Marrocos – O sonho do Alto Atlas

Marrocos…continente Africano! Mulheres de várias etnias envolvidas em véus lindíssimos, ruas sujas, mercados estreitos e escuros, trânsito caótico nas grandes cidades, pistas de areia, de pedra…palco de treinos para alguns concorrentes do Paris – Dakar.
Para mim era esta a definição de Marrocos. Ouvia histórias de amigos que tinham lá ido e tirando uma ou outra , os relatos não eram nada simpáticos.

Estávamos entre amigos e depois de várias opções, o resultado foi concretizar uma viagem pelas gargantas do Todra e eventualmente até ao Erg Chebbi. Para alguns seria mais uma, para mim seria a primeira.

Os dias foram passando, as dúvidas iam sucedendo, o receio aumentava. Procurei concentrar-me em coisas que me pudessem ajudar a concretizar a viagem de uma forma positiva eliminando os fantasmas que faziam questão de bailar no meu espirito… havia tanta coisa a preparar: acompanhar o planeamento do percurso, ouvir as sugestões dos mais experientes relativamente ao acondicionamento da carga na viatura…a roupa, a alimentação, os fluídos do carro…parecia-me tudo demasiado complicado!

Finalmente o grande dia, pelo menos para mim!…estava uma manhã, muito bonita naquele domingo de Setembro. Face a perspectiva de rumar para Sul, sentia-me infeliz… estava confusa e receava que esta viagem fosse uma má opção.

Entrei para o meu carro, não conseguia proferir nenhuma palavra, observava os meus companheiros de viagem e procurava esconder as lágrimas que teimosamente humedeciam o meu rosto…

Começo da primeira etapa…destino Ceuta! Parámos os carros e fomos comprar os bilhetes para fazermos a travessia do estreito. Dado o adiantado da hora, acabamos por chegar à fronteira bastante tarde…entrei em pânico com tanta confusão… eram amontoados de lixo, eram polícias aos gritos com os locais que tentavam passar sem cumprirem as formalidades fronteiriças… era a correria para o preenchimento dos documentos, a atenção redobrada aos movimentos da policia… têm rádios?…o quê?!…não percebo…eu queria sair dali…

Prosseguimos a viagem e pernoitamos em “Martil”. Um dos elementos que integrava a coluna, já conhecia esta localidade e sugeriu-nos uma pensão bastante acolhedora. Instalámo-nos e depois dos longos quilómetros que nos separavam de Lisboa, só pensava num bom banho e cama.

No dia seguinte, tomámos o pequeno almoço numa pastelaria e demos uma volta pelo mercado local…frutas, legumes, hortaliças, sabonetes, o cheiro intenso das especiarias, carne pendurada pronta para ser grelhada, era este o cenário que me rodeava…. gradualmente comecei a sentir-me muito mais à vontade e descontraída. A primeira barreira estava ultrapassada e começava a sentir-me pronta para iniciar esta aventura.

Enchemos os depósitos e rumamos para sul. Entrámos na auto-estrada e a 120Kms/ h lá prosseguíamos, ansiosos por chegar a Marrakech. O nosso objectivo era pernoitar nesta cidade e fazermo-nos às pistas do Atlas no dia seguinte.Montámos as tendas no parque de campismo e dirigimo-nos para o centro da cidade.

As ruas estavam repletas de gente, de veículos, motas com várias pessoas em cima, carroças puxadas à mão…situada na parte velha da cidade, esperava-nos uma deslumbrante praça!…Djema El Fna”.

O primeiro contacto foi mágico… sentia-me maravilhada com aquela festa de cor… fileiras de bancadas de alimentos, o cheiro, a agitação da população local, os encantadores de serpentes, o rufar dos tambores, os malabaristas… as atracções eram inúmeras e decorriam todas ao mesmo tempo!

Receando perder-me no meio de toda aquela barafunda, mantinha-me colada aos membros do grupo.

No dia seguinte, demos inicio ao principal objectivo da nossa vinda para terras Marroquinas…as pistas!

Peguei no 959 da Michelin e procurei a povoação que serviria de base de partida para as pistas que serpenteiam o Alto Atlas.

Sidi Rahal [UTM – 646062 3501936 29R], era a povoação escolhida. Dista aproximadamente 57,5 quilómetros de Marrakech. É uma aldeia muito pequena e pouco povoada…. talvez resultado do calor que se fazia sentir.

