Crónica da Mauritânia (2003)

Crónica da República Islâmica da Mauritânia (2003)
Primeiro contacto com os companheiros de viagem cumprido. Estrada que liga Lisboa, Beja a Sevilha. Pausa para almoço. Os outros viajantes ainda no Caia. Local de reunião, Tarifa. O programa consiste em apanhar o ferry em Tarifa com destino a Tanger.

1º. Dia – 30/08/03

O objectivo para esta 1ª. etapa, é Tanger.
Há partidas de vários pontos do país. Carros carregados, mulheres e homens a postos. Percursos, locais e horários de encontro vão falhando sucessivamente. O telemóvel vai cumprindo a missão de ir actualizando os pontos de encontro.
Primeiro contacto com os companheiros de viagem cumprido. Estrada que liga Lisboa, Beja a Sevilha. Pausa para almoço. Os outros viajantes ainda no Caia. Local de reunião, Tarifa. O programa consiste em apanhar o ferry em Tarifa com destino a Tanger.

Chegada a Tarifa. Abastecer de água os bidões para a aventura que se aproxima. Surgem perguntas sobre as viaturas e a expedição. O Bj40 desperta interesse. Vão para o deserto? Para onde, Mauritânia?

A reunião com a “família de aventureiros” para esta expedição. Após tantos meses de preparação, mails, telefonemas, agora sim, finalmente juntos. Fazem-se as apresentações. É que, há companheiros de viajem que não se conhecem, apesar de trocarem mails à meses. Somos oito, e as viaturas são cinco: Mitsubishi Pajero, Toyota HZJ 79, Hyundai Galloper, UMM e Toyota BJ40.

Compramos os bilhetes, ida e volta. Sai mais barato. Mostramos os passaportes, e embarcamos. Adeus e até ao nosso regresso, Europa…

As formalidades de entrada em Marrocos são tratadas no navio. Numa secção, as viaturas, numa outra, os passageiros. É rápido e eficaz. Boa aposta esta do navio que faz a ligação Tarifa – Tanger.

Chegamos a Tanger já ao anoitecer. A confusão é imensa. Estamos no fim do mês de Agosto e os africanos que regressam à Europa depois de férias, entopem completamente o acesso ao porto. Ainda bem que é em sentido contrário. Mas mesmo assim a confusão é muita. A fila de trânsito estende-se pela cidade.

Trocamos Euros por Dh. É altura de procurar Hotel. Contactos, ofertas, pedidos de prendas, começa Marrocos no seu melhor. Ou pior.

Tempo para jantar. Numa esplanada instalada em pleno passeio na confusão de Sábado à noite. Isto é Tanger. Oportunidade de arranjar companhia para a longa viagem. Estes viajantes simpaticamente oferecem-me uma “co-piloto” pois viajo sozinho. Esta americana, de longos cabelos loiros, é sofisticada, usa calções e top. É uma autentica “Barbie”. Diga-se em abono da verdade, que o guarda roupa não é o mais indicado para um país muçulmano, e ao longo da viagem sempre despertou interesse junto das crianças e dos adultos. São vários os olhares de volúpia…Pouco ou nada faladora, nunca se mostrou desagradada com as duras condições que encontrou.
É tempo de repouso, na cidade que não dorme.

2º. Dia – 31/08/03
Destino, Agadir. Iniciamos a viagem por terras marroquinas. Muitos sobreiros. Vendedores, oferecem melões. São chineses, brincamos, pois são de cor ser amarela…

A ida para sul é feita por estradas não principais, que dada a ausência de movimento permite médias elevadas. O piso nem sempre é o melhor, e os saltos e as curvas com o credo na boca sucedem-se. Mas é uma boa aposta este trajecto.

Em plena auto-estrada um árabe, na berma, reza virado para Meca.
Vendem-se cestos com uvas. Pedem-se boleias. Autocarros param para deixar entrar ou sair passageiros. Peões cruzam as vias. Curiosas estas AE marroquinas.

A estrada para Agadir. O transito de veículos pesados, o veículo mais lento ( o BJ) a marcar o ritmo de progressão da coluna. As ultrapassagens, a condução à noite, os veículos que circulam em sentido contrário que teimam em não usar os médios. Os faróis, que apontam, ora para cima, ora para baixo. É difícil esta progressão e exige muita, mas mesmo muita atenção. Apesar de tudo os condutores marroquinos são simpáticos e sempre que podem, facilitam as manobras de ultrapassagem.

A chegada a Agadir. A cidade dos anjos. Tarde, pois a etapa tinha sido longa. A procura de Hotel. Como recurso, o Hotel Bahia. Limpo, com guarda para as viaturas. O preço para a guarda às viaturas é mais ou menos tabelado. São 10 Dh por viatura. O tão merecido descanso, para alguns…para outros, nem tanto.

3º. Dia – 01/09/03
Fazem-se compras no mercado local. Pão e fruta variada. É o ultimo abastecimento antes do grande Sahara. A sul, não são grandes as possibilidades de alimentos frescos.

A viagem prossegue. Agora é a vez do Anti-atlas. Estrada bonita, serpenteando as grandes montanhas. Os camiões uma vez mais impedem uma progressão mais rápida, mas, às vezes, também sabe bem desfrutar da magnifica paisagem. O calor começa a fazer-se sentir apesar de estarmos numa zona montanhosa. E o calor começa realmente a ser, muito calor…

É a longa estrada do Atlântico. Sem grande interesse e monótona. Os quilómetros sucedem-se, e o destino sempre longe. É o preço das viaturas de “ média de andamento relativamente baixa” . E o muito calor sempre presente. O consumo de água começa a fazer-se sentir.

