A História do LZEC #08

A “invasão”…!
Os Portugueses brancos vão invadir a ilha, vem aí a guerra…
O António ria, gozava que “nem um preto”, com o inimaginável.

Apesar de poucas notícias circularem no sul da Ilha de S. Tomé, em Malanza ouvira-se dizer que houvera um golpe de estado em S.Tomé, Cidade Capital.

Acontecera a 12 de Julho de 2003. Provavelmente um golpe de Estado não seria boa coisa… mas Malanza, aldeia de 483 habitantes, quase todos pescadores, permaneceria à margem de qualquer revolução.

Os 30 km de distância da capital, aqui significam um isolamento quase total. Apesar disso a notícia correra, quem sabe se pelos transportadores de vinho de palma.

Em Outubro do mesmo ano a caravana do Latitude Zero palmilhava os buracos da estrada em direcção a estas paragens. Os jipes, em marcha lenta, levavam os faróis ligados e lá dentro uma trintena de brancos de óculos escuros, calções, cabeças mais ou menos rapadas e mangas caveadas. À cintura um faca de mato ou catana completava o figurino.

Aceita-se perfeitamente que o nosso aspecto tivesse algo de agressivo, para quem nunca havia visto semelhante coisa. Os animo das nossas gentes estava exaltado, no bom sentido, o que por si ajuda ao cenário. A emoção de ir para o mato era extravasada em alegria e gritos.

Porque se ria o António? Alguns dias depois foi preciso ir à cidade buscar mantimentos. O António, condutor sãotomense ao serviço da expedição ficara incumbido da dita tarefa. Ao passar por Malanza alguém lhe barra o caminho, querendo esclarecimentos. O pânico havia-se instalado na aldeia, as perguntas eram mais que muitas: “Os portugueses brancos vão invadir a ilha?”…”vem aí a guerra?”…”é por causa do golpe?”…foi aí que ele se riu…e contava com uma gargalhada contagiante os seus ouvintes, ou seja nós: “eu fartei-me de rir”.

Com riso ou sem riso, com motivo ou sem ele, é que na noite em que por lá passámos ninguém dormiu.

Os pescadores tinham as pirogas prontas e apontadas ao mar para uma eventual fuga aos nossos tiros. Um pouco mais para o interior alguns pequenos agricultores esperam apenas um sinal para se escapulirem mato e noite dentro.

“Eu fartei-me de rir”…e com toda a razão…e com toda a propriedade acompanhamo-lo no seu delírio de dentes brancos e grandes.

Só depois se pensa no insólito da situação…esta história faz parte do LZEC. Quase quinhentas pessoas pensaram que íamos fazer a guerra, quando ao fim e ao cabo o nosso projecto só quer promover a paz e a concórdia entre dois povos que falam a mesma língua e que têm 500 anos de história comum. Dá mesmo vontade de rir…muitas outras histórias virão, concerteza. Em 2004 Malanza saiu à estrada à nossa passagem…em 2005 estamos a pensar parar por lá algumas horas e comer um peixe assado, estar com as gentes e ouvir, ainda mais de perto, o que têm para nos contar.



João Brito e Faro, in “O Lzec contado ao Mosquitto”
continua…