A História do LZEC #07

Passado o mal estar provocado pela incompreensão de algumas, muitas, pessoas relativas ao Lzec, o evento avançava. Todos os objectivos enunciados resumiam-se a quatro, apenas pela necessidade  de tornar mais eficaz a transmissão da mensagem.
Temos então:

1. A promoção do Turismo de Aventura em São Tomé e Príncipe. É óbvio, a paisagem é propícia, a flora é estranha e a fauna também…mesmo a doméstica. O clima marca, o povo é exemplarmente pacífico. De facto a paz, em São Tomé e Príncipe, é um aspecto determinante principalmente para um país africano. O potencial para investidores é imenso. A remar contra tudo isto aparecem a instabilidade política e a corrupção, absolutamente limitantes e condicionadoras do investimento externo. O marasmo instalou-se, parece que veio para ficar…

2. A promoção da Língua Portuguesa como factor de união entre todos os estados membros da CPLP. A nossa grande bandeira e a minha paixão pessoal. De facto nada mais me move do que lutar por esta causa, cuja origem remonta a Viriato…de facto foi aqui que tudo começou, segundo aprendi. Será assim tão difícil entender ou aceitar que a Língua Portuguesa une, facilita a comunicação, existe nos cinco continentes como idioma oficial e reflecte uma forma diferente de estar na vida?…só um deficiente mental poderá contra argumentar.

É de facto aqui que está a força da Organização, que sendo todos voluntários, encaram o Lzec como algo de sublime. É também por isto que, em datas diferentes,  surge o  “apoio moral”, ao projecto. A seu tempo o veremos. São muitos os registos que, transbordando   de sentimento sentido, mereciam a execução do Lzec.  Houve gente, dentro da nossa expedição, que chorou quando chegou a STP em 2003, houve gente que chorou quando viu as primeiras fotos que eu trouxe, há gente que já chorou ao ler esta esta história, que vou tentando não seja maçadora. O Latitude Zero Equatorial Challenge, certamente, pela providência Divina juntou um núcleo de pessoas que tiveram o privilégio de viver algo de inimaginável, para os tempos que correm. Dentro dos inúmeros testemunhos que guardo religiosamente na gaveta e na memória importa, neste momento e neste contexto, dar a conhecer pelo menos dois.  O primeiro é um texto que uma saudosa amiga me enviou e cuja origem é o Arquivo Nacional da  Torre do Tombo e que pode ser visto nos azulejos da Igreja  Matriz de Castro Verde, no Alentejo. É para mim verdadeiramente inspirador. Penso, inclusivé, que só o enviei a duas pessoas em todo este processo. Uma delas é o psicólogo da expedição, Mário Barroco de Melo, a outra é  Brígida Rocha Brito, que nos deu a honra de mais tarde utilizar o Latitude Zero – Equatorial Challenge na sua tese de Doutoramento.