Os controlos na estrada também. Ora da policia, ora da “Sécurité”. As fotocópias contendo os dados referentes aos viajantes bem como às viaturas fazem com que o tempo gasto seja, apesar de tudo, mais curto. Alguns perguntam-nos imediatamente pelas fotocópias. As perguntas são invariavelmente sempre as mesmas: quem é o chefe, de onde vêm e para onde vão. As respostas invariavelmente as mesmas: somos um grupo de amigos portugueses e vamos para o deserto na Mauritânia. O ambiente que se vive nestes postos de controlo é sempre alegre e descontraído.

Almoço no cabo Bojador. “Tagine”, coca-cola e fanta. Um pimento verdadeiramente bravo, como o expedicionário que o comeu… Paguei mais tarde o atrevimento com o pimento.
A viagem prossegue. Mais calor, muito calor. Anoitece. Os camiões de transporte de peixe fazem a sua aparição. Fazem a viagem de noite para evitar o calor. O cruzamento com estas viaturas nem sempre é fácil. As luzes e a faixa de rodagem estreita não ajudam. A estrada frequentemente coberta de areia também não.
O cuidado é constante. O vento começa a soprar. De dia o calor, à noite o vento.

Decidimos acampar a poucos quilómetros de Laâyoune. Um letreiro junto da estrada com a indicação parque de campismo “Le Roi Bedouin”. Ainda são 4 quilómetros de “pista”. O dono, um francês recebe-nos de roupão. O vento sopra forte. A opção são duas tendas típicas. O preço é de 52.5 Dh por pessoa. Para jantar, começa a dança dos enlatados.


4º. Dia – 02/09/03
Em Laâyoune, alguns companheiros de viagem tiram mais fotocópias para entregar nos controlos. O ritmo ao qual são distribuídas, deixam marcas. Estamos no Sahara Ocidental e a presença marroquina faz-se sentir.

As cabanas dos pescadores nas falésias. Numa paragem, apenas e só para desentorpecer as pernas descobrimos um pescador. Com a sua “tenda de campismo”. Não fala francês. Através de gestos diz-nos que tem peixe. Existência estranha e solitária. Ali, entre dois oceanos, o de água e o da areia….do deserto.

Cruzamento de Dakhla. Mais um posto de controlo. Apesar das fotocópias, o policia insiste em escrever à máquina os nossos dados. Quer dar um ar oficial. Bate rápida e decididamente nas teclas. As teclas encravam e empurra furiosamente a máquina. As fotocópias vencem uma vez mais. Manda-nos embora sem mais comentários.

Atestamos depósitos e jerrycans. Espera-nos uma longa viagem até ao próximo abastecimento, que calculamos ser em Zouérat na Mauritânia. Temos agora autonomia para cerca de 1.000 Kms. Não arriscamos abastecer na ultima estação de serviço, dada a possibilidade real de não haver combustível.

O avanço continua para sul. Agora o movimento viário é praticamente inexistente. A noite cai. O objectivo desta etapa é ultima estação de serviço, uns 60 kms antes da fronteira. Avistamos ao longe e à direita as luzes da cidade de Dakhla, mas rapidamente a noite escura nos envolve.

Jantamos numa povoação uma vez mais “tagine”. É noite escura. Somos uma vez mais controlados. A viagem continua, longa, muito longa.

Ao longe, umas luzes. É a tão esperada estação de serviço. É ao mesmo tempo estação de serviço, armazém de peixe e Hotel. “Hotel Barbas”. Discutido o preço (na realidade, um companheiro experiente faz-nos poupar algum dinheiro) “aceitamos” ficar lá a dormir. E “aceitamos” porque a base de argumentação foi mesmo essa. Nós pretendíamos continuar viagem (grande treta), e só esse grande aventureiro nos fez descansar. Assim o preço desceu para os 130 Dh por pessoa. Simpático e limpo o hotel. Bem precisávamos do descanso.

5º Dia – 03/09/03
A viagem continua. Agora a fronteira de Marrocos. Rápida e descontraída. E assim sem mais nem menos, pedem-nos bebida. Whisky, cerveja, vinho, o que tivermos. Lá se vai uma “garrafita” de maduro tinto. Agradecem-nos com quantos dentes têm na boca. O serviço da parte da tarde ia ser mais calmo, julgamos nós…

Acaba a estrada de alcatrão. Começa a famosa terra de ninguém. Por pista, ou nem isso, pois nem sequer há um limite definido. Avança-se com algum nervosismo, até porque a zona é minada e alguns destroços de um Land Rover mesmo junto à pista atestam exactamente isso.

1º. Controlo na Mauritânia. O militar vê os passaportes e manda-nos avançar. Paramos 50 metros à frente. É a fronteira propriamente dita. Mais passaportes, e desta vez, carimbos. Agora mais 20 metros, é a “adouane”. Documentos da viatura, se temos algo a declarar. O álcool e os Cb’s continuam “devidamente acondicionados”. Não, não temos nada a declarar. Agora temos que preencher dois impressos: um, uma declaração de honra em que nos comprometemos a não vamos vender as viaturas, outro, em que temos de declarar a importância que levamos, quer em numerário, quer em valores. Por uma questão de precaução não declaramos a totalidade do valor que levávamos.

