Game-viewing, Kruger Park, RSA

A partida de Maputo para o Kruger Park(1) estava marcada para as 6 horas da manhã mas à boa maneira africana partimos já passava das 10. Em direcção à fronteira de Ressano Garcia tivemos a nossa primeira experiência numa fronteira terrestre africana. Sem problemas estávamos na África do Sul.

A alteração na paisagem é impressionante! Ficamos a pensar se estamos realmente em África. O aproveitamento dos solos é visível e depois de duas semanas em Moçambique é agradável ver campos cultivados e verdes.

Íamos preparados para o tão conhecido Game-viewing.

Dirigíamo-nos para a Porta Crocodile Bridge, mas quando lá chegámos a entrada estava fechada. A bridge estava submersa. Tinha chovido muito nas últimas semanas o que era um indicador, para os mais experientes, de que seria mais difícil ver os animais dentro do parque. Com as chuvas a vegetação cresce muito, protegendo assim os animais dos olhares humanos.

Entrámos finalmente no parque pela porta Malelane. Ali ouvimos a primeira história, devidamente comprovada por fotografias… em tempo de seca uma leoa foi beber água ao bebedouro mesmo em frente à porta da recepção. O entusiasmo crescia, a ansiedade era muita. Até àquele dia, este tipo de animais só os tínhamos visto no Jardim Zoológico de Lisboa.

Os primeiros quilómetros foram feitos em silêncio até avistarmos o primeiro elefante. É difícil ver os animais mesmo quando eles estão mesmos à nossa frente. Por incrível que pareça um elefante também está camuflado. Os nossos olhos urbanos precisam de aprender a olhar para o mato. A vontade… é ficar ali, o resto do dia a olhar para o elefante encontrado, porém temos de nos convencer que outros animais irão parecer e seguir viagem. Quando alguns minutos depois vimos um macaco que se passeava numa ponte percebemos que iríamos ver mesmo muitos animais.

Ainda no primeiro vimos kudus, macacos, zebras, girafas, elefantes, tartarugas leopardos, bois, cavalos, hipopótamos, impalas, javalis, etc.. Aí começámos a convencermo-nos que, pela amostra, iam ser dias inesquecíveis.


É nesta fase que começou a minha obsessão. Onde estão os LEÕES?
EU QUERO VER LEÕES…

O dia seguinte começou às quatro da manhã depois de ouvir os rugidos dos leões durante toda a noite. Esperava-nos o Sunrise Safari. A pé, na companhia de dois rangers armados, partimos à procura dos barulhentos leões, mas quando nos conduziram ao lugar onde supostamente eles tinham dormido, já lá não estavam.

Prosseguimos por vários trilhos e apesar de não termos visto o rei da selva o safari correu bem.


O dia estava no início e depois de um pequeno almoço reforçado seguimos viagem. Uma matilha de cães selvagens surpreendeu-nos no caminho. Íamos com o olhar atento e posto na vegetação quando de repente, apenas 100 metros à nossa frente, os carros paravam um após outro. Aproximámo-nos e vimos finalmente o tão esperado leão.


O animal, com o seu ar altivo e majestoso, passeava-se pela beira da estrada indiferente aos carros que por ele passavam.

Passámos por ele, tirámos as fotografias da praxe e afastámo-nos. É importante tentar respeitar o espaço destes animais e tentar interferir o menos possível com o seu quotidiano.

A excitação que se sente ao ver um leão assim, em liberdade, é indescritível.

O Game-viewing continuava, dos Big Five apenas tínhamos visto dois: o leão e o elefante. Faltavam ainda o rinoceronte, o búfalo e o leopardo.

Nessa noite, durante o Sunset Safari, tivemos outro encontro imediato com leões. Mas a Lei de Murphy entrou em acção e tudo o que podia correr mal correu, ou seja, a máquina encravou e as fotografias não saíram, pelo que terão que acreditar nas nossas palavras…

Já a caminho do parque, depois de “apenas” termos visto elefantes, girafas, kudus, uma manada de rinocerontes escondidos na vegetação…. e um espectacular pôr do sol, a escassos 50 metros do parque dois leões descansavam no meio da estrada. Parámos o jeep a dois metros, o silêncio imperava. Um deles farejou o ar, como que a tentar perceber que bicho era aquele que ousava tal proximidade. Resolveram agir. O primeiro leão levantou-se e dirigiu-se para o lado esquerdo do jeep, tomada a posição, o segundo dirigiu-se para o lado direito. Foi então que o nosso experiente ranger decidiu que havia chegado a hora de partirmos. Assim foi o episódio, que apesar de não ter ficado gravado em filme ficará gravado para sempre na nossa memória.

O terceiro dia começou com outro Sunrise Safari, onde avistámos os búfalos, o quarto dos Big Five. O Game-viewing estava cada vez mais enraizado em nós e ainda faltava o leopardo.

Nesse mesmo dia partimos de Satara em direcção a Skukusa, onde se vêem mais leopardos.


O resto desse dia e o quarto dia foram dedicados à busca do leopardo. Dizem que só os mais experientes os conseguem ver nos ramos das árvores e provavelmente é verdade. Quanto a nós, voltámos a Maputo sem ver o quinto dos Big Five. Resignámo-nos e comprámos uma caneca com o dito. Agora, sempre que a caneca é utilizada lembramo-nos que temos que voltar e continuar a busca ao “the stealthy one”: o leopardo.


(1) Kruger Park – Parque Nacional da África do Sul. É considerado um dos mais famosos do país e do mundo. Cobre uma área aproximada de 2,5 milhões de hectares e tem como margens o “Crocodile River – a sul” e o “Limpopo River – a norte.”

Março 2004
Teresa Moutinho