O fascínio do Deserto!

(…) Oito milhões de quilómetros quadrados de areia, rochas e cascalho, de ventos, de um vazio horizontal, de suor, precauções, de calor e também de frio!… *Douchan Gersi

Lembro-me de ter questionado o que se poderia achar de fascinante num Deserto?!… no meu imaginário persistia a ideia, de uma extensão enorme de areia partilhada por homens “primitivos”, com vestes longas, rostos ressequidos, cavalgando sobre uns animais desengonçados e com umas bossas… enfim, uns “pobres – diabos”!…

No ano passado, mais concretamente em Setembro de 2003, tive oportunidade de integrar uma expedição de um grupo de amigos das Grandes Expedições do Fórum – TT, cujo destino era a Mauritânia!

Os meses que nos separavam da partida, curiosamente voaram…entre formalidades de vistos, alterações nas viaturas, consultas de prevenção à Malária (não fossem aqueles insectos, a que damos o nome de Mosquitos, fazerem das suas…), pertenciam ao passado.

Quando me apercebi, já estava do outro lado do estreito. O ar enchia-se de uma tagarelice incessante, música, risos… emanava uma atmosfera de mistério, fumo de fritar que pairava no ar, como se fosse nevoeiro…mercados estreitos, escuros, multidões densas que nos impossibilitavam a aproximação aos comerciantes…mulheres berberes envolvidas em lenços coloridos tapando parte do rosto, deixando apenas os olhos de fora…sentia-me embriagada, por tanta beleza. Esforçava-me para fotografar visualmente tudo o que me rodeava… não havia palavras para exprimir o que sentia.

No entanto no meio de tanto êxtase, as palavras de “Théodore Monod” (1), pareciam-me estranhas!…face a tanto fascínio, como é que poderia haver algo que nos apaixonasse ainda mais?!….repetia inúmeras vezes as suas palavras “apaixonamo-nos pelo deserto”, procurando encontrar algum significado.

A expedição decorria normalmente. Passámos Marrocos, Sahara Ocidental e eis que finalmente estávamos na Mauritânia (“terra dos Mouros”, em latim)!…Este país do noroeste da África é o único controlado por povos tradicionalmente nómadas. Grande parte da sua área ( 1 030 700 Km ), é ocupada pelo deserto do Sahara.

O primeiro contacto foi de desconsolo total. Não havia nada!…a fronteira não passava de um amontoado de lata, onde alguns homens mal trajados tentavam impor a autoridade local. É o que têm!…

O meu coração batia aceleradamente à medida que me embrenhava nas entranhas de um País que não tem mais do que 3 000 000 habitantes, dos quais 400 000 são nómadas.

Continuámos a avançar em território Mauritano. Parávamos ao meio dia sob a protecção das acácias, almoçávamos e permanecíamos ali durante algum tempo. Depois, lá prosseguíamos contemplando a variedade e beleza da paisagem Africana!…

Crianças permaneciam à beira da estrada, vestidas com trapos e de aparência desesperada e perdida. Vi homens silenciosos a observar-nos, sem se mexerem. Vi mulheres com crianças às costas, no meio do nada. Passámos por aldeias, deixando homens, mulheres e crianças a sufocar na nossa poeira…

“Fderik”… o desencadear de uma série de emoções outrora vividas…inicialmente, o choque brutal com uma aldeia, com características muito próprias…algumas das casas eram quadradas e armadas com paus, outras construídas com compridas raízes das acácias arqueadas e cobertas com esteiras e bocados de tiras de plástico.

O riso das crianças, os brinquedos, as vestes coloridas a contrastar com os amontoados de lixo!…sentia-me exausta pelo calor e pelos solavancos contínuos daqueles trilhos de terra.

Finalmente Zouerat!…o Hotel era fantástico e vinha preencher as privações dos últimos dias.

Jantámos, conversámos e a boa disposição acompanhou-nos até bastante tarde. O dia seguinte não seria mais um…seria o principio da atravessia do deserto do Maqteir!

Acordei!…finalmente o grande dia…enchemos depósitos, água e combustível, acautelámos provisões e ligamos os motores, fizemos – nos à pista.

Andámos e andámos, mas parecia que nunca lá chegávamos… O céu estendia-se num enorme círculo sobre nós; não havia limites para ele nem limites para o calor…as pistas eram irregulares… areia fofa alternada com pedra…a ansiedade aumentava!