Como sinal da sua boa vontade, estão dispostos a ignorar todas estas formalidades, nomeadamente inscreverem nos passaportes os dados das respectivas viaturas e o não preenchimento da declaração de valores, obviamente em troca de uma compensação financeira. Educadamente recusamos. Não vamos vender as viaturas na Mauritânia e não nos importamos em declarar as divisas (parte). Insistem. Somos firmes na recusa.

Querem ver as viaturas, ameaçam, querem vasculhar tudo. Aí o caso muda de figura e acabamos por ser objecto de extorsão de 20 Euros por viatura e isto depois de uma dura negociação em que pretendiam o dobro. Os contrabandistas de viaturas para a Mauritânia, estão a introduzir maus hábitos e a tornar os policias mauritanos demasiadamente ávidos. Esta é uma fronteira a ter particular atenção. São todos “sorrisos” e “boa disposição”, mas sabem perfeitamente o que querem e não abdicam. Os Euros, os Euros, ou os “Ouros” como dizem….

Dois “motards” espanhóis chegam em sentido contrário. Vêm do Senegal. Falamos como se fossemos amigos de longa data. Trocamos informações. Eram um grupo de 4, que entretanto se reduziu a dois, por motivos de queda de um e partida apressada de outro. Boa viagem. Foi o desejo de todos.

Finalmente na Mauritânia. Baixamos a pressão dos pneus; 1.7 bar à frente, 2 atrás. A pista continua. Má e indefinida. A linha do comboio. A famosa linha do comboio mais longo do mundo. Atravessamos a linha para sul. A regra é nunca a transpor para norte. É zona minada. Avançamos ao longo desta.


A areia começa a aparecer. Ainda seguimos um bom bocado na estrada que está a ser construída. Ainda está em terra. Mas uns camionistas fazem-nos sinal para a abandonarmos. Assim fazemos e a caravana parte-se. Reunimo-nos uns quilómetros à frente.

É tempo de procurar sitio para acamparmos. Saímos para sul da linha em busca de dunas que nos protegessem do vento e de olhares curiosos. O acampamento foi montado no sopé de uma grande duna. Toma-se banho com chuveiros mais ou menos improvisados.


Ouve-se o maior comboio do mundo ao longe.

No fim do jantar, subimos a duna para apreciar a paisagem. É um momento de partilha e autocrítica. Um momento tranquilo e relaxado. Discute-se TT, dunas positivas e negativas. Direcção do vento e a formação de dunas. Contam-se histórias fantásticas de aventuras com argelinos e ingleses. Bamako no Mali foi então o destino. O tempo parece parar…

6º. Dia – 04/09/03
Primeiros bancos de areia. Primeiras sensações (para alguns) de condução na areia na Mauritânia. Os veículos progridem sem dificuldade.

Uma nascente de água em pleno deserto. Na realidade, supomos ser uma conduta de água que rebentou e a água brota alegremente. Alguns mauritanos aproveitaram para fazer um pequeno jardim/horta a jusante. Protegem este seu “quintal” com pedras, travessas do caminho de ferro e arames.

A linha de comboio, acompanha-nos à esquerda. A sua utilização é uma alternativa em termos de progressão, mas comporta alguns riscos. Algumas vezes a areia ainda não invadiu a linha, e as pedras são pontiagudas. Outras, o piso mostra-se irregular e as suspensões são fortemente castigadas. Ainda assim, o maior perigo consiste em carris abandonados ao longo da via, semi-enterrados, e que podem a qualquer momento danificar os pneus ou então provocar fortes pancadas, sempre com resultados imprevisíveis. Para os pneus, as farpas, ou lascas que os carris largam dada a pouca manutenção de que são alvo, são de facto a maior causa de furos. Abrem um pneu como um abre latas abre uma lata. São mortais, estas farpas para os pneus. Põem os nervos de um viajante ao rubro.

A sensação que se tem, quando se conduz na linha é a de que caminhamos sobre uma tábua cheia de pregos, e ao menor deslize, puff, já está.

Primeira avaria. Um tubo dos travões rebentou. Tantos saltos aquele UMM deu, que num deles um tubo de travões foi trilhado, e, já está, óleo a escorrer. Rapidamente o bravo aventureiro, agora convertido em mecânico, reparou a avaria. Sensatez, foi o que foi, ter levado tubos de travões sobressalentes.

Destroços. Muitos. Um acidente ferroviário ocorrido nos idos anos 80. Ali abandonadas, jazem as imponentes carruagens. Ferros torcidos, chapa amolgada. Estão já semi enterrados pelo avanço da areia, fina e macia. Sob a acção do Sol, o metal queima, o calor é impressionante.
Imaginamos o brutal acidente.

A viagem prossegue. A ritmo vivo, pois claro que a pista poucas dificuldades apresenta. Algumas vezes areia macia, outras areia dura, outras ainda algumas pedras. E os saltos? Alguns, sem tempo de reacção, é só agarrar fortemente o volante e esperar pelo sempre incerto aterrar. Num destes saltos, o suporte da bateria do clássico BJ, partiu. Pronto, pronto, preparação mal calculada, para uma bateria tão pesada. Os erros na preparação podem-se pagar caro. Mas este não. Foi barato e simples. Foi só amarrar a bateria com uma cinta e já está. O ritmo de progressão continua rápido.

