A História do LZEC #10

Retomando o desenvolvimento dos objectivos do Lzec, e feita a tentativa de explicar os dois primeiros, em linhas anteriores, surgem então um terceiro e um quarto:

  1. Apoio humanitário nas áreas da saúde, educação e formação.

 O tema da Saúde tem origem no nosso Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros da época. Depois de se inteirar do projecto, faz a alguém a seguinte pergunta: “Vocês querem promover o Turismo, mas conhecem a realidade da saúde e apoio médico-hospitalar de São Tomé e Príncipe”?…bem  de facto tinha  a idéia de que não era grande coisa…pensei, não sei se com os botões, se com as gotas de suor… (mais tarde  reuni-me  com um Médico da Cooperação Portuguesa no Hospital de S.Tomé…depois de alguns momentos de espera faço-lhe o seguinte apelo: “Sr. Dr. Nunca mais marque uma reunião comigo aqui…o gemido melancólico dos miúdos é insuportável, quase ensurdecedor”… retenho uma imagem de centenas de mães, com centenas de bebés às costas, amarrados por um pano comprido. Aqueles pequenos rostos transportavam sempre um olhar triste e  distante.

Nas mães lia-se  uma expressão sofrida.

Este cenário era completado por uma série de edifícios mais ou menos degradados. Haviam também alguns velhinhos nos corredores que estendiam uma mão apelativa ao médico que eu acompanhava. Não sei se foi revolta, se vergonha aquilo que senti  perante aquele cenário; seja aquilo que for é uma das imagens que gostaria de voltar a não ver. Soube mais tarde que este médico, quando em fim de comissão, deixou cair naquela terra de nome santo, muitas lágrimas de saudade e de paixão.

Voltei a pensar neste  assunto  mais tarde e, pensando na dúvida do Sr. Secretário de Estado,  surgiu-me a ideia de tentar apoiar a Assistência Médica Internacional. Feita alguma pesquisa consegui uma reunião, com o responsável pelo departamento internacional. Nesse  mesmo  dia recebo uma chamada telefónica do Paulo Tavares, jornalista da TSF Motores (programa extinto). Queria entrevistar-me sobre o Latitude Zero. O dia corria bem, o meu Anjo da Guarda estava ao meu lado, pensei.

Quase dois anos depois procurei a tal reportagem da TSF com o título “Destino África”. Foi com alguma emoção que a ouvi de novo. Apercebi-me de algum nervosismo (nunca tinha estado na rádio), já que esta emissora era, e ainda é, a minha emissora. Alguma coisa mudou, mas pouco, desde esse. Os 21 participantes reduzem-se a oito. A floresta e a sua intensidade continuam a desafiar os mais temerários. O espírito de missão mantém-se.

Voltando à Assistência Médica Internacional e ao apoio na área da saúde, importa esclarecer duas coisas: a primeira é que o Latitude Zero chama a atenção para os problemas; a segunda é que não interfere com o Estado Sãotomense. Qualquer acção que exista será sempre por um “trilho” à margem do Estado, mas submetendo-se a esse Estado. A segunda é que a AMI surgiu no projecto porque sempre gostei da Ami….e dentro da Ami quem melhor conheço é o Dr. Anatoly, médico Ucraniano que, vindo para Portugal com a sua mulher para trabalhar nas obras, se ofereceu, como vpluntário,  para uma missão em São Tomé e Príncipe. Limitamo-nos, portanto, a tentar apoiar esta missão, quer pela oferta de algumas coisas, quer pela divulgação em reportagens que os nossos jornalistas fazem.

  1. Tentativa de “construir” uma ponte entre todos os Estados membros da CPLP, para circulação de mão de obra qualificada.

Estávamos em Agosto de 2003. Pego no meu telefone e digito o número do Renato. Atende-me de Marrocos, já de regresso a Portugal, depois de ter ido com o irmão Tiago e com o amigo Bernardo até à Guiné Bissau, de jipe e via deserto, levar uns medicamentos para a missão da AMI neste País tão conturbado. A minha conversa era curta e simples. O Bernardo e o Renato tinham que, obrigatoriamente, participar no Latitude Zero – Equatorial Challenge. Ao fim e ao cabo representavam uma fatia de Portugueses, quase recém-licenciados que, no final da formatura, tendem a engrossar a fatia de desempregados. Pensava eu que com a adesão de novos Países à União Europeia, toda a economia se deslocaria para leste. Portugal ficaria mais longe dos centros de decisão e os nossos amigos licenciados ficariam, cada vez mais, sem emprego. Esta ideia não me saía da cabeça. Qual a alternativa?…tentar mostrar e divulgar o potencial dos Palop, começando por São Tomé e Príncipe. Para isso era preciso, então, levar alunos das Universidades para que pudessem, pela sua vivência e testemunho estimular os seus colegas.

