A História do LZEC #09

De facto a promoção da Língua Portuguesa como factor de união entre todos os povos da CPLP é qualquer coisa que nos move, e a mim particularmente. Tentei sempre, no entanto, não ter ou promover uma atitude demasiadamente ingénua.

Apesar de serem muitos os relatos e comentários saudosistas dos sãotomenses mais velhos, o facto é que São Tomé e Príncipe é um País independente e, por tal, deverá ser capaz de escolher o seu caminho. Isto é fundamental.

No último trimestre de 2002, consegui através de um parente do Sr. Presidente Fradique de Menezes, estar presente, em Viseu, num almoço onde uma larguíssima comitiva governamental se deslocou, na tentativa de captar investimento Português para a antiga província ultramarina. Num Hotel da capital da Beira Alta, os Mercedes cintilantes eram mais do que muitos. Apreciava-se uma visita de Estado, sem a ser. Nada de mais…o almoço, em quantidade reduzida, como manda a etiqueta nestas coisas estava, apesar de tudo, bastante bom.

Tive o privilégio de me sentar na mesa do assessor diplomático do Presidente, homem que, quanto a mim, abriu as portas ao Latitude Zero.

Na algibeira, ou melhor debaixo do braço, eu levava algumas brochuras, “hand and home made”, “caseiras” melhor dizendo, para distribuir. Levava também uma gigantesca firmeza de que iria executar o Lzec, conjuntamente com todos os membros da Organização.

Na altura da recepção, no átrio do Hotel, expliquei ao Sr. Ministro do Comércio, Indústria e Turismo da altura, que só não executaria o projecto se ele mandasse um polícia esperar-me ao aeroporto e me impedisse de pisar São Tomé e Príncipe. Olhei-o firme e intensamente, nos olhos, e afirmei, absolutamente certo das minhas palavras: “Sr. Ministro, só não executarei o projecto se o Governo de São Tomé me impedir de entrar no País onde eu nasci”. É lógico que me deu pouca ou nenhuma importância e que deverá ter pensado que eu não estava bom da cabeça; de uma forma cordial, ouviu-me e seguiu com o resto da comitiva.

A dita brochura que eu transportava orgulhosamente, debaixo do meu braço, causava-me algum incómodo. O texto que lá estava era uma perspectiva muito pessoal, admito que pouco fundamentada, das relações de Portugal com os Palop. Incomodava-me muito, naquela altura, o complexo do Estado Português relativamente aos Palop, o ignóbil sentimento de culpa e vergonha por qualquer coisa que ainda hoje me ultrapassa e, continua a incomodar, o excesso de diplomacia servil e a quantidade enorme de dinheiro que se gasta com a cooperação…que ninguém noticía, divulga ou publica. Portugal é pobre em recursos, como se sabe.

Deveríam ser umas onze da manhã. Pego no meu telefone e peço um conselho ao meu Pai, antigo militar e combatente no Ultramar. Peço um conselho sobre a dita brochura que, eu próprio, achava extremamente agressiva. Desanconselhou-me, imediatamente, a apresentar tal coisa. Muito bem, vou alterar. Mas onde e como?…dirigi-me a um funcionário do Hotel e digo-lhe que preciso de um computador e de uma impressora. Tornei, então, o dito texto menos agressivo, mais diplomático.

Se estas linhas têm como objectivo a história do Lzec, parece-me importante divulgar a tal brochura que me incomodava e que foi alterada pelo incómodo da minha consciência. Hoje, ao relê-la, recordo os idealismos da adolescência porque todos nós passamos…e continuo a achar que não obstante o texto pouco diplomático, a idéia se mantém…infelizmente.

Dizia assim:

Exmo. Sr ou Srª:

Depois de alguns meses de pesquisa e reflexão a Agrométrica, Lda, decidiu avançar com a realização de um evento, de dimensão mundial, que possa criar condições por um lado para o desenvolvimento rápido e sustentado de São Tomé e Príncipe e por outro fomente uma maior internacionalização das empresas Portuguesas.

Com o objectivo de tornar mais explícita a compreensão e análise deste projecto peço especial atenção para alguns comentários que julgo pertinentes:

Se não formos capazes, enquanto portugueses, de forçar uma inversão da filosofia da cooperação e de criarmos condições para que surja um sentimento nacionalista e patriótico dos países com quem temos este tipo de intercâmbio, estaremos decididamente a criar dois monstros que, uma vez à solta, provocarão estragos:

1º Monstro – Surgirão mais cedo ou mais tarde conflitos internos, dentro dos países africanos que recebem a nossa ajuda, já que uma pequena elite detentora do poder usufrui de melhores condições de vida. Paralelamente tende a formar-se uma classe mais pobre, revoltada e sedenta de melhores condições sociais.

2º Monstro – Ao canalizarmos recursos financeiros para outros países, sendo Portugal um País com gravíssimos problemas a esse nível, estaremos a criar um sentimento interno de revolta contra aqueles países e povos que outrora eram parte integrante da mesma nação, Valente e Imortal.

É lícito pensar que:

Em primeiro lugar está a nossa própria sobrevivência e só depois a dos outros.

Se aqueles países abundam em recursos naturais, há que os explorar, criando condições para que isso aconteça.

Se existe massa humana para trabalhar devemos fomentar a criação de empresas, postos de trabalho e riqueza, em todos os domínios.

Fundamentalmente eu queria, apenas e somente, pensar que a nossa Cooperação, porque não somos chineses, deveria ser promotora de um desenvolvimento para o Sãotomense, mas à custa do próprio Sãotomense…. quando muito com o nosso apoio, nunca com o nosso subsídio. Este projecto levava e ainda leva essa mensagem… chegaremos a bom porto? Agora já ponho algumas dúvidas. Seja como for os monstros eram sempre em sentido figurado… ou não.

Continua… de uma forma penosa, não a história que já existe, mas o futuro do lzec enquanto lzec.


João Brito e Faro, in “O Lzec contado ao Mosquitto”
continua…