A História do LZEC #04

Gentes mais novas a quem lhes é retirado o privilégio de estudarem, a História de Portugal, com todos os seus defeitos e com todas as suas virtudes.

A melhor coisa que me podia ter acontecido neste ano de 2002 foi, de facto, ter tido a possibilidade de ir a São Tomé e Príncipe e de ter tido a certeza de que era preciso executar o Latitude Zero – Equatorial Challenge (Lzec). Importa referir que a ideia do “raid” todo – o – terreno, foi de um amigo de Braga, o Ricardo Rodrigues. O formato actual foi a conjugação de esforços de um sem número de pessoas.

Regressei de São Tomé e Príncipe, com uma hiper – motivação para concretizar este projecto. Decorria ainda o mês de Junho de 2002, o tempo urgia, era preciso passar à acção. Era preciso promover aquele pequeno País Lusófono, preferencialmente, para já, em toda a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa.

Era absolutamente necessário tentar dar uma mão a quem tanta necessidade tem de tal…era preciso, no entanto, moralizar uma Comunidade inteira e fazê-los depender cada vez menos do exterior. Talvez promovendo os encantos do País e do povo, sem nunca esquecer, de uma forma construtiva, aquilo que considero menos favorável a um desenvolvimento harmonioso.

Com efeito na minha memória ainda estavam as imagens das roças abandonadas de São Tomé e Príncipe, a casa grande semi-destruída com rapazes a urinarem nas paredes. A sanzala, um autêntico bairro de lata europeu, albergava debaixo do mesmo tecto gente e animais.

As ruas das roças eram autenticas nitreiras…no meio de tudo isto o sorriso encantador dos miúdos e dos graúdos e a forma como nos recebiam…meu Deus, tanto contraste junto…que confusão!…que emoção!

Tenho ainda presente a imagem do lixo das ruas, a confusão dos táxis, a cascata de São Nicolau e a pousada da Boavista.

Na dita cascata tive a oportunidade de gravar, em vídeo, o relato de um rapazito sobre a mordedura da cobra preta…segundo ele, se alguém fosse mordido num pé, por exemplo, este deveria ser cortado, imediatamente, e a sangue frio, sob pena de a vítima morrer algum tempo depois.

Mais tarde em Bombaim, aprendi a técnica de matar uma destas cobras. Foi-me explicado que o golpe de maxim (catana) deve ser desferido a 50 – 60 centímetros da cabeça da cobra, já que ela tem tendência a recuar quando vê esse, ou outro movimento, assumindo uma postura de contra ataque. Se assim não fôr feito o mais que nos pode acontecer é acertarmos no terreno. Imediatamente depois a cobra reage e morde. E a mordedura, sem antídoto, injectado de imediato, é fatal.

Nunca tinha visto cacau ou café na sua forma natural…e tantas bananas diferentes. E as plantas?…com folhas gigantes e exuberantes, sempre o verde e o calor húmido pegajoso e perseverante

Uma autentica claustrofobia. As flores??…indiscritíveis!

O José Duro, entretanto, magoara-se num espinho qualquer. De imediato, um sãotomense que por ali passeava recolheu um cacau maduro, tirou-lhe a casca, cortou um bocadito da polpa e fez, na palma da mão, uma massa. Em seguida colocou esta “compressa” em cima da ferida e o sangue estancou imediatamente. Sorria ao olhar para mim, qual curandeiro, dizendo-me com o seu olhar que tudo estava bem…se o golpe fosse maior esta massa era feita com o interior do tronco da bananeira, explicou-me. E sorriu, outra vez. Retribuí-lhe o sorriso e provavelmente uma expressão de estupefacção.