E assim foi. Simbolicamente estava a ser construída a ponte para circulação de mão de obra qualificada. A receita é simples: se um Universitário em fase final de licenciatura puder estar em contacto profundo com um povo (Sãotomense neste caso) e gostar desse contacto e se gostar do clima pode, quase de imediato, propor a uma empresa, que pense investir em África, os seus serviços ou  colaboração. Por outro lado, sendo detentor de meios próprios pode ser sempre um novo investidor…haja coragem, audácia e bom senso.

Tudo isto era muito bonito, quase uma fantasia, um daqueles sonhos que comandam a vida.

Retrocedendo no tempo e, depois da minha explicação à comitiva Sãotomense, que havia visitado Portugal, um longo e penoso caminho nos esperava. Era preciso que são Tomé e Príncipe entendesse a nossa ideia e era preciso que nos autorizasse a executar o evento, nestes moldes; quando muito seriam feitos  ajustes e nunca desvios….isso eu nunca toleraria. Quatro agonizantes meses depois disto e após uma série de intermináveis contactos telefónicos, lá consegui ser recebido para a assinatura de um protocolo. Aconteceu em Fevereiro de 2003. A Televisão de São Tomé esteve presente, na assinatura do documento…bem, ao menos alguma comunicação social testemunhou aquele dia. No meu arquivo está uma cópia da “cerimónia” e outra da  reportagem emitida.

Iniciava-se, oficialmente, uma missão amada por uns, odiada por outros. Eu era o chefe, o líder, sustentado por um alicerce mais sólido do que a mais sólida das rochas…de todos os lados surgiam os apoios, morais, à iniciativa.

Os seguintes testemunhos deverão ser lidos, sem personificações. Referem o testemunho emocionado de algumas pessoas que consideram, e bem, que o LZEC é delas, que deve existir e ser acarinhado.

Estes testemunhos estão incluídos no site em duas  rubricas chamadas “Os amigos do Lzec” e “Porque existe o LZEC”:

° A – Os amigos do LZEC

19 de Julho de 2003
Força e magia para S.Tomé e Princípe.
Paixão assim, só com muita magia e espírito de aventura.
Eu também não vou poder ir, mas … confesso que fico com inveja dos que vão e só lhes posso desejar grandes aventuras para contarem como foi.
Espero também que as alterações na estrutura do poder naquele pequeno paraíso em nada influenciem a organização deste passeio/aventura.
Aliás, não há razões para isso.Façam lá muitas magias
PedroO

25 de Julho de 2003
Ao ouvir a entrevista na RR dada por João Brito e Faro percebe-se as várias “camadas” de paixão que envolvem todo este sonho dum raid TT em STP.

Pelo meu lado tive a minha dose de TT, mais precisamente 9 meses num trabalho que lá realizei e fiquei viciada. Gostaria de cumprir a definitiva aventura à qual se propõem, como pelo meu lado não poderei participar, estarei atenta a este site para viver através da vossa emoção a minha própria ambição.

Força a todos, e àqueles ou àquelas aos quais apelam para avançar: não tenham receio, pois se uma agrónoma como eu de fraca estrutura fisica 47Kg, 28 anos aguentou 9 meses de roça em roça nos turtuosos caminhos de STP, o que poderão recear os fortes latagões e as viçosas moças portugueses?

Saudações,
Nádia Jones
(este testemunho surge depois de uma entrevista na Rádio Renascença a 12 de Julho, dia do golpe de Estado).

° B. Porque existe o LZEC:

22 de Setembro de 2003
Antes de partir,

Ao tentar situar o início não consegui, parece que este projecto se instalou insidiosamente em mim, certamente porque a semente caiu em terreno com a fertilidade do Ôbô.

Tropecei no João enquanto organizador de um curso de Orientação, calmo discreto; com tempo descobre-se um sorriso incompatível com esta imagem.

Lembro-me de uma reúnião onde o projecto foi apresentado, e clarificado o que a cada um era pedido: todos em áreas complementares integrando um projecto com tanto de ambicioso como de exigente aos diversos níveis.

Quando se abordou a cronologia e meios do evento: para mim um frio na coluna, para o João o tal sorriso.

Uma suave loucura também faz avançar o mundo, porque não?

Ao atingir a maturidade pouco fica de novo no plano familiar ou profissional, esta é a oportunidade única de voltar a sentir o frémito das noites sem dormir, das decisões e acções no limite.

Em conjuntura madrasta se avalia a têmpera, e o sorriso de que falo é lume de borralho, vivo e duradouro mas escondido pelas cinzas.

Cinzas da autodisciplina, a disciplina que a si próprio impõe quem tem valores e objectivos, com a naturalidade de estarem estes ao serviço dos primeiros.