Numa aldeia somos convidados para um “tea a la mente”. É um saraui da Frente Polisário, apresenta-se. Simpático e hospitaleiro. Toda a família está presente. Tiramos o calçado, como mandam as regras. Sentamo-nos e conversamos. Oferece-nos leite de camelo, fêmea, pois claro, que vamos passando de mão em mão. Tem água misturada e açúcar. Pediu-nos esferográficas. Disse que conhecia o deserto como uma ave.

A irmã, bonita, de idade indefinida prepara o chã com todo o cerimonial. Gestos repetidos inúmeras vezes com uma precisão desconcertante. Pedimos autorização para fotografar e de repente a tenda parece o “Festival de Cannes”, tantos são os flashes. Só alguns bravos provam o chã. Os outros, bem, fica para a próxima.

Distribuímos brinquedos pelos miúdos, agradecemos a hospitalidade e arrancamos.

Numa zona mais abrigada do vento acampamos. A rotina começa a instalar-se. Montar as tendas, verificar níveis nas viaturas, banho e jantar. Ainda há tempo para uma meloa fresca. Há cada luxo decorrente de carros mais bem equipados…e que funcionam! Para terminar, uma ginja. Boa.

Começa a chover. Gotas grossas e quentes. É altura de nos despedirmos. A trovoada vê-se ao longe. As antenas de Cb são desmontadas. Uns bravos viajantes instalados lá no alto da viatura, ficam a segurar a tenda. Os luxos pagam-se…

7º. Dia – 05/09/03
Alvorada às 8h00, 7h00 locais. Estamos atrasados. Às 6h45 o despertador tocou, mas era ainda noite.

Operação de trasfega de combustível. Com um berbequim. Funciona na perfeição. Assim não é necessário segurar nenhum jerrycan. Os luxos continuam…

Primeiro atascanço. Mesmo junto à linha de comboio, numa zona de areia mais macia. Rápido o resgate.

Eis o momento: o cruzamento com o maior comboio do mundo! Ainda há um bravo que faz uma tangente. O comboio inexplicavelmente pára. E nós, bem, nós de máquinas fotográficas em riste, mesmo junto à linha. Queremos documentar o momento. Este comboio transporta minério, passageiros, rebanhos de cabras…tudo.

Os passageiros e os expedicionários, trocam saudações. Pedem-nos lá do alto para os fotografarmos. Quatro locomotivas enormes a rebocar 180 vagões.

Reiniciamos viagem. Imediatamente atrás surge um outro comboio. Mais pequeno. Seguimos em direcção a Tmeimichat. Pequena aldeia perdida no meio do nada.

Duas viaturas vão mais à frente. Três mais atrás, uns 400 metros. Um militar surge no meio da pista e intercepta este últimos. Manda-os parar. Indica um edifício com uma bandeira da Mauritânia hasteada. Somos recebidos por um mauritano nas suas vestes compridas e brancas, que fuma tranquilamente. Pede-nos os passaportes que entrega a um outro militar.

Com alguma agressividade, e sem que nada o fizesse prever, pergunta-nos porque atrasamos o comboio.
– Nós? O quê? Atrasar o comboio?
– Sim, sim. O comboio parou porque vocês estavam no meio da linha! E sabem quanto custa parar 20 minutos o comboio?
– Não, não. Nós estávamos ao lado da linha para fotografar o comboio. Nós somos turistas e sabemos da importância do comboio. Logo paramos ao lado.
– Chamem os outros que estão à frente, ordena. Usem o rádio que trazem.

Mau, mau. Isto está a correr mal. Até já reparou que trazemos rádio. Isto vai ser bonito. Parar o maior comboio do mundo. Vinte minutos? Quanto custará vinte minutos. Bem, os carros vão ficar aqui de certeza. E se somos presos? E os mails? Os mails? E o telefone por satélite?

O homem aponta-nos um rádio VHF e diz-nos secamente:
– Foi-nos comunicado que vocês estavam no meio da linha e o comboio teve que parar. É que o comboio é muito importante e faze-lo parar, pode ser considerado sabotagem.
– Sabotagem? Não.

Lembramo-nos então que o maquinista tinha saído do comboio e tinha ido espreitar alguma coisa. E esse foi o nosso argumento.

– Nós não fizemos parar o comboio. O comboio teve foi alguma avaria e teve que parar. O maquinista esteve a fazer manutenção, afirmamos.

Em árabe, fala com o ajudante, este desaparece. Ficamos ali a olhar uns para os outros…

Este argumento da avaria parece ter desanuviado o ambiente. Trocamos cigarros por tabaco e começamos a falar da Mauritânia. Fumamos pela espécie de boquilha que nos ofereceu, e de facto o ambiente melhorou. Falou-nos das preocupações do governo mauritano em relação aos turistas, que não queria que tivessem nenhum acidente, que o comboio não pára facilmente, que a nossa sorte tinha sido um comboio pequeno, pois se fosse um dos grandes com 250 vagões, então seria complicado, blá, blá.

Já dávamos palmadas amigáveis no homem e o homem em nós. Isto decididamente estava a correr para o nosso lado. Regressa o ajudante, trocam mais umas palavras em árabe, devolve-nos os passaportes, manda-nos embora e avisa-nos para nos mantermos longe da via. Sim, sim é isso mesmo que vamos fazer, respondemos.

Desta escapamos! Ufa. Avançamos e depressa. Nunca soubemos quanto custa parar 20 minutos o maior comboio do mundo.