Era preciso trazer os europeus, especialmente os portugueses a este mundo encantado, fazê-los viver e sentir estas emoções…o mote estava dado e o desafio lançado. Havia apenas uma condição, aquela imagem de mão estendida tinha que desaparecer e, uma das formas para que isso acontecesse teria que ser, em primeira instância, à custa do trabalho do sãotomense e do aumento da sua auto estima

As esmolas, que tanto suplicam e de que tanto dependem, deverão ser encaminhadas para quem de facto precisa…São Tomé e Príncipe deve abdicar disso. A propósito desta situação veio-me à memória uma conversa com um rapaz de 18 anos, que se intitulava de business man e que me dizia, agora somos independentes, somos um País livre…aquiesci, educadamente, e confrontei-o com a triste realidade dos parceiros e países doadores, os pilares da economia local…logicamente a conversa ficou por ali. Pedi-lhe, no entanto, já que se achava um homem de negócios para me arranjar algumas sementes para eu trazer para Portugal. Acertámos o preço e disse-lhe que lhe pagaría quando me satisfizesse o pedido. Ora, nem homem, nem sementes. Precisa-se de trabalho e de produtividade interna, apenas. O Turismo está ali.

Façam-no acontecer, o Lzec ajuda. O petróleo fica para depois.

Isto vai ser um sucesso, pensei, apesar das contrariedades que vão, certamente, surgir.

E agora, por onde começar?…quem vai ser a Organização? Quem vai apoiar o projecto?…como vai ser feita a escolha dos participantes?…e São Tomé e Príncipe aceita e autoriza que este evento se realize?…o Estado Português apoiará esta iniciativa?…e as Televisões?…como deverá ser feita a divulgação?…Internet, rádio, jornais, revistas?…as dúvidas eram muitas, a minha obsessão ganhava um contorno sem limite. Eu era um filho daquela terra! Os meus contactos eram nenhuns. Como vou convencer a Miluxa, minha mulher, de tudo isto?…vai achar que não estou bom da cabeça, no mínimo.

Seja como for as ideias estavam alinhavadas. Entendi que era necessário definir um rumo, algo que sustentasse esta loucura. Assim resolvi lutar por um sem número de propósitos e de não olhar nunca para o lado, muito menos para trás. Pedi ao José Duro que se mantivesse como um contacto local, para me ajudar a resolver problemas em São Tomé e Príncipe. Aceitou.

Regressei, então a Portugal. Tentei organizar a cabeça, e principalmente identificar a ponta do novelo de um fio, que longe de mim imaginar tão comprido, quase interminável.

Julho de 2002

Comecei por definir e escrever os objectivos…eram muitos, longos e abrangentes.

Inscrevi-me, entretanto num fórum de discussão sobre São Tomé e Príncipe. Sem participar lá ía lendo as mensagens e tentando perceber quais os assuntos que por lá se discutiam. No meio de inúmeras mensagens haviam algumas pelas quais eu sentia particular atracção. Estavam inscritas num português perfeito e as respostas dadas ou os assuntos propostos tinham relevante interesse. A sua autora chamava-se Brígida Rocha Brito e parecía-me ser alguém que escrevia com propriedade e que conhecia São Tomé e Príncipe.

Enchi-me de coragem e mandei-lhe um email dizendo-lhe somente o seguinte: “Tenho um projecto para São Tomé…preciso de falar consigo… responda em particular para este email, por favor”.

Fiquei a saber que a Brígida era investigadora, mais precisamente Doutoranda em Turismo Ecológico: Uma Via para o Desenvolvimento Sustentável em S. Tomé e Príncipe). Mesmo a calhar, pensei. Passavam-se os dias e as discussões sobre o projecto. Sempre extremamente crítica acabava por ser um estímulo à própria concretização do Latitude Zero – Equatorial Challenge. Argumentava muitas vezes de tal forma que cheguei ao ponto de me sentar num “maple” de minha casa e usando um tripé, uma câmara de filmar e vários cigarros fiz, a mim mesmo, uma espécie de auto-entrevista em que eu contra argumentava e tentava explicar as minhas ideias sobre o projecto. Logicamente nunca mostrei esse trabalho a ninguém, nem mesmo à Brígida. Está guardado numa gaveta, como material de arquivo, talvez para mais tarde recordar. Hoje em dia penso que a energia era outra e a motivação também. Muita coisa se passou entretanto, nestes dois anos e meio. Seja como fôr o caminho é sempre para a frente, já que dos fracos não reza a história, segundo parece.