Enquanto uns aproveitaram para comprar alguns legumes frescos e pão, outros procuravam um local para almoçar.

O local escolhido foi uma barraca diferente de tudo o que eu tinha tido a oportunidade de conhecer…o tecto era de palha de onde pendiam uns panos vermelhos alaranjados. No centro havia uma mesa, disposta em T, coberta por um oleado de plástico branco. Num dos extremos havia vários tachos enormes com um péssimo aspecto…pelo menos pensava eu, na altura.

Simpaticamente fomos convidados para entrar. Serviu-nos um guisado de borrego, nuns pratos metálicos onde se podiam ver os restos da refeição anterior…os copos, foram passados por água, numa bacia castanha não nos deixando visualizar a linha d’água…no entanto tudo isto, eram pequenos pormenores, quando comparados com o delicioso sabor do chá de menta e do guisado.
Conversámos durante algum tempo com o proprietário…emigrante em França e conhecedor do mundo, segundo ele.

Depois da refeição e de dois dedos de conversa, deixamos o alcatrão e iniciamos uma pista…foi impressionante o contraste. Tínhamos feito meia dúzia de quilómetros e a paisagem era completamente diferente. O piso era irregular, desaparecia aqui e ali, o pó era uma constante e o calor nem se fala.

Várias foram as aldeias encontradas perdidas e fora de mão dos roteiros turísticos…as ruas, são estreitas e decoradas com argila, ouviam-se os animais, o riso das crianças…as Kasbhas, surgiam na paisagem como cenários irreais. À sua volta, viam-se pequenas porções de terra cultivada…alguns berberes escondiam-se e olhavam-nos com desconfiança… ao longe avistavam-se mulheres com vestes longas e coloridas.
Íamos progredindo no terreno, de acordo com o planeado. Tínhamos tido a preocupação de carregar no GPS alguns trackings e procurávamos não nos desviar dos nossos objectivos. Obviamente que na montanha, nem sempre éramos bem sucedidos… por vezes as derrocadas acontecem e fazem com que o percurso fique completamente intransitável. Várias foram as vezes que tivemos que fazer inversão do sentido de marcha em plena pista. Procurávamos encostar o carro o mais próximo possível da parede evitando assim colocar as rodas em falso, evitando a queda pelas ravinas íngremes que nos acompanhavam.

Com a chegada do anoitecer, procurávamos um local abrigado para montar as tendas. Por vezes na montanha, não dispomos de muito espaço. O que faz com que as tendas acabem por ficar praticamente em cima umas das outras. Depois do jantar sentávamo-nos à conversa, no entanto havia quem preferisse ir para os jipes, planear o percurso para o dia seguinte…portátil, mapa da Michelin e GPS.

No dia seguinte acordei, com o som de campainhas à distância, gradualmente o som foi-se aproximando e quando dei conta, tinha uma enorme caravana de mulas e burros, a passar junto do nosso acampamento…surpreendi-me com os elementos que orientavam a caravana!…crianças.

Depois da casa “arrumada”, prosseguimos a nossa viagem. Sabíamos que tínhamos que ir em direcção à uma enorme cadeia de montanhas. Só havia uma maneira de lá chegar, seguir o único caminho que as atravessava conduzindo-nos directamente ao nosso destino.

A região percorrida era árida e deserta, pontualmente avistavam-se pequenos povoados, no entanto não apresentavam quaisquer sinais de vida.

Perto do meio dia, alcançamos a aldeia! Depois de uma acentuada descida, lá estava “Troufine”. Segundo os nossos GPS, estávamos a 3283 m de altitude e a nossa posição era [UTM – 701704 3479345 29 R].

Estávamos na presença de uma aldeia muito pequena. Assim que fomos vistos, os poucos habitantes existentes deram-nos as boas vindas com um grande sorriso.

Questionámos sobre a possibilidade de fazermos uma refeição quente (confesso que já estava saturada das refeições à base de conservas) e rapidamente fomos conduzidos por uma criança até a uma casa, no topo da aldeia. Esperava-nos um homem sorridente e muito bem informado… estávamos num “Gite D’étape”! É uma espécie de albergue, controlada pelo estado… dispõem de uma sala forrada de tapetes e com umas mesas baixas, típicas de Marrocos…faz-se a refeição e dorme-se neste espaço.