a)
Nota: o juramento está transcrito como está no arquivo. Com M onde agora é N e assim como outras letras e sinais.
Apenas acrescentei alguns acentos em palavras esdrúxulas, ficando tudo o mais como estava, vírgulas, acentos, etc.
Juramento de D. Afonso Henriques
Eu, Afonso, rei de Portugal, filho do Conde Henrique, neto do grande rei D. Afonso, diante de vós, bispo de Braga, Bispo de Coimbra e Teodósio e de todos os demais vassalos do meu reino, juro em esta cruz de metal e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos que eu, miserável pecador, vi com estes olhos indignos, a Nosso Senhor Jesus Cristo, estendido na cruz do modo seguinte: Eu estava com o meu exército, nas serras do Alemtejo, no campo de Ourique, para dar batalha a Ismael e outros quatro reis mouros que tinham consigo infinitos milhares de homens, e minha gente temerosa da minha multidão, estava tribulada e triste sobremaneira, em tanto que, publicamente, diziam alguns ser temeridade acometer tal jornada, e eu enfadado do que ouvia, comecei a cuidar comigo o que faria, e, como tivesse, na tenda, um livro em que estava escrito o Testamento Velho e o de Jesus Cristo, abri-o e li nele a victória de Gedeão e disse entre mim mesmo: Mui bem sabeis, senhor Jesus Cristo, que por amor vosso tomei sobre mim esta guerra, contra vossos adversários, em vossa mão está dar a mim e aos meus fortaleza, para vencer os blasfemadores do vosso nome. Ditas estas palavras, adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar que via um homem velho vir, para onde eu estava, e que me disse: Afonso, tem confiança, porque vencerás e destruirás estes reis infiéis e desfarás sua potência, e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou João Fernandes de Sousa, meu camareiro, dizendo-me:  Acordai, Senhor, porque está aqui um homem velho que vos quer falar. Entre, lhe respondi, se é cristão, e tanto conheci ser aquêle que no sonho vîra, o qual me disse: Senhor, tende bom coração, vencereis e não sereis vencido, sois amado do Senhor, porque sem dúvida poz sobre vós e sobre a vossa geração depois dos vossos dias, os olhos da sua misericórdia até à décima sexta geração, na qual se diminuirá a sucessão.      mas nêla assim diminuída .Ele tornará a pôr os olhos e verá. Ele me manda dizer-vos que quando na seguinte noute ouvirdes a campainha da minha ermida, na qual vivo há 60 anos, guardado, no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saiáis fôra do arraial, sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade. Obedeci e, prostado em terra, com muita reverência, venerei o embaixador e quem o mandava, e, como posto em oração aguardasse o som na seguinte véla da noite, ouvi a campainha, e, armado com espada e rodela, saî fóra dos arraiais, e, subitamente, vi à parte direita, contra nascente, um raio resplandecente, indo-se, pouco a pouco clarificando; cada hora se fazia maior, e, pondo de propósito os olhos para aquela parte. vi, de repente, no próprio raio, o sinal da cruz, mais resplandecente que o sol e Jesus Cristo crucificado nela, e de uma e de outra parte, uma cópia grande de mancebos resplandecentes, os quais creio que seriam os Santos Anjos. Vendo, pois, esta visão, pondo à parte o escudo e a espada, e lançando em terra as roupas e calçado me lancei de bruços, e, desfeito em lágrimas, comecei a rogar pela consolação de meus vassalos, e disse sem nenhum temor: A que fim me apareceis, Senhor? Quereis por ventura acrescentar fé a quem tanta tem? Melhor é por certo que vos vejam os inimigos que não creiem em vós, que eu desde a fonte do baptismo vos conheci por Deus verdadeiro, filho da Virgem e do Padre Eterno, e assim vos conheço agora. A cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da terra quase dez côvados.

O Senhor com um tom de voz suave que minhas orelhas indignas ouviram me disse: Não te apareci deste modo para te acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração, neste conflito e fundar os principios do teu reino sobre pedra firme; Confia Afonso, porque não só vencerás esta batalha, mas também todas as outras, em que pelejares, contra os inimigos da minha Cruz. Acharás tua gente alegre e forçada para a peleja, e te pedirão entres na batalha, com o título de rei. Não ponhas dúvida, mas, tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e impérios e quero em ti e teus descendentes fundar, para mim, um império, por cujo meio seja Meu nome publicado entre as nações mais estranhas E para que teus descendentes conheçam quem lhe dá o reino comporás o escudo de tuas armas do preço com que Eu remi o género humano e daqueles por que fui comprado aos judeus, e serme-á reino santificado, puro na fé e amado por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostado em terra, O adorei, dizendo. Porque méritos, Senhor, me mostrais tam grande misericórdia. Ponde vossos benignos Olhos, nos sucessores que me prometeis e guardai salva a gente portuguesa. E se acontecer que tinhais contra ela algum castigo aparelhado, executai-o antes em mim e meus descendentes, e, livrai este povo, que amo, como um filho. Consentindo nisto, o Senhor, disse: Não se apartará deles nem de ti, nunca, a minha misericórdia, porque por sua via, tenho aparelhado grandes searas, e a eles escolhidos por meus segadores, em terras mui remotas. Ditas estas palavras, desapareceu. Eu cheio de confiança e suavidade me tornei para o Rial (arraial). E que isto se passasse na verdade juro eu, D. Afonso, pelos  Santos Evangelhos de Jesus Cristo, tocados com estas mãos. E, portanto, mando a meus descendentes que para sempre sucederem que em honra da cruz e cinco Chagas de Jesus Cristo, tragam em seu escudo, cinco escudos, partidos em cruz, e em cada um deles, os 30 dinheiros, e por timbre a serpente de Moisés, por ser figura de Cristo, e este seja o trofeo de nossa geração. E se alguém intentar o contrário seja maldito do Senhor e atormentado, no inferno, com Judas, o traidor.Foi feita a presente carta em Coimbra, aos 29 de Outubro. ( D. Afonso chegou a Coimbra aos 15 de Agosto). Era de 1152. Eu, el-rei  D. Afonso. João Mestre Metropolitano Bracarense.  João, Bispo de Coimbra.Teodósio, prior.  Fernão Peres, copeiromór.  Vascos Sanches. Afonso Mendes, governador de Lisboa. Gonçalo de Sousa, procurador, dentre Douro e Minho. Paio Mendes, procurador de Vizeu. Sueiro Martins, procurador de Coimbra. Mem Peres o escreveu por mestre Alberto, conselheiro de el-rei. (Este conselheiro tem outros documentos, número 269, número 280, do chanceler mestre Alberto).    
b) O segundo, recebido muito mais tarde em Julho de 2003,  por email, numa altura em que tudo “estava por um fio” acabou por ser estimulante. Até chegarmos a esta data o insólito ía reinando e troçando da nossa boa vontade. De facto, aconteceram histórias inacreditáveis e o Lzec esteve mesmo para ser apenas um sonho louco de gente louca:


