A História do LZEC #03

As ditas recordações de uma infância sã e privilegiada, nas quais eu me perdia e encontrava, eram aqui e ali interrompidas pelos buracos da estrada que rumava ao sul da ilha de São Tomé. O percurso era, no entanto, fascinante para quem aqui vem pela primeira vez…tanto se podiam ver os marcos da estrada, em cimento, rigorosamente iguais aos que havia aqui em Portugal, como alguns sinais de trânsito, resistentes ao abandono.

Os mais curiosos eram aqueles que referenciavam três curva e contra curva, três “Zês”, cópias daqueles que polvilhavam a antiga estrada nacional número 16 entre Albergaria e Viseu. Aqui e ali tropeçávamos em postes de electricidade ou telefone, apodrecidos pelo tempo e falta de uso…os fios eléctricos só mesmo no meu imaginário.

Ao longo de todo o percurso eram frequentes os acenos, pelos locais, ao nosso carro…o José Duro é um homem extremamente popular, pensei….porque seria? Não lho perguntei, preferi esperar e tentar descobrir.

Primeira paragem, São João dos Angolares…não conheço bem a origem deste nome, mas penso que tem qualquer coisa a ver com um barco de negros provenientes de Angola que naufragou ao largo da ilha de São Tomé. Os sobreviventes instalaram-se naquela zona.

São João dos Angolares é uma mistura de casas e antigos edifícios públicos de alvenaria, um largo principal, tudo salpicado por porcos, galinhas e cabras e seus dejectos…bastante húmido, já que chove com alguma frequência ao longo do ano.

Descemos do jipe da Cooperação Portuguesa e fomos então encerrar o primeiro curso. A sala de formação era uma “coisa” com quatro paredes, sujas e húmidas…haviam cadeiras e penso que mesas. Tudo com um ar decrépito e gasto…um quadro de lousa preta, um formador negro e alguns formandos também negros, claro. No meio daquela espelunca saltava à vista e ao sentimento a alegria com que nos receberam…ao José Duro, principalmente. Porque seria?…as minhas dúvidas acumulavam-se e a curiosidade também. Uma coisa era certa…irradiavam felicidade.

Feitas as despedidas e o discurso da praxe deslocámo-nos mais para Sul…chegámos a Malanza,um aglomerado de palhotas de madeira, de aspecto desolador. Curiosamente são todas casas lacustres, para evitarem a entrada da água da chuva, que, quando cai, tudo invade….e também ratos e cobras. A rua principal de Malanza fervilha de gente inactiva, pequenos grupos de pessoas que se entretêm a ver quem passa…o quadro é completo, também, com esterco de porco, galinha e cabra, misturado com lama. Os acenos são uma constante. Do lado esquerdo uma pequena baía, cheia de canoas de pescadores. São barcos talhados em madeira de Ocá, segundo me disseram.

O encerramento deste curso era precisamente com os pescadores.

A reunião foi feita ao ar livre, perfumada pelo cheiro do peixe, desde o mais fresco ao mais podre. Os formandos fizeram um “U”, para ouvirem, então, o discurso de encerramento. Foram contemplados com um colete salva-vidas e uma bússola…lembro-me de umas expressões, naqueles rostos, que me impressionaram…estavam felizes. Mais uma vez me encontrei a pensar…a felicidade seria pelos presentes coloridos que receberam?…algum dia eles os vão utilizar?…seria por terem aprendido alguma coisa com a formação?…seria pela visita do José Duro?…ou por uma outra coisa qualquer?…mais uma vez não fiz perguntas…um dia vou descobrir e ser capaz de interpretar todas estas emoções que me enebriavam. O panorama até agora era excitante, pelo menos para mim, que tendo nascido naquele País, pura e simplesmente me era desconhecido.

Apesar de tudo fui formulando algumas hipóteses e todas elas apontavam para o mesmo sentido. Havia uma alegria sentida, naquelas gentes…de facto gostavam de nós, penso que por sermos Portugueses…teria eu razão? O tempo o dirá.

Cumpridas as obrigações rumamos ainda mas a Sul…passámos por Porto Alegre, uma vila, ou cidade ou uma estrumeira de gente simpática, mais uma vez degradada pelos tempos e pelas vontades…e eis que, de repente, tropeçámos eu, o José Duro e o jipe da Cooperação, num blindado?!?…sim, um blindado, um monte de sucata, com lagartas, proveniente de Cuba!!!…para defender o quê e de quem????….absolutamente surreal, inimaginável, num País Africano que exemplarmente prima pela paz e pela concórdia, aquela imagem!…a não ser que tenha sido uma hipótese de exportar entulho, com financiamento soviético. Entulho esse que ainda hoje por lá se mantém…parece que apesar de tudo os “amigos” Nigerianos montaram um negócio de recolha de ferro velho em São Tomé e Príncipe…valha-nos isso!

Fomos até à praia Jalé, um lugar encantador, cuja maior virtude foi, no ano passado, ter sido um centro de reprodução de tartarugas. É um sítio de alguma forma emblemático para o Latitude Zero – Equatorial Challenge, como veremos mais adiante.

Regressámos a São Tomé, cidade capital.

