejam onde estiverem, sejam quem forem… são apenas pessoas.

Da «ideologia» da cobra negra, da magia de «alicinha», do chocolate dividido em mil pedaços entre crianças «perdidas» numa roça, dos olhos magoados do mercenário do «Comando Búfalo», das mulheres que jogam futebol descalças num campo com 30 centimetros de capim, da «nossa» história de «Vasi», um miúdo de quinze anos que viu a mãe partir para Portugal em busca de uma filha que não conhecia, que nunca tinha visto, e que tem 35 anos, do petróleo, das pessoas «normais», está tudo guardado na memória. E a memória nunca se apaga, se quisermos muito que não se apague.

Queremos voltar.
Para nos sentirmos em casa outra vez. E nem sequer dá para repetir sensações porque cada vez é diferente, como se fosse a primeira. Gostavamos de, «para o ano», ir «para o mato». Veremos se será possível. E sem querer distinguir ninguém «da equipa», não posso deixar de dizer ao João que ele é mais pequeno que a sua obra.
Para mim, faz parte da galeria daqueles que, dizia Camões, «Se vão da Lei da Morte libertando…»
O LZEC é dele, é ele, e nós, todos, temos de agradecer-lhe por existir, por insistir, por resistir.
Voltarei.

Pedro Cruz
Jornalista SIC

31 de Outubro de 2003

Desde os quatro anos de idade que tinha o sonho de ir a África. Naquela altura, alguns familiares e vizinhos estavam em Angola e quando vinham de férias falavam de África de uma forma que me encantava. O meu fascínio era tal que uma vizinha me prometeu levar dentro de uma mala. De barco claro. Esperei por isso durante poucos anos, porque entretanto deu-se o 25 de Abril e o meu sonho desmoronou-se. Pude agora, já entrado na meia-idade, cumpri-lo. Não fui a Angola, mas fui certamente a um lugar melhor do que Angola. A ideia que tenho dos Angolanos, sobretudos dos dirigentes, é a de que são mais racistas do que nós. Acham-se uma espécie de régulos que gostam de viver como nababos e que, quando as coisas correm mal, tratam de atribuir todos os males ao homem branco. Em São Tomé vi o contrário. Vi, infelizmente, homens brancos a comportarem-se como se aquele arquipélago ainda fosse uma colónia portuguesa. Vi homens e mulheres. Lembro-me, por exemplo, da dona do Café & Companhia, que era só sorrisos, cínicos, para os brancos e berros para os funcionários, todos negros, claro. Eu sei o lhe falta, mas não digo. também julgo saber o que falta a São Tomé ao seu povo. Mas tenho ainda mais certezas do que nos falta a nós, portugueses, “brancos do C…”, como dizia o Vasco Ribeiro. Falta-nos saber viver com dignidade na pobreza, valorizar as coisas simples, falta-nos a generosidade e a docilidade das crianças são-tomenses, a criatividade de viver alegremente com pouco, a sabedoria de entender a natureza e de conviver com ela quase como nos primórdios da humanidade. Por isso, os meus amigos que tiveram o privilégio de irem para a selva não deveriam ter morto à catanada uma cobra preta. Se tivessem ouvido o António, saberiam que ela “tem uma ideologia: não ataca inocentes”. Ou será que havia algum culpado dentro do grupo, hem? Vá lá, confessem, que nós perdoamos. Voltando a ser sério, gostaria de agradecer a toda a equipa do Latitudezero a possibilidade que me deu de viver uma das mais extraordinárias experiências da minha vida. E de ter conhecido a minha Tétis, a Alice de Guadalupe. Mas, nestas coisas, há sempre uma consequência menos agradável: agora, quando chego tarde a casa, a minha mulher vira-se para as minhas filhas: “Pois, o papá conheceu uma Alicinha em São Tomé e agora já não nos liga…”. Claro que ligo, mas é verdade que desde que vim São Tomé não me sai da cabeça (mas não é pela Alicinha). Agora não perco os noticiários da RTP África. Será que estou com malária? Pedro Cruz: também gostei muito do que tu escreves-te e da vossa companhia, tua e do Tó, em São Tomé. E também gostei muito da Diana. Mas isso é outro assunto. Quem não gostou que ponha o dedo no ar!

Pedro Garcias,
Jornalista do Público



João Brito e Faro, in “O Lzec contado ao Mosquitto”
continua…