Cabo Verde, terra estimada

Na descolagem e no início da viagem no pequeno avião que nos leva à Praia consigo ver melhor a paisagem. Não há dúvida, aquilo é o “Sahara”! na volta tenho de desbravar o terreno e não ficar apenas no hotel à beira mar de papo para o ar como a maioria dos turistas!

E assim foi. Depois de uma semana na Ilha de Santiago, outro bom destino para o TT, com montanha, trilhos por todo o lado a apetecer ir por ali fora, paisagens magníficas e praias e enseadas ao virar de cada curva da estrada, sim estrada, porque, infelizmente, em Santiago Não consegui alugar um jipe e tive de dar a volta à ilha de carro. Voltei ao Sal e a primeira coisa que fiz foi informar-me dos alugueres de jipes e só depois recompor-me da directa – as noites caboverdianas ao fim de semana são imperdíveis!


Foto ©Frederico Amorim – Mundo do Fred

No Sal há mais jipes, talvez por o alcatrão ser pouco, principalmente Suzukis e Suzukinhas, aos quais não foi montado um extra que me parece muito útil – o ar condicionado – pelo que aluguei um Galloper curto, embora a temperatura em Cabo Verde oscile entre os 22º e os 28º ao longo de todo o ano.

Hotel em Santa Maria, conta-quilómetros parcial a zero, sair o portão, esquerda, esquerda no entroncamento, 20 kms de alcatrão até ao aeroporto, seguir PP, passar pela localidade de Espargos, entrar em terra e come?ar aquele desconfortével prazer de andar aos trambolhões num jipe! poderá ser o início do “road-book” do passeio que vou ter de organizar no Sal (Não comecem j? a enviar “e-mails” com a inscrição ou a pedir informações porque ainda Não concluí o “road-book”). Depois entra-se num trilho idêntico aos do Sahara, ou seja terra e pedra e descobrimos uma parte da ilha onde poucos vão mas que é deslumbrante, para quem gosta deste tipo de paisagens. O “Sahara” com o mar ao pé é uma proposta tentadora!


Foto ©Malvin Hort

Primeiro destino: “Buracona”, piscina natural nas rochas, até aqui ainda se aventuram alguns turistas, a pista está bem marcada pelo passar dos carros e há placas a sinalizar quando se deixa o alcatrão, fotografias do local e avançamos por uma pista em direcção a uma elevação de terreno pronunciada, só terra e pedras, mas temos de voltar para trás Não há saída, contornamos a “montanha”, seguimos a inventar pela direcção que nos pareceu levar-nos à Ponta Norte. Como o GPS teria sido útil se eu me tivesse lembrado que é um equipamento obrigatório, mesmo em jornadas de trabalho, para a próxima não faltará! Mesmo assim Não nos perdemos (infelizmente!) tentando sempre seguir o azimute 0. Um banho espectacular numa zona rochosa e seguimos pelo azimute 45 para a Pedra do Lume onde há umas minas e lagoas de Sal que deram nome à ilha, em processo de reactivação, orientados pelo Sol e pelo instinto de aproveitar o máximo que podamos naquela terra estimada.


Foto ©Frederico Amorim – Mundo do Fred

Depois de dezenas de quilómetros de puro gozo (como a fazer jus à canção), de uns óptimos banhos de mar, de muita terra e de alguma areia com miragens na linha do horizonte e tudo, depois de inventar muito caminho e caminhos, depois de Não ter conseguido encontrar a passagem que nos permitiria regressar a Santa Maria e ao Hotel no ponto mais a sul da ilha sem ser por alcatrão (para a próxima tenho de conseguir e tirar razão a um caboverdiano que me disse que ele conseguiria passar mas eu não), depois de um peixe grelhado soberbo, são horas de voltar! Não apetece nada mas a razão sobrepõem-se, o voo está marcado e as horas avançam, a mala por fazer, o “check-out” também. Depois de tudo isto é o regresso mas com o pensamento já na próxima aterragem no Sal.


Foto ©Frederico Amorim – Mundo do Fred

Pelo que vim a saber, não é só a Ilha do Sal que tem estas condições fantásticas. A Ilha de Maio e a da Boavista têm condições idênticas, embora com pouquíssimos jipes.

“O Sahara com mar ao pé”, de que estão à espera para marcarem viagem? até lá!

Oi! Cabo Verde, terra [tão] estimada…!

“Nha cretcheu”

Rui Marques
Texto escrito 2000.
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Gostei de o reler e reviver aqueles momentos. Já lá voltei mais vezes…

Actualmente os 20 kms de estrada entre o aeroporto e Santa Maria foram alargados, há 2 vias em cada sentido, há mais jipes para alugar, já há uns passeios de jipes e de moto4 organizados pelos grandes hoteis mas a natureza continua a mesma a pedir que vamos por ali fora ? descoberta de caminhos e de sensações. E isto tudo na Ilha do Sal, cada vez mais turística e com mais hoteis e a escassas 3,5 horas de voo. Nas outras ilhas há boas condições. Cabo Verde é, sem dúvida, um óptimo destino turístico em todas as suas facetas, incluindo a do TTT.

Rui Marques
(Janeiro 2005)