A História do LZEC #06

Agosto 2002
A areia da praia incomodava-me quase mais do que “tolerava a força humana”. Detesto ser actor, figurante ou espectador neste tipo de cenários. Deitado em cima de um toalha gasta pelo tempo vasculhava os apontamentos recolhidos. De quando em vez tinha que mergulhar para arrefecer o corpo, refrear o entusiasmo e tentar ignorar a perda de tempo que sinto nesse tipo de locais.

Um olhar fortuito era desviado para as minhas filhas, não fossem elas perderem-se numa imensidão de camaleões de óculos escuros e chapéus de sol, made in China. Havia muita gente do Norte, sentía-se a pronúncia. O Norte invade o Algarve em Agosto.
Não havía forma razoável ou possível de explicar à Miluxa aquilo a que nos propúnhamos com o Lzec. A tentativa, quase insane, de me fazer entender era, pelo menos, alimentada por uma paixão de adolescente, uma paixão por qualquer coisa que havería de acontecer. Sonhar não custa e o sonho comanda a vida.

As férias em Agosto decorríam lentas com muita areia, água salgada, resignação e a minha comandita ao lado. Valha-nos isso. Para cúmulo a Brígida, que como Cleópatra, é muito senhora do seu nariz resolveu implicar comigo antes de ir para férias…as discussões por email, msn e telefone atingiram quase a ruptura. Qual não foi o meu espanto quando recebo da Republica Dominicana, a seguinte redacção, com uma série de erros ortográficos (problemas de teclado, penso):

“Ola,

Noticias da Republica Dominicana – ceu nebulado, temperaturas desconhecidas mas elevadas, mar azul e transparente, coqueiros com fartura, comidinha excelente, musica, danca e animacao qb, mosquitada em quantidade e em permanente accao!

E so para nao ficar muito chateado com o meu mau humor e com o meu mau feitio… de vez em quando… em accao, tal e qual como os mosquitos!!!

Boas Ferias!
Brigida”

Só pode estar a gozar, pensei…
Regressámos às Terras da Maia, eu a Patroa e a Prole. A minha “mioleira” transbordava de emoção, o computador, a internet e sobretudo o Lzec aguardavam-me.

 

Na minha primeira ida a STP verifiquei que havia uma cooperação Espanhola qualquer…algo ligado à pimenta…entretanto soube que haviam arrastões, ao largo, a pescar. Uma coisa quase clandestina, a pimenta a temperar.
Reparei também que havia uma cooperação da China-Taiwan. Não é difícil, Taiwan não quer ser anexado pela China…assim, nas Nações Unidas o voto de STP está sempre e desde já garantido. Dão-se as sobras, apesar de tudo e infelizmente já que em abono da verdade, são muito úteis para um povo indolente, que vive de mão estendida.
As Ong’s proliferavam vorazmente em São Tomé e Príncipe, numa terra onde não existe a fome ou a guerra, mas onde reinam a indolência e a preguiça, perfeitamente justificáveis à luz do raciocínio de um Sãotomense…para que hei-de trabalhar se não tenho fome ou sede?…e depois se eu trabalhar o salário é tão baixo, quando o pagam, que não dá para o esforço.
Se a memória não me falha, só a Ami e Cruz Vermelha se deslocavam em carros do século passado. Muitas outras Ong’s ostentavam os últimos modelo de conceituadas marcas de veículos todo-o-terreno. Havíam mais uns quantos carros destes, brilhantes como o sol, distribuídos por muitos brancos e por muitos negros…com origens diversificadas… Os Franceses também por lá se passeavam…e outros. Deverão os meus olhos ser condenados por aquilo que viram e não pelo que não viram….e o que vi vale apenas isso.
Decidi, então, que a Língua Portuguesa devería ter aqui e agora um papel essencial nos Objectivos do Lzec. Quase a medo acabo por me juntar à maioria e escondo-me, também, atrás desta expressão ou de outras, tão em voga, como a Lusofonia, os Palop ou a Cplp. Porque será?…porquê esta adulteração nominal da História que é a nossa, a dos Angolanos, Brasileiros, Caboverdianos, Guineenses, Sãotomenses e Timorenses?…às tantas é a História que evolui e eu não me apercebo….ou prefiro não perceber.