Nada me fazia tanta confusão antes, e irritação depois, ao ver aquela mão aberta estendida suplicante, aquele hábito transformado em vício. “Brrranco, dá-me uma moeda…brrranco, dá-me qualquer coisa….”. A minha estupefacção aumentava à medida que os meus olhos observavam…e as dúvidas e interrogações também. Porquê esta atitude permanente principalmente nas crianças e nas mulheres?…se me é permitida uma análise imaginei este gesto como uma cópia daquilo que se vê ou foi vendo nos mais velhos. Deixei-me levar por um raciocínio próprio de quem não é estudioso em comportamento humano e deitei-me a tentar entender. Se a independência de São Tomé e Príncipe se deu há 30 anos atrás posso concluir, eventualmente, que a independência os deixou desarmados, desprovidos… sería aquele gesto uma atitude suplicante de um povo que outrora teve mais saúde, mais educação, mais trabalho, mais obrigações, mais disciplina?…sería esse gesto um cópia de outros gestos propriedade dos que viveram o pós independência?…as minhas dúvidas esvaneciam-se a convicção dos meus olhos e pensamentos consolidavam-se. Posso não ter razão…mas também posso tê-la.

Era preciso aumentar a auto estima deste povo que, como eu, era natural de São Tomé e Príncipe e que, também como eu, era fruto de uma mesma história, pensei uma vez mais com as gotas do meu suor.

O calor com que recebem os portugueses brancos era a demonstração da hipótese que me preenchia o pensamento.

“Português é irmão”, “não fizemos nada para sermos independentes”, empurraram-nos para isto eram frases convictas que eu testemunhava. Eram proferidas em voz muito baixa, entre dentes, num silêncio quase mórbido de quem não fala mais alto porque sabe que não será ouvido.

Antes éramos um pedacinho de Portugal, agora estamos em África, ouvia eu da boca de uma distinta Senhora negra de São Tomé e Príncipe, farmacêutica e professora, ao mostrar-me o Mercado do Ponto.

Nunca senti qualquer complexo nem com a colonização, muito menos com a descolonização mas ali, ouvindo isto e vendo aquilo, não pude deixar de sentir quase um sentimento de culpa ou um remorso, pelo rumo desta História tão recente….é que o Mercado do Ponto é um amontoado de lixo misturado com gente e de gente misturada com lixo, e de lixo e de gente misturados com produtos para venda, tudo rodeado por centenas de Táxis Amarelos, histéricos com a alegria das suas buzinas….ali vendem-se coisas…aos montinhos. Três batatas, três tomates, dois sap-sap, um montinho de feijão, outro de grão. Tudo polvilhado com triliões de moscas, quilos de peixe, temperados com as mesmas mais as mulheres, vendeiras…dezenas de mulheres barulhentas, convidando o turista e o residente a comprar os seus produtos…também se podem comprar medicamentos, e porcarias chinesas. O cheiro era nauseabundo.

A maior parte dos comerciantes são os herdeiros da reforma agrária Sãotomense, modelo de economia de estado injectado pelos comunistas e suas filosofias. As terras das roças foram distribuídas pelos trabalhadores das roças no pós – independência, à semelhança do que aconteceu em Portugal a seguir à revolução. A máxima da terra a quem a trabalha levou a que São Tomé e Príncipe sobreviva, a nível da alimentação, pela generosidade e benção do Santo que duvidou…é que São Tomé e Príncipe, tem uma abundância anormal de comida, disponível para todos…a natureza é pródiga, de outra forma, não acredito que houvesse gente, hoje em dia, para dar o nome a algumas, poucas, certidões de nascimento. Ou é a matabala, ou as quinze variedades de banana, o peixe que se apanha à mão, ou os porcos, galinhas e cabras, que co-habitam harmoniosamente com as populações.

Impressiona ouvir um velho contar as histórias do antigamente…principalmente quando as lágrimas lhe escorrem pelo rosto, e a voz e palavras se misturam e enrolam numa garganta engasgada. Senti um aperto…o que dizer, pensar, sentir perante tal cenário?…

– Porque eu fui sempre fiel…antigamente tinha tudo, comida, roupa, cama e salário…não fizemos nada para sermos independentes…nem sabíamos o que isso era. Até estive em Lisboa a trabalhar com os meus patrões – desabafava um outro velhinho Sãotomense, esfarrapado, sem dentes, descalço e com ar de sem – abrigo, daqueles que dormem debaixo da ponte.

– quer um cigarro? boleia para a cidade? – perguntei eu. Aceitou, claro. E assim rumámos a Neves eu, ele, e um saco cheio de bananas vadias, apanhadas no mato de ninguém….pediu-me um outro cigarro… guardou-o no bolso da camisa, para mais tarde o saborear…à lareira?…duvido.

O Latitude Zero – Equatorial Challenge ía-se formando. A idéia inicial de pura e simplesmente fazer um “raid” todo – o – terreno dava agora lugar a um projecto que tería de ser mais ambicioso, mais arrojado, mais emblemático. Aquilo que eu estava a viver em São Tomé e Príncipe tinha que ser divulgado. Mais do que divulgado tinha que ser vivido e sentido por mais gente, por mais portugueses, principalmente pelas gentes mais novas.


João Brito e Faro

continua…