Os tais temas de argumentação e contra argumentação, conversados por email ou por telefone resumiam-se fundamentalmente a uma série de ideias chave que norteariam sempre este evento. Refiro mais uma vez que fazer uma expedição de aventura, só por a fazer, era pouco e não me despertava qualquer interesse. O importante era que essa expedição viesse a ser o “pretexto” para o resto. Por outro lado havia que aproveitar esse mesmo “pretexto” e levar a São Tomé e Príncipe Participantes, Jornalistas e membros da Organização, já que eu tinha absoluta certeza de que viria a ter determinado tipo de resultado que seriam fundamentais para o sucesso do evento.

Importa salientar, que nesta altura do ano, Julho de 2002, estas mesmas ideias, os objectivos do projecto, eram ainda embrionárias. Aqui e ali ia conversando com Familiares e Amigos sobre esta obsessão que, paulatinamente, se ia transformando em paixão. Poucos eram aqueles que, no entanto, conseguiam captar a mensagem que eu tentava transmitir. Talvez eu não me soubesse explicar ou exprimir convenientemente.

A minha cabeça não parava de pensar e eu também não lhe dava um minuto de descanso, diga-se em abono da verdade.

Era preciso pensar e montar a máquina, começando por uma ponta, ou pelas pontas todas. Quem seria a Organização? Têm que ser pessoas em quem eu possa confiar, profissionais em cada um dos sectores que era necessário envolver. Havia que montar um “puzzle”. Tentando imaginar o ambiente da floresta equatorial, a bicharada, o stress, o apoio médico e psicológico, a sobrevivência, a logística e as comunicações, precisava, antes de mais nada de pessoas com experiência em situações ou ambientes hostis, que tenham estado preferencialmente em situações de guerra. Eram uma mais valia.

Recuando uns meses no tempo lembrei-me de uns cursos de Orientação que organizei. O formador era um militar Ranger, o Capitão Jorge Rodrigues. Os formandos eram bastante heterógeneos na sua formação mas, acidentalmente, ou não, haviam lá um Engenheiro Electrotécnico, o Jorge Meireles e um psicólogo, o Mário Barroco de Melo.

Desafiei o Jorge Rodrigues que era um operacional, já tinha estado em missões no exterior inclusivamente já conhecia São Tomé e Príncipe. Disse o que pretendia e expliquei-lhe que precisava de alguém com os seus conhecimentos de orientação e sobrevivência para liderar e coordenar a progressão no mato de STP. Disse que sim, claro.

Na mesma altura falei com o Jorge e com o Mário. O Jorge era rádio amador…óptimo, preciso de alguém que, em caso de necessidade, saiba pedir ajuda. Moçambicano, de nascença, aceitou de imediato.

O Mário, também com ligações a Moçambique, era psicólogo. Lidava fundamentalmente com reclusos de toda a espécie…ora aqui está alguém com traquejo e experiência para acalmar os ânimos se alguém se exceder em plena selva. Vamos, foi a sua resposta.

Estava formado o núcleo, vivíamos todos no Norte, relativamente perto uns dos outros, o que facilitava as reuniões e os contactos, já nos conhecíamos, embora um pouco formalmente, da formação, e todos tínhamos qualquer ligação a África. Tudo perfeito. Falta o apoio médico, tinha que ser alguém com experiência na Emergência Médica e que tivesse alguma experiência deste tipo de situações. Pus a hipótese de utilizar um médico local, mas apesar de haver um contacto com o José Duro e de a Brígida estar intimamente ligada, pelo, seu trabalho, a STP a coordenação tornar-se-ia complicada. Seria preferível levar alguém daqui que mais tarde viesse a fazer essa mesma coordenação com os médicos locais. Assim foi. O Mário Barroco de Melo propôs-me o Dr. Mário de Almeida, Angolano, operacional do INEM. Depois de algum entusiasmo inicial, perdi-lhe o rasto. Junta-se então, a este grupo de voluntários a Dr.ª Ana Carla Matos, com experiência na Emergência Médica e com uma comissão feita em Timor.

A equipa da Organização foi, posteriormente, aumentada nas áreas da Segurança e da Logística com mais dois militares operacionais, os na altura Capitães José Magro (nascido em Angola) e Jorge Pires.