(texto original)
Bom dia turma da Latitude Zero, tudo bèm alì em Portugal? Meu nome è Flavio Pedraglio, moro na Italia e tenho uma grande paixao: tudo que tèm a vèr com Portugal, mundo e cultura lusofona. Viajei  varios anos no Brasil, aonde morava meu cio que era gerente da Fiat em Belo Horizonte, viajei tambèm no Mocambique, pais que eu adorei. Agora estou em relacoes comerciais com uma firma portuguesa sediada em Lisboa, lider na area do ar condicionado e refrigeracao automotiva.
Para o que tèm a vèr com o vosso projecto a minha opiniao resume-se em uma palavra sò: ideia excelente. Eu sempre me perguntei como podia sèr que as empresas portuguesas e o  povo portugues em geral nao tivessem interesse nenhum em paises que no final pertencem em tudo e com tudo a cultura portuguesa e em seguida a cultura europeia. O vosso projecto fornece uma resposta bastante clara e totalmente rasoavel. As empresas portuguesas e europeias em gèral nao podèm dechar de tentar uma partecipacao no tentativo de crecimento economico, umano e social dos paises da CPLP, e Sao Tomè e Principe neste caso particular. Mais vamos falar mais sobre o Latitude Zero agora. A minha primeira pergunta è: porquè os Sr. nao pensaram de alargar a partecipacao tambèm as motocicletas? Sempre nestes tipos de corridas (veja a Paris-Dakar) hà uma competicao reservada as motocicletas de enduro. Na Italia como em Portugal o enduro e o motorally sao cognecidos e nomeadamente praticados para un numero bastante elevado de apaixonados. E tambèm è importante nao se esquecer que os custos gerais em termos de sustento, manutencao, transporte etc. de uma motocicleta a uma expedicao deste tipo ficam muitos mais baratos a respeito de um todo terreno. Cada pessoa pode tèr dinheiro para comprar e sustentar uma motocicleta de enduro mais nèm muitos podem fazer o mesmo com um todo terreno….
No final eu acho: muito mais pessoal apto a participar neste evento muito mais successo para o evento mesmo….
Outra pergunta: pode sèr possivel participar ao evento mesmo se nao participar a corrida? Como eu disse para os Srs., eu viajo muito agora para Portugal, aonde tenho bons amigos, e se for possivel seguir o evento como turista ou acompanhador (pagando a minha parte obvio) seria para mim um verdadeiro prazer. Apoio totalmente com todo o meu coracao o Vosso esforco. Adorerei muito fazer um dia o Vosso conhecimento. A Vossa ideia è otima e lungimirante. Entao sempre pela frente com muito coragem e dedicacao. Fico aguardando as suas respostas. Um grande abraco. Flavio.


Depois disto o insólito manteve-se. Respondi-lhe, entretanto, dizendo-lhe que as “motocicletas” são muito rápidas. Tentei explicar-lhe que o que se pretende é a morosidade na progressão da expedição, para que os participantes e os organizadores possam, no sofrimento e no esforço físico e psicológico, conhecer-se, “beber” as emoções do contacto com as populações isoladas, conhecendo o seu modo de vida e também darem –se a conhecer a essas mesmas populações, tentando levar o seu “eu” e o “eu” de Portugal aos “Portugueses” do antigamente. Ora isto ou se faz a pé, ou de jipe, nunca de mota. O tempo deu-me razão. O Venâncio de Alto Douro (roça) ou o Chefe Garcia de Santo António, recebem-nos com as mesmas honras com que o povo  Português receberia uma visita do Papa João Paulo II.



João Brito e Faro, in “O Lzec contado ao Mosquitto”
continua…