A História do LZEC #05

A data da primeira edição do Lzec em 2003, foi imaginada por mim para Maio desse ano. Ao anunciá-lo ? minha mulher sou confrontado com um comentário seu, lacónico e seguramente sofrido: em Maio nasce a Maria do Rosário, nossa terceira filha…

…engoli em seco e senti um profundo mal estar, o Lzec afastava-me da minha Família, e do nascimento do bebé….nem me lembrei disso, pensei; resolvi então adiar para Agosto desse ano. Fomos só em Outubro.

Durante todo esse ano tive que enfrentar, quase a medo, as mulheres dos meus amigos da Organização. “Será que elas pensam que eu os estou a desviar para algo, por elas censurável?”

…de qualquer modo os seus olhares eram penetrantes e desconfiados. Ainda hoje sinto algum desconforto quando as presencio. Havia, no entanto, que aguentar essa situação, estávamos em “Missão”, todos o sabíamos. O tempo decorreu e, em Setembro de 2004, aquando da segunda edição, a minha terceira filha começou a andar; nada de surpreendente, não fosse ela ter um atraso grave no seu crescimento…de facto esteve internada várias vezes, em situações delicadas…não tive o privilégio de testemunhar esse feito histórico, recebi a notícia, em plena selva, por telefone satélite…as lágrimas turvaram-me os olhos e uma ousou escorrer pela face esquerda…foi grande a emoção àquela notícia. De facto o Lzec prosseguia o seu caminho, mas o preço que estávamos a pagar era elevado.

As nossas famílias estavam a ser separadas por este projecto e estávamos a prosseguir quase sem olhar para mais nada.

Hoje é dia 12 de Janeiro de 2005. Já fizemos duas edições, o Lzec é uma realidade incontestável; estamos a fazer algo de importante, para São Tomé e Príncipe, para Portugal e para a História comum…o tempo vai acabar por confirmar a ousadia e imodéstia deste meu comentário.

Pensar e escrever esta história, goste-se ou não, exige um estado de espírito muito próprio. E para escrever esta história é preciso lembramo-nos das coisas boas e das coisas más que juntas, formam quase três anos de rumo traçado e trilho conquistado, palmo a palmo ignorando quase tudo o que se passou para além do projecto. Ignorando inclusive tantos amigos que deram o seu contributo.


No dia 6 de Dezembro de 2004 escrevi estas linhas aos Jornalistas que nos acompanharam e à Organização do Lzec:

“Parece que uma das características do meu signo (escorpião) é ignorar as coisas, desistir delas, quando se tem uma decepção…pelos vistos sempre sem rancor…pura e simplesmente ignorar, esquecer, riscar do mapa e da memória…sem dar qualquer importância a essa porcaria dos signos, considero que este “estado de espírito” me é frequente….ou tem sido, ao longo de toda a minha vida…nunca me esqueço de uma história com a minha caseira da quinta em Mangualde, onde passei cerca de 10 anos da minha vida…depois de lhe arranjar uma casa, convencendo o meu Pai a fazer um preço simbólico, abriu contra a minha vontade, e contra aquilo que estava acordado, uma janela para dentro da dita quinta…ou seja aproveitou-se e enganou-me….logicamente nunca mais lá pus os pés….não sei se está viva ou morta, velha, decrépita ou a vender saúde…simplesmente não sei…e o
mais grave é que nem sequer penso naquela que foi o meu braço direito durante tantos anos….no entanto não lhe desejo mal…pura e simplesmente a risquei da memória…(esta forma de estar na vida ? grave, penso eu).
O Lzec, 2003 ou 2004, tem sido um poço de decepções… graves e sérias…não está em questão a luta por uma causa…esse problema não se põem. Só não aguento as decepções que esta porcaria me tem causado. E só não as aguento, por essa razão…porque tendo a ignorar, a esquecer aquilo que me incomoda…mas só quando me sinto ENGANADO….e em 2004 enganaram-me muitas vezes….

Portanto…
…portanto….
….mesmo com tanta gente a querer inscrever-se, mesmo com a mensagem associada ao Lzec, mesmo com tudo o que isto tem de espectacular….porra, não se devem enganar as pessoas….sob pena de algumas, os escorpiões, esquecerem….formatarem o disco e perderem toda a informação…compilada  desde Junho de 2002….e partirem para outra, nunca mais voltando ao local anterior.
Não sou francês…”

Confesso que ainda não me consegui libertar deste sentimento…mas já faltou mais. Faça-se luz.



João Brito e Faro,
in “O Lzec contado ao Mosquitto”