Hora do almoço. Atravessamos a linha de comboio e dirigimo-nos para norte. No meio do pó e areia que anda no ar vislumbra-se um enorme monólito “Ben Amera”. É o segundo maior do mundo. Esquecemo-nos por momentos da regra de ouro de nunca atravessar a via férrea para norte.

Almoçamos debaixo de uma acácia mesmo junto ao monólito. As viaturas ficam longe da acácia. Os seus espinhos são capazes de furar um pneu. Está um calor impressionante. A dança dos enlatados, com e sem conservantes, continua.

Avistam-se lagartos. Coloridos uns, outros nem tanto. Deslocam-se com uma rapidez incrível. E os saltos? Enormes. Lançamos pão na tentativa de os fazer aproximar, mas estes não se deixam tentar.

Retomamos a pista. Novamente a sul da via férrea.

O caminho de ferro reclama as suas vitimas: os pneus. Dois furos. São as farpas que se desprendem dos carris e que se cravam nos pneus. A coincidência de duas viaturas furarem exactamente no mesmo local. Começa a saga de levantar uma viatura. Há quem precise de um treino cá para saber como levantar um carro lá.

Chegada a Choum. Por onde? Por aqui? Por ali? A pista do ano passado, o guia que só ele sabia o caminho…

Uma viatura aproxima-se com dois mauritanos. Saúdam-nos. Um sai e mostra-nos o indicador direito. Está inchado pois tinha-se picado num espinho de uma acácia. Pede-nos ajuda. Desinfectámos com “betadine” e dois pensos rápidos para colocar depois de bem limpo. Não somos especialistas. Partem agradecidos.

Há uma curiosidade em Choum; para avançar para norte em direcção a Zouérat, seguindo a linha do comboio, temos que entrar em território do Sahara Ocidental. Entramos assim clandestinamente, e fizemos alguns quilómetros, em território sob administração marroquina.

Cruzamos e voltamos a cruzar a via férrea. Seguimos uma pista. É maçadora pois é de “chapa ondulada”. Os carros parecem desintegrar-se se não avançamos com alguma velocidade. A 60, 70 Kms hora os efeitos são bem menores, pois o carro plana. A aderência é que não é nenhuma!

É hora do banho e do jantar. O convívio e a boa disposição são uma constante. Relâmpagos ao longe. Começa a chover.


8º. Dia – 06/09/03
Alvorada às 7h30, 6h30 locais.
A pista até Zouérat é diversificada. Saltos, sempre imprevisíveis e naturalmente perigosos, e zonas de areia macia, na qual a progressão se torna mais difícil. Ao longe, uma grande nuvem de pó. É novamente o comboio. O melhor é afastarmo-nos dele…por causa dos atrasos…

Uma zona com muitas acácias. Agora o deserto transforma-se numa espécie de savana. Aldeias esquecidas. Os brinquedos distribuídos. O enorme sorriso das crianças. Os miúdos ficam reconhecidos. Afinal são aldeias perdidas algures na Mauritânia e não a vulgar pedinchice.

Eis senão quando a viatura que segue à frente da coluna avisa via Cb: desviem-se da depressão no terreno; é que o pobre do homem está…, de cócoras… Como é possível, alguém, no meio do deserto, ser apanhado de cócoras? Este foi.

Os montes negros. É o minério. O ferro, o ouro.

Fdédik. Uma companheira de vaigem revive experiências infantis. Miúdos brincam, descontraídos, com pneus, carros feitos de arame e rodas de enlatados. São lembranças fortes, de uma vivência distante, longínqua, mas tão real.

As mercearias, o colorido das vestes, os sorrisos sempre abertos, francos e alegres. Isto afinal é África e as marcas são eternas.

O insólito: a placa que na EN 1 nos obriga a conduzir pela esquerda. Não deixa de ser estranho. Depois de 700 kms de pista, agora de volta ao alcatrão, este extra. A explicação é simples: como são ingleses que exploram as minas, e como os camiões têm volante à direita, então o transito faz-se pela esquerda.

A aproximação a Zouérat. O controlo militar. Estes não querem fotocópias. A interminável espera enquanto copiam os dados contidos nos passaportes. Um guia que se aproxima e oferece os seus préstimos. Todos querem saber para onde vamos. Umas vezes vamos para Norte, outras, para Sul. Nunca revelamos o verdadeiro destino. Pede-nos boleia para a cidade.

A entrada da cidade. Agora o transito faz-se novamente pela direita. Casas com aspecto de não estarem terminadas e ruas em terra vermelha. Muito pó. Mais um controlo. Agora somos obrigados a deixar os passaportes e a recolhe-los posteriormente no “Comissariat”. Bonito, agora somos reféns da cidade.

Almoço. Couscous e o baptismo do momento: “Mcbossa”. Na verdade é um hambúrguer de camelo, prontamente baptizado de Mcbossa. Ainda não tínhamos “Ouguiyas”. Pagamos em Euros. Um Euro vale 307 “Ouguiyas”. Isto no mercado paralelo.

Um homem abeira-se da nossa mesa. É da alfândega. Quer saber se precisamos dele. Não, obrigado. Está tudo tratado. Entramos pelo sul de Marrocos. Avisa-nos que se pretendermos sair da Mauritânia por Bir Mogrein temos que tratar das formalidades com ele. O guia a que déramos boleia do posto de controlo até à cidade já espalhara a noticia de que havia turistas na cidade que queriam sair por Bir Mogrein. Ainda lá deve estar no seu 190D cinzento à nossa espera…

Vamos ao “Comissariat” buscar os passaportes. Ainda não estavam lá, mas sim no posto de controlo. Mais tempo de espera. Aqui o ritmo é lento. Calmo, tranquilo, relaxado. Mais um formulário para preencher. Apesar do tempo de espera, os policias são simpáticos.