As características da Expedição estavam, há muito delineadas na minha cabeça. Era algo que eu sempre sonhara fazer, embora nunca tivesse imaginado que tal, um dia, me viria a acontecer. Ao fim e ao cabo acho fascinante apreciar até que ponto nós, humanos, nos conseguimos adaptar a ambientes menos favoráveis e principalmente se conseguimos superar as adversidades do meio. Mais tarde veio a comprovar-se que o Lzec não é, de facto, para todos. Histórias para serem contadas mais tarde.

Era preciso escrever um texto que pudesse ilustrar, na medida do possível, aquilo que seria a nossa aventura. Assim foi:

A Expedição

Este evento visa organizar uma expedição na floresta equatorial de S. Tomé , cujo objectivo é a tentativa de dar a volta à ilha….( o mito de dar a volta à ilha surgiu muito mais tarde…inicialmente pretendiam-se, apenas, ligar as povoações e as roças, objectivos que ainda hoje se mantêm, como é lógico).

É um evento duro, muito duro, em que serão evidenciadas capacidade de liderança, espírito de equipe, resistência individual, capacidade de ler o terreno e superar obstáculos.

Em São Tomé e Príncipe, os participantes irão confrontar-se com inúmeras situações verdadeiramente agrestes e inóspitas em que, o factor humano e a camaradagem serão, talvez, a condição fundamental para atingir os objectivos.

O alojamento não existe durante a expedição e, a alimentação está a cargo de cada equipa, havendo sempre a possibilidade de caça e pesca ou a recolha de frutos e vegetais, que proliferam abundantemente em todo o País.

Várias pontes terão que ser reconstruídas e caminhos refeitos, através da interpretação cuidada de cartas militares, com 50 anos de idade, ou através de qualquer outra forma de navegação, que os participantes escolham.

Várias pontes terão que ser reconstruídas e caminhos refeitos, através da interpretação cuidada de cartas militares, com 50 anos de idade, ou através de qualquer outra forma de navegação, que os participantes escolham.

Várias pontes terão que ser reconstruídas e caminhos refeitos, através da interpretação cuidada de cartas militares, com 50 anos de idade, ou através de qualquer outra forma de navegação, que os participantes escolham.

A duração do percurso compreende 6 noites em plena selva equatorial onde a natureza de uma beleza não descritível pelo mais dotado dos poetas, (uma provocação ao Dr. Miguel Sousa Tavares, pelo relato que faz em “Sul – Viagens” e que posteriormente autorizou a utilização desses textos para promover o Lzec) se virá a tornar em inferno selvagem em que mosquitos, morcegos, macacos, cobras e aranhas serão as companhias vivas dos concorrentes que se defrontam com vegetação luxuriante, quase opressiva, mares de lama sob o clima tropical.

Um verdadeiro teste à inteligência, coragem e adaptabilidade ao meio, atributos típicos de qualquer aventureiro que se preze.

Acreditamos que a expedição poderá conduzir a momentos de algum desânimo e até a fortuitos estados de ansiedade. Por tal, a organização do LZEC faz deslocar uma equipa de apoio integrando médicos e psicólogos…

Penso que o texto está muito, mas muito aquém da realidade. Graças a Deus!

Já tínhamos Organização e receita para a Expedição, o que era um bom princípio. Importa referir mais uma vez que o todo o terreno continua a ser apenas um pretexto, bom sem dúvida, para algo mais, para aquilo que nos mobilizou e ainda mobiliza. A Brígida viria a tornar-se uma verdadeira consultora do projecto e o José Duro era o apoio em São Tomé. A minha Internet não parava de descarregar informação sobre São Tomé e Príncipe. Interessava-me, particularmente, qual era o nosso papel, o papel de Portugal, naquele e noutros territórios da CPLP. Aqui e ali descobria informação sobre a Cooperação Portuguesa. A impressora gemia com a informação apitava a pedir papel. Reuni uma série de material para estudar nas férias que se avizinhavam. Estávamos em Agosto.


João Brito e Faro

continua…