Imaginei o que podería vir a ser a Bíblia do projecto e tentei passar para o papel algumas idéias. Pedi à Brígida que fizesse o favor de dar a sua opinião, crítica e construtiva. Há já algum tempo discutia os vários propósitos do Lzec, com muitas outras pessoas, sem nunca me conseguir fazer entender. Não conseguiam fazer a ponte entre a nossa presença no meio da chuva, da lama, das populações e dos bichos com os ditos objectivos. Não conseguiam assumir que o Português branco, negro, amarelo ou vermelho é um indivíduo com características diferentes dos restantes europeus, africanos, asiáticos ou americanos.
Para mim, no entanto, tudo era claro, claríssimo. Penso que a melhor forma de uma pessoa se revelar acaba por ser quando está alheada e afastada de tudo quanto são compromissos sociais e profissionais. Quando está entregue apenas a si, e à sua natureza, e partilha o seu eu com um grupo, inevitavelmente acontece o inesperado. A personalidade orienta o comportamento revelando ao exterior de uma forma objectiva e inequívoca a essência de cada indivíduo. Qualquer atitude, neste contexto, provoca num outro elemento uma reacção igualmente genuína e autêntica. Mas porquê dar tanta importância a este facto?

Setembro de 2003

Enviei à Brígida um texto com os objectivos do Lzec. Esta foi a sua resposta (textos originais):

“Olá,

Os comentários pontuais seguem, em maiúsculas e a bold junto a cada ponto de objectivos.

De forma global… o que posso dizer (não se chateie… mas eu sou muito crítica…) é que em minha opinião:

1. Estes objectivos requerem um enquadramento, mesmo que resumido mas que permita perceber, em termos genéricos, que a ideia apresenta sustentabilidade e que por isso não é mais uma ideia “genial” que aparece por lá mas que não se implementa por múltiplos motivos.

2. Não consigo estabelecer uma relação directa entre os objectivos traduzidos em baixo e aquilo que percebi ser o projecto. logo, provavelmente eu não terei percebido bem o que é que se pretende. vou passar a explicar:
Percebi que o que o João pretendia era, implementar uma iniciativa “radical” de reconhecimento da Ilha de S. Tomé, através de um conjunto de percursos previamente identificados e definidos, em que os “concorrentes” utilizavam os seus jipes, tansportados a partir de Portugal. Esta iniciativa teria uma duração de 2 semanas e poderia favorecer a exteriorização da imagem turística do país através de jornalistas, empresários de diversos sectores… entre outras pessoas possíveis. Neste contexto, os concorrentes poderiam fazer-se acompanhar por outras pessoas como familiares. De tudo isto, consigo perceber os efeitos a dois níveis:

a) A iniciativa promove a dinamização do país através de um incentivo da taxa de ocupação hoteleira e de restauração, de acordos com companhias aéreas, com locadoras de viaturas, com agências de viagens, produção e venda de artesanato…
b) Os empresários e outros concorrentes podem ficar interessados no país para fututros investimentos.

Mas o meu problema, é não conseguir perceber como é que isso dinamiza, num prazo de 10 anos, a criação de novas infraestruturas, a recuperação das existentes, o incentivo da auto estima das populações, o reforço identitário, de base cultural e o desenvolvimento global do país… como é que uma iniciativa contextualizada por um projecto que pode ser equacionado principalmente como de lazer (a vertente radical), limitado no tempo e sem projectos e iniciativas paralelas previamente definidos pode ter objectivos de médio e de longo prazo, nomeadamente sem haver acordos prévios com as “elites” locais económicas e políticas.