Tempo para reparar os furos. Casas de pneus são “Michelin”. Não é difícil perceber porquê. A herança colonial, e ainda os míticos Michelin 7.50×16 XS que equipam quase todas as viaturas. Alguns, num tal estado, que até causa arrepios.

Um pneu tem um furo. Outro pneu, quatro. Neste, opta-se por meter uma câmara de ar, por uma questão de segurança. O serviço custa 2.500UM. Tinham sido pedidos 5.000 UM, mas entretanto já se acordara 1000. Acaba por aceitar o que quisermos dar. Os tais 2.500UM. Isto é África.

Querem comprar o Pajero. É bom para o deserto dizem…É tempo de procurar alojamento. Verificar condições, preços, etc. “Hotel Tibis”. Aceitável na qualidade e no preço. O grande negociador que há entre nós, faz-nos poupar dinheiro. Janta-se no Hotel, frango e peixe frito.

Hoje, a tertúlia é aqui, em Zouérat. Discute-se percursos, alternativas, autonomias, possibilidades, dificuldades. Discute-se o dia e perspectiva-se o seguinte. Bebe-se whisky e fuma-se um charuto. O ambiente é agradável, tranquilo. Aposta-se na travessia do grande “Maqteir”.

Os Gps são carregados com a informação para as etapas seguintes. São 3h00, 2h00 na Mauritânia

9º. Dia – 07/09/03
Alvorada às 9h00, 8h00 locais. O pequeno almoço é tomado no hotel.

Agora precisamos de “Ouguiyas”. Numa dependência bancária é efectuado o cambio. Um Euro vale 300 Ouguiyas. Mostramos o passaporte e entregam-nos um comprovativo da respectiva operação de cambio. Este, servirá para provar na fronteira, à saída, que realizamos legalmente a operação de cambio.

Num posto de telefone uns mauritanos tentam aldrabar dois bravos aventureiros com o cambio. Não passam declaração nenhuma da operação de cambio. Dizem que nunca tinham ouvido falar em tal, fazem uns telefonemas, blá, blá, blá. Sem declaração, não há negócio, são peremptórios. Não é feita a operação de cambio.

Operação abastecimento. Combustível e água. O litro do gasóleo custa 105.2 UM/litro. A água, garrafas de 1.5 litros, custam 140 UM a unidade. A água é boa. Ficamos então a saber que há cinco anos não chovia na cidade e que chovera torrencialmente dois dias antes.

Surpresa, temos um artista de cinema indiano entre nós…O público feminino endoidece. O preço da fama, é ser chamado constantemente para uma fotografia. De seu nome, Ami Tabacha ou algo parecido!

Fazem-se mais telefonemas. É que aqui o “roaming” funciona. Coisa rara na Mauritânia e ainda mais rara nos telefones operados pela TMN. Os Vodafone funcionam. Os TMN não.

Avançamos rumo a Tourine. Ainda andamos a despistar o guia, no seu Mercedes 190, que insiste em nos seguir para todo o lado.

Está muito quente. É hora de almoçar. Paramos no meio do nada, sob um calor abrasador. Estende-se uma rede para obtermos alguma sombra. Que há viaturas bem equipadas, há…sim essa mesma, a do frigorifico. Parte-se um apoio da rede. Também não é grave.

A pista que não existe é demolidora. É o reino da pedra. Avança-se a 6,7 Km/h. Evitam-se as pedras maiores e as mais afiadas. Estamos no inicio de mais uma etapa., e é complicado furar. As pedras nunca mais acabam.

Finalmente a areia. A tão desejada e temida areia. Dunas longas. Primeiro com alguma vegetação que é preciso contornar. Há zonas de areia mais macia. Um atascanço, rapidamente resolvido. A progressão faz-se velozmente. A confiança aumenta. A vegetação começa a rarear. As dunas são maiores e mais compridas. As máquinas ruidosamente avançam.

Areia, apenas e só areia. Dura. Não há pista, pelo que todos seguem mais ou menos ao lado uns dos outros. É um espectáculo. Circula-se pela direita, pela esquerda. É um mar de areia. Os quilómetros sucedem-se.

Uma duna grande. Vamos brincar. Primeiro com algumas cautelas, depois a toda a velocidade. É um momento de descontracção e de boa disposição. Mais um atascanço.

Prepara-se o jantar. Trocam-se experiências duvidas e certezas. É mais um momento de convívio, tranquilo. Sonha-se com viagens e aventuras a países longínquos, caras bonitas e seios roliços. Toma-se café e bebe-se whisky. Fala-se de fotografia e imagem. É impossível captar todos os momentos e todas as sensações. O deserto é mágico.

É hora de recolher. O amanhã já começou. A lua está quase cheia. A luz inunda-nos. Continua muito calor. O silencio do deserto pode ser muito relaxante.

10º. Dia – 08/09/03
Durante a noite, a grande tempestade de areia e vento não provocou estragos.

Inicia-se a etapa. Dunas e mais dunas. Muitos atascanços. É o preço a pagar de quem conduz a coluna na busca da melhor transposição. Todos colaboram no resgate. Bem quase todos. É que há um bravo que insiste em “documentar tecnicamente…”É o chamado trabalho em equipa.