Desligámos o motor dos carros e o silêncio cercou-nos como o sono. O deserto estava silencioso, ouvindo-se apenas o vento vazio.

Sentia-me excitada e cheia de energia. Saltei do banco do carro…tínhamos atravessado praticamente o país de um lado ao outro. Ninguém nos tinha incomodado, só o calor e os pneus tinham causado problemas. Eu saí imediatamente, encostei-me ao carro e senti o cheiro do ar…o sol estava praticamente a pino, num céu azul límpido e estava calor, muito calor um calor inacreditável…finalmente o deserto do Maqteir!…
É impressionante!… consegue avistar-se tão longe que parece levar uma eternidade passar por qualquer coisa… a sua solidão!…

Ziguezagueávamos, tentando evitar os montículos de erva camelo onde saltam as rodas, fazendo bater e gemer os amortecedores, o nosso corpo é fortemente atirado para trás e para frente no assento, sempre que o carro pisava qualquer irregularidade.

De tempos a tempos um crepitar. É o ruído dos sapatos na areia?!… A areia é transportada pelo vento, acumula-se, sobe, sobe e assim nasce uma duna…os tufos de erva camelo parecem resistir à força do vento e às temperaturas elevadas que se fazem sentir… no entanto, o mesmo não se pode dizer das pistas… desaparecem sem deixar qualquer rasto!

Quando a noite cai, consegue-se ouvir até os nossos próprios receios. O silêncio é assustador…senti o medo, o temor, o desejo de combater para vencer…Porém, o seu mistério, a sua solidão são mágicos…sinto-me fortemente atraída pelo deserto.

Montámos o nosso acampamento e preparámo-nos para confortar o nosso corpo…levantou-se o vento, a primeira rajada de areia surpreendeu-nos. Bateu-nos nas pernas, fustigou-nos o rosto e encheu a pele de inúmeras picadas. É preciso proteger os olhos e o rosto. Refugiei-me no interior da minha tenda, deixei uma brecha aberta e fiz questão de continuar a contemplar todo aquele cenário maravilhoso….via-se a poeira da areia no ar, ouvia-se o rugido da ventania!…a minha respiração estava ofegante…de repente e da mesma forma que apareceu, a tempestade amainou, o ar era então mais fresco, foi a acalmia geral.

Comecei então, a perceber as palavras de “Théodore Monod”…e adormeci

!Com os primeiros raios solares, abríamos as tendas e saímos para esticar as pernas…depressa o acampamento fervilhava de actividade. O cheiro do café acabado de fazer já impregnava o ar…na minha cabeça e a medida que os meus amigos, acomodavam os seus pertences, misturavam-se ideias, realidades e fantasias. A ideia de estar prestes a abandonar esta terra aparentemente vazia, deixavam-me angustiada, triste. Aprendi a ama-la, a respeita-la, a observar todos os seus movimentos…sinto-me agarrada a ela!

Tem homens primitivos, que estão conscientes da sua incapacidade deviverem na nossa civilização, pertencem a raça dos homens do véu, da lança ou da espada, enfrentam o seu medo percorrendo dias, meses, anos, esta “terra vazia”.

Deslocam-se de poço em poço, em busca de água para si e para os seus fiéis dromedários. Os seus sentimentos são puros, intuitivos e imediatos.

Os seus olhos podem rir e chorar, os seus rostos estão cobertos de nobreza, os seus movimentos são doces e lentos à medida do deserto.

Actualmente e mais do que nunca, sinto a saudade. A saudade de caminhar, de fugir ao barulho, à rotina…a saudade de me sentar na areia quente e saborear uma simples lata de conserva…a saudade da sede que senti, do calor que passei, dos amigos que descobri… hoje compreendo as palavras de “Théodore Monod”…

(1) Naturalista viajante, grande conhecedor da África Sahariana, Théodore Monod morreu em 22 de Novembro de 2000.

Para a comunidade científica internacional, ele foi um grande cientista. Para o público, um humanista generoso.
http://www.france.org.br/abr/label/label43/sciences/page.html

(…) Oito milhões de quilómetros quadrados antigamente percorridos pelos nómadas mas que agora aprisionam sedentários.

Douchan Gersi

Mauritânia Set/03


Marisa Alves