Não leve a mal, por favor, mas quando comecei a ler, com algum cuidado, os objectivos relacionando-os com aquilo que me tinha explicado ser a iniciativa, e que eu achara ter viabilidade, comecei a ter muitas dúvidas e alguma dificuldade em estabelecer paralelismos. Não é para ser céptica ou para o desincentivar. Nada disso. Eu gosto de desafios e de projectos difíceis que à partida todos consideram ser fracassos. Acho fundamental acreditarmos naquilo qua fazemos. Mesmo que sejamos os únicos a acreditar. Mesmo que sejamos chamados de “idealistas” como quem é chamado de ingénuo ou de infantil. Mas é uma vantagem não passar a vida a dizer mal, só por dizer e para denegrir. Pedagogicamente (deformação profissional… provavelmente) acho mais importante valorizar do que fazer desacreditar, desde que as coisas tenham pernas para andar. Dar o benefício da dúvida às ideias dos outros e às diferentes formas de pensar. Mas isso nem sempre é bem entendido!!!

Só para ter uma ideia, em STP, há muito “boa” gente que tem muitas reticências em relação à minha tese, à forma como conseguirei recolher a informação e à validade dos dados depois de tratados. Alguns exteriorizam isso com comentários idiotas e perguntas mais do que debilóides que quase me fazem engasgar durante almoços e jantares, outros sorriem apenas com um ar condescendente porque pensam perceber o motivo da minha ida, relacionando-o com questões de outro foro. Mas, quem tem de acreditar no projecto e na ideia, sou eu, e quanto muito o meu orientador… dado que o nome dele também passa a estar relacionado com a tese. De facto, todos podem fazer milhares de avaliações, comentários e risinhos mas as razões reais e efectivas da minha opção por STP só eu as sei!!!! os outros julgam saber, ficam felizes com as avaliações “certeiras” e com os comentários supostamente inteligentes. E quanto ao tema, pode revelar muita ingenuidade da minha parte… mas estou a trabalhá-lo há muito tempo, há muito mais tempo do que qualquer umas das pessoas que vive em STP me conhece. Ingenuidade…?! pode ser! mas ainda bem! no fundo, a preversidade está na cabeça das pessoas. E essas que ardam!!!!!! Quanto a mim… neste caso, resta-me sorrir e pensar “não há paciência… isto não é nada fácil… não há condições para aturar esta gente!!!” e… sorrir enquanto penso no quanto é preciso utilizar o seu “manual de sobrevivência em ambientes aparentemente pacíficos”.

Por tudo isto lhe digo que, sou uma pessoa relativamente tolerante em termos das questões da vida privada dos outros e desde que não me chateiem! mas em termos de trabalho sou crítica (também auto crítica com as minhas coisas! mas isso vem do facto de ter orientado trabalhos de investigação e de fim de curso durante alguns anos… e de achar que podemos quase sempre fazer mais e melhor).

Assim, metodologicamente trabalharia um pouco mais os objectivos que se pretende alcançar, a partir daquilo que procura com a metodologia – os jipes e os circuitos. Também continuo a pensar que seria importante arranjar parceiros e em função disso, talvez fosse mais fácil dar continuidade ao projecto. E estabelecer timings (um cronograma é muito importante).

BFDS
Brígida”

OBJECTIVOS:
1. Estimular a auto-estima do povo Sãotomense, de forma a que se desenvolva um sentimento verdadeiramente nacionalista, permitindo que a dependência do exterior se extinga num período máximo de 10 anos. ESTE DEVERIA SER O ÚLTIMO OBJECTIVO… PORQUE O MAIS DIFÍCIL DE CONSEGUIR, DE MENSURAR E DE AVALIAR… O MAIS ABRANGENTE TAMBÉM.