Dissemos ao homem que só pretendíamos, almoçar e a dormida ficaria para outra altura. Depois de umas omeletes, pão e chá de menta, estivemos mais uma vez de mapa na mão. Tínhamos dúvidas e nada de certezas…! O que pretendíamos fazer, foi rapidamente desaconselhado pelo homem. Ainda sugeriu que fossemos acompanhados por um guia, mas face à prontidão da nossa resposta negativa, o senhor em tom brincalhão disse-nos que ficava à nossa espera ao fim do dia. Percebemos então que o percurso escolhido era de difícil acesso, no entanto estávamos decididos a faze-lo e não demos muita importância aos comentários
Despedimo-nos, agradecemos a hospitalidade e lá fomos.

Os primeiros metros, quilómetros, não trouxeram qualquer tipo de dificuldade. Andámos dentro de um Oued seco…, as vezes para a frente outras para trás, estava a ser muito difícil encontrar o caminho… a chuva apareceu e contrariamente ao que poderia acontecer, o ânimo em avançar mantinha-se…vimos um homem em cima de um burro e corremos para tentar obter algumas informações.
O diálogo foi difícil e pelo que se seguiu, nem ele nos compreendeu nem nós a ele!…

Sentia-me assustada e não sabia como é que iríamos transpor todos aqueles obstáculos naturais. As médias eram muito baixas, as indicações eram muitas e tentávamos em conjunto tirar os nossos carros dali sem danos materiais…

Finalmente conseguimos avistar um trilho praticamente abandonado. Era inclinado e cheio de irregularidades.Os momentos que se seguiram foram de uma angústia muito grande…pelo menos para mim.O sinal de GPS era frequentemente perdido…a verdade é que não tínhamos alternativas. Só podíamos ir em frente e cruzar os dedos para que não viesse nenhum veículo em sentido contrário.

A estrada era muito estreita nalguns locais, devido a derrocadas, a progressão tornava-se difícil e perigosa, os carros mal cabiam…do nosso lado direito só víamos ravina e pedra…as inclinações laterais eram uma constante… para dificultar a situação, apareceu cascalho solto e uma chuva miudinha… a apreensão estava instalada e só pensava quando é que encontrávamos um cruzamento, uma entrada, enfim uma alternativa para sair dali.

A concentração era total… só pensava como é que faríamos se eventualmente tivéssemos um furo… o sol já começava a despedir-se e nós ali. Restava-nos apenas uma alternativa, andar para frente. Acabamos por fazer alguns quilómetros da pista, apenas com as luzes do carros, até que finalmente apareceu-nos um pequena clareira…obviamente que nem foi necessário questionar nada, pois decidimos que pernoitávamos ali.
O lugar parecia deserto, até que avistamos dois miúdos escondidos a observar-nos atentamente.
Olhámos para eles com sentimentos possivelmente semelhantes. Acenamos e embora pouco à vontade lá se aproximaram e oferecemos uns blocos e canetas. A surpresa foi de tal forma que não queriam receber as oferendas. Depois de convencidos, despediram-se e desapareceram, da mesma forma que tinham aparecido.

Mais uma vez, montámos as tendas, jantámos e como não poderia deixar de ser os últimos quilómetros percorridos, foram tema de conversa durante uma boa parte da noite. Concluímos que tínhamos passado por momentos de muita tensão e que tínhamos de facto superado um grande desafio.

No dia seguinte tínhamos que tomar decisões, o regresso a casa estava próximo e já não dava para muito mais…

Olhámos para o Michelin e decidimos que na primeira oportunidade, iríamos apanhar a estrada de alcatrão.

De repente senti-me triste, queria continuar naquele monte rochoso…. um dos nossos companheiros de viagem, decidiu continuar a viagem sozinho…tinha mais férias. Fizemos as despedidas em “Assermo” e vimo-lo a afastar-se de mota pela pista…

Para mim, esta despedida teve um impacto brutal…a ele, sabia que dentro de dias o ia encontrar, às pistas ficava a incógnita!…tinha gostado muito e queria repetir tudo muito em breve…Deixei este país com o coração amargurado, mas não podia permanecer mais tempo… agradeço o carinho, a paciência e sobretudo o incentivo que tive para concretizar esta viagem!…


Marrocos, Set/01
Marisa Alves