Lançaste o desafio da reflexão sobre este momento em que o LZEC é uma pedra que nos saiu das mãos!

Tenho a certeza de que o que pensamos sobre estas e muitas outra coisas é, em aspectos que já geraram guerras, diferente na sua essência mas o facto é que pensamos sobre elas, e assim temos construído a franca relação que só a atracção e o respeito pela diferença permitem.

Já tive um primeiro contacto com o grupo com que se partilha este primeiro LZEC: agradávelmente heterogéneo, será a sua vivência na euforia e no desânimo que, ao interiorizar esta dimensão de relacionamento, constituirá a melhor dádiva àqueles com quem contactarmos.

Arcozelo VNG, 03.09.21
M. Barroco de Melo

25 de Setembro de 2003
Aderimos João, porque tal como tu, acreditamos piamente que a nossa Pátria é a lingua portuguesa. Sem complexos ou quaisquer tiques imperialistas mas antes por um sentimento que vem do mais profundo do nosso ser, talvez inexplicável, quiça utópico.
Aderimos João, porque para lá de considerandos pessoais, os teus olhos nos levaram a procurar ajudar este projecto, este teu sonho que é também nosso de o Todo Terreno unir o que nem o mar conseguiu separar.
Aderimos João, porque sabemos melhor do que ninguém que estamos perante um projecto revolucionário e que o TT em Portugal está a presenciar algo de extraordinário. Porque sabemos que este é apenas o começo…
O nosso contributo é muito pequeno face à grandeza do teu gesto, mas é de imensos pequenos contributos que se fazem coisas grandes.
João, conta connosco, a Nação do Cimbalino está a torcer pelo LZEC.
Um abraço do Fernando Moreira de Sá

26 de Setembro de 2003
O Latitude Zero Equatorial Challenge existe.
Existe graças à tenacidade, determinação, coragem e fulgor de um homem como João Brito e Faro, que jamais vacilou perante as dificuldades – enormes – que foram surgindo com o tempo. Se o fez, foi no silêncio recôndito dos seus pensamentos mais profundos, que jamais transpareceram, pelo menos a mim.

Conhecíamo-nos há pouco tempo quando o João me convidou para almoçar e conversarmos sobre o projecto. Sabia da minha naturalidade africana, da minha paixão pelo cheiro da terra e pouco mais…

Pediu-me para pensar no projecto. Não foi necessário. Anuí espontaneamente e de imediato, apesar das inúmeras incógnitas que naturalmente se colocavam quanto a diversas questões de concepção do projecto. Mas isso era acessório. O essencial estava decidido. Iríamos a São Tomé e Príncipe.

Não se contam pelos dedos das mãos, as vezes em que o fétido complexo colonial vem à mente nacional, nas mais variadíssimas decisões, sempre que se vislumbra em pano de fundo a empreitada de qualquer projecto sério em países africanos de expressão portuguesa. Não há estímulo. Não há.

O LZEC seria a oportunidade pioneira de inverter esta bacoca falta de auto-estima num povo com mais de 8 séculos de história.

Temos tanto para dar. Temos tanto para receber. Temos tanto para ensinar. Temos tanto para aprender. Temos a Língua Portuguesa. Temos tudo … e não temos nada. Porquê ? – pergunto-me.

Com o evoluir do tempo, confesso que cheguei a esmorecer. O tão ansioso protocolo com o governo da República Popular de São Tomé e Príncipe teimava em não se concretizar. O tempo esvaía-se e o mote tardava em ser vociferado.

Finalmente fez-se luz no LZEC. O João deslocou-se a STP e regressou com a certeza absoluta de que o sonho se tornaria realidade.

A partir daqui, já de nada me lembro, a não ser de alguns episódios de somenos importância face à grandiosidade do projecto que é o Latitude Zero Equatorial Challenge.

Congratulo-me com o facto de ter trabalhado com uma equipa fantástica de inúmeros profissionais em prol do LZEC – com muitos deles virtualmente – e em especialmente com o João, que fez o favor de me aturar, e que mesmo nas alturas de maior sufoco aparecia sempre decidido e empenhado.

O relógio está cada vez mais lento.
Sinto conscientemente e cada vez mais intensamente o cheiro da terra!
Alguém sabe o que isto é?

Avioso, 26 de Setembro de 2003
Jorge Meireles

Importa referir que o Jorge Meireles é Moçambicano…e que chorou quando viu um embondeiro a norte da ilha de São Tomé.

Continua… felizmente o arquivo tem substância.

João Brito e Faro, in “O Lzec contado ao Mosquitto”
continua…



João Brito e Faro, in “O Lzec contado ao Mosquitto”
continua…