2. Integrar São Tomé e Príncipe no circuito turístico internacional, por mérito próprio, concorrendo, naturalmente, com qualquer outro destino existente actualmente. POR NATUREZA A CAPACIDADE COMPETITIVA E CONCORRECIAL SÓ É POSSÍVEL QUANDO OS MEIOS, AS CARACTÉRÍSTICAS, OS RECURSOS… SÃO SEMELHANTES (POR EXEMPLO, PORTUGAL E STP NÃO SÃO DESTINOS TURÍSTICOS CONCORRENCIAIS OU AS SEYCHELLES E A SUIÇA, OU O CHILE E A LITUÂNIA). QUERO EU DIZER QUE, EM MINHA OPINIÃO, ISSO DEVERIA ESTAR MAIS EXPLÍCITO NESTE PONTO. TAMBÉM SERIA IMPORTANTE REFERIR A IMPORTÂNCIA DO ESTABELECIMENTO DE PARCERIAS COM OPERADORES INTERNACIONAIS DE FORMA A IMPLEMENTAR UMA ESTRATÉGIA DE MARKETING COM VIABILIZAÇÃO DA IMAGEM DO PAÍS PARA O EXTERIOR.

3. Criar condições objectivas para um desenvolvimento sustentado, potenciando os seus recursos naturais. E A VALORIZAÇÃO CULTURAL?

4. Desenvolver São Tomé e Príncipe, através do Turismo, em todas as suas vertentes. EM MINHA OPINIÃO ESTE PONTO PODERIA ESTAR INTEGRADO NO 2. COM MAIOR DESENVOLVIMENTO, EVENTUALMENTE COM SUBPONTOS (SUBOBJECTIVOS), TAL COMO OS – 5./8./9./10./11.

5. Participar directa ou indirectamente na formação de empresas ligadas ao Turismo e outras actividades económicas.

6. Fomentar as trocas comerciais entre São Tomé e Príncipe e o resto do Mundo, especialmente a Europa. PENSO QUE É PRECISO OPERACIONALIZAR UM POUCO MAIS A FORMA…

7. Incrementar a Industria da construção civil em todas as suas vertentes.

8. Aumentar o fluxo Turístico através da TAP Air – Portugal e outras companhias PODERIA REFERIR A POSSIBILIDADE DE ESTABELECER ACORDOS PRÉVIOS

9. Estimular o aumento da oferta Hoteleira, quer pela recuperação de infra-estruturas existentes, quer pelo surgimento de novas unidades.

10. Criar postos de trabalho e desenvolver a formação profissional, na área da Hotelaria e Turismo, através do desenvolvimento de parcerias. ATRAVÉS DE QUÊ? CENTROS DE FORMAÇÃO, FORMADORES LOCAIS???

11. Aumentar a qualificação profissional de indivíduos ligados ao sector da Hotelaria e Turismo. ESTE PONTO PODERIA ESTAR RELACIONADO COM O ANTERIOR PORQUE LHE DÁ CONTINUIDADE.

12. Criar mecanismos de intercâmbio entre ST , a AGM e os governos dos dois países de forma a potenciar a formação profissional nas áreas em que ST estiver mais carenciado.

13. Criar fluxos de mão de obra qualificada, Técnicos Superiores e outros minimizando o desemprego em Portugal ????? NÃO PERCEBO ESTE PONTO. IMPORTAÇÃO DE MÃO DE OBRA QUALIFICADA ESTRANGEIRA? ENTÃO E O PONTO 10. E 11.?

14. Utilizar este projecto para tornar mais “visível” A Cooperação Portuguesa. …

15. Aumentar as exportações portuguesas para um País onde vai ser explorado petróleo

16. Utilizar este projecto como rampa de lançamento para outros similares

***Li a sua resposta….foi aí que “rapei da máquina de filmar” e com muita calma resolvi filmar-me…para contestar a sua demolidora avaliação (ver Lzec contado ao Mosquito, parte (4). Não iria ficar sem resposta….mais uma que não percebeu nada, pensei.
O seu desabafo, antes de “cortar a direito” nos meus ideais, acabou por provocar, posteriormente, uma reacção que viria a minimizar os danos colaterais. Agora existe cumplicidade, já que também a Brigida lutava por qualquer coisa…contra muita coisa.



João Brito e Faro,
in “O Lzec contado ao Mosquitto”
continua…