O calor é sufocante. Os termómetros apontam 43ºC. Está um vento quente e abafado. O consumo de água é imenso. As garrafas entretanto rebentadas e o consumo de 9 litros por dia fazem-nos pensar onde realmente estamos e em que condições.

Chegamos a Tourine. As ruínas são uma desilusão. Apenas uns poucos vestígios de construções há muito abandonadas e entretanto devoradas pelas areias.

Almoço à sombra de uma acácia. Mais bailado de enlatados, com conservantes, ou não. O melão fresquinho…Aproveitamos para descansar. É a hora de maior calor. Alguns GE’s adormecem.

Eis o grande Maqteir. Uma extensão impressionante de areia. Compacta. Rola-se muito bem. É o êxtase. 360º de deserto. Fantástico.

Paragem para reajustar a estratégia. Pista mais rápida para Ouadâne ou o Poço de El Ghallâouîya? Atravessar o Maqteir mais depressa, ou em alternativa uma viagem mais abrangente? Trocam-se argumentos e vontades. Decide-se manter o projecto inicial: o poço.

A coluna avança rapidamente. As primeiras dunas do Maqteir surgem. Procura-se o melhor percurso. Grandes subidas e grandes descidas. É tempo de procurar local para o acampamento.

O ambiente é quente e agradável. Vêm-se algumas imagens do dia. É tempo para alguma reflexão sobre a viagem. Até amanhã.

11º. Dia – 09/09/03
Alvorada às 7h45. Hora local, 6h45. Algumas rolas e corvos fazem-nos companhia. Deixamos um pouco de água e pão a estas aves.

Agora a progressão faz-se pelo “chott”. Todo o cuidado é pouco. Qualquer desatenção pode resultar num monumental atascanço, cujo resgate é bem mais complicado do que na areia.

Inicio da pista, ou o que se supõe ser a pista. É o deserto no seu esplendor. O avanço da coluna é rápido. A pista é rolante, a areia compacta e as dunas com pequenas cristas. A vegetação é pequena e resume-se a pequenos tufos de ervas. Tudo muito plano. Está muito quente. Rapidamente os quilómetros são devorados.

Começam as hostilidades. Os atascanços sucedem-se a um ritmo nunca visto. Com tanto calor, desenterrar carros começa a ser esgotante. O consumo de água dispara. O Maqteir mostra-se.

Um mega atascanço de um mega HZJ. No BJ um problema de alimentação. Os bravos companheiros dividem-se na ajuda. Um pré filtro sujo e a consequente falha do circuito. Substitui-se o pré filtro, desaperta daqui, aperta acolá. Pronto, operacional novamente.
Após pranchas, pás e muito esforço, um guincho, finalmente resgata do atascanço o HZJ.

A preciosa ajuda e a excelente camaradagem entre todos, faz com que os problemas não sejam mais do que insignificantes contratempos.
E isto no meio do deserto, sob um calor abrasador, marca a diferença. E que diferença.

O objectivo aproxima-se. A paisagem é linda. É o Sahara. Uma grande zona dunar. Dunas altas e íngremes. Apenas estas nos separam do nosso objectivo. A progressão é difícil, mesmo difícil. Tenta-se pela direita. Impossível. Tenta-se pela esquerda. Complicado. Avançam duas viaturas. As outras seguem-nos.

Não há condições para avançar mais. Decide-se acampar mesmo no cimo de uma duna. Está quente. O calor tem sido objectivamente um dos grandes obstáculos. Fazem-se arrumações. Há muitas garrafas de plástico com água que não aguentaram os saltos. Mais um ponto a rever numa próxima viagem.

12º. Dia – 10/09/03

Toda a noite o vento se fez sentir. Forte. As viaturas estão meio tombadas. O vento escavou a areia junto aos pneus. Apesar de tudo arrefeceu um bocado. A alvorada é às 8h00, 7h00 locais.

Há um cordão dunar para transpor. Ontem não tínhamos sido bem sucedidos. A procura da passagem faz-se a pé. Subir, descer, calcar a areia, perceber a sua consistência, deixar marcas indicativas de possíveis passagens.

Apostamos numa passagem. Algo complicada. Deve ser feita em dois tempos e com um precisão quase milimétrica. É uma espécie de prova de perícia entre dunas. Ainda por cima tem uma descida algo abrupta. Tem de ser feita de uma forma decidida, sem hesitações. Parar, é atascar.

O reagrupamento da coluna faz-se bem no meio de uma elevação dunar no meio de um enorme chott.

Avançamos em direcção ao forte e ao Poço de El Ghallâouîya, atravessando o chott pedregoso. As indicações que temos é de que o forte está abandonado e a água do poço é boa.

O forte já se avista ao longe. Mas, mal sabíamos nós que também éramos observados. Duas viaturas seguem mais á frente, três mais atrás.

Eis senão quando, saem do forte cinco ou seis viaturas Toyota HZJ, equipadas com metralhadoras pesadas, que se dispõem em formação de combate face a estes atónitos viajantes.

Os membros do grupo da frente param imediatamente e comunicam aos outros para se manterem a uma distancia segura.

Saem militares dos carros, armados com metralhadoras ligeiras, que correm na nossa direcção. Estão todos fardados e parecem tropas regulares. Assim esperamos, senão, vamos abrir os telejornais. Há pó e alguma ansiedade no ar.

Cumprimentam-nos em francês, perguntam-nos quem somos e o que andamos a fazer. Pedem-nos os passaportes. O destacamento é comandado por um Capitão. A seu lado um Tenente. O Capitão manda chamar os outros. Explicamos que somos turistas e estamos a fazer uma expedição pela Mauritânia. Perguntam-nos de onde vimos. Respondemos que vínhamos de Zouérat e que tínhamos atravessado o Maqteir. Entretanto um militar através de gestos comunica com os outros militares, e as viaturas recolhem ao forte.

Verificam os passaportes, entregamo-lhes cópias dos mesmos. Verificam os vistos de entrada. O ambiente não é de forma alguma agressivo. Conversamos tranquilamente. O Capitão, percebe-se, não é analfabeto nenhum. Diz-nos calmamente:
– Esta é uma zona militar, não podem filmar ou fotografar. Estamos aqui numa missão de protecção. Há 2 ou 3 anos existiam bandidos nesta zona. Agora não. A Mauritânia é um país seguro e tranquilo. Precisam de água? Pergunta. Podem usar o poço, a água é boa, podem beber.

Agora, já conversamos sobre armas com um terceiro militar presente. Perguntamos que arma é que usa, apesar da sua aparência e o carregador curvo deixarem poucas duvidas.
– É uma “Kalash”, responde. Para ele, aquela arma é tão familiar que até a trata pelo diminutivo. Mostra-se orgulhoso. E continua:
– É uma boa arma. Adaptada ao deserto. Mesmo sujeita ao pó continua a funcionar. Ainda bem que não foi verificado o seu funcionamento… em nós.

Estamos então perante a mais famosa arma de assalto do mundo. A Kalashnikov ou AK-47. Infelizmente de tão má memória em África (e não só), através dos abusos que dela se fazem.

O militar prossegue na demonstração do seu arsenal. Saca da pistola, verifica a câmara e diz:
– Esta, é uma 7.65 mm Parabelum.

Ok, já chega de armas.
Perguntamos pela pista que queríamos fazer. Duas opções se apresentam: a “pista do Plateau”, ou então a pista a sul. Mais rápida e com melhor piso, diz.

Optamos pela “pista do Plateau”. Continuamos fieis ao projecto inicial.

O Toyota militar arranca, e nós atrás dele. Vamos até ao poço, onde estão dois nómadas. Içamos água e despejamo-la por nós abaixo. Não é fria, mas mesmo assim refresca-nos um pouco. Realizamos esta operação várias vezes. O calor é efectivamente muito. Os nómadas acham engraçado. Bebemos a água. É boa, sem nenhum sabor em particular. Despedimo-nos dos nómadas, oferecemo-lhes bidões que já não precisávamos e arrancamos.

Encontrar a pista certa. Seguir rastos. A pista segue agora junto ao grande cordão de dunas que algumas preocupações nos causou. Agora o é piso rolante. Mais acácias.

Mais pista. Dura, o terreno irregular. Mais pedra intercalada com bancos de areia. As pedras são negras. A paisagem é espectacular. Um aventureiro sugere que este pode ser um bom local para uma pousada com bebidas frescas. Marca o local no GPS. Há alguma indefinição na pista, cujos contornos já não são muito bem definidos.

O ponto é já ali. Agora é só descer. Por onde? Já há um bravo lá em baixo que por rádio comunica:
– É uma descida espectacular. Faz-se bem.

É de facto EXTRAORDINÁRIA. Com declives fortes. Com dunas para contornar, com areia macia onde os carros docemente deslizam. É um bailado. São sensações únicas.

Uma vez no vale, surge a questão: e se fosse necessário subir? Seria possível?
O primeiro avança determinado. É possível subir. Os que experimentam são igualmente coroados de êxito. É pura adrenalina.

Aproximamo-nos do poço El Beyyed. Junto a este uma placa: “Museu pré histórico”.
São dois poços com água, mas muito fundos. A nossa intenção era tomar banho, mas um grupo de mulheres aparece. Cumprimentam-nos e sem que nada o fizesse prever, alisam a terra, estendem um pano e colocam artesanato para venda.

É um mini centro comercial. Peças em sílex, barro, e utensílios vários. Colares, pulseiras e um jogo tipo mikado. Com os preços, começa o velho jogo. Tão antigo como o homem. Regateia-se. Compram-se pedaços da vida da Mauritânia.

Retomamos a pista. Agora de montanha. Estreita, sempre a subir, com muita pedra solta.
Curvas apertadas. Agora uma subida que não é muito frequente nestas paragens. É que é puro trial. Muita pedra grande e degraus enormes que é preciso vencer. Alguns veículos vão arredondando as partes baixas.

A tarde cai. O Sol desaparece atrás da montanha. Lindo. É tempo de montar as tendas.
Toma-se banho, prepara-se a dança dos enlatados, com e sem conservantes e, pasme-se, ainda se bebe maduro tinto. Grande suspensão aquela do UMM.

O cansaço domina. Boas noites para uns, enquanto outros preparam a etapa de amanhã. São 23h00, 22h00 locais.

13º. Dia – 11/09/03
Mais uma tempestade de vento durante a noite. A mais dura até hoje. Mais um pneu furado. Perdeu ar durante a noite. Substitui-se. Pequeno almoço tomado e reabastecimentos feitos.

Mais uma enorme subida no mais puro estilo trialeiro. A pista em direcção ao Guelb er Rîchât é demolidora. Muita pedra e solta. A pista não é muito definida. Saltos e mais saltos.

Estamos já na zona de impacto do meteorito. São 50 quilómetros de cratera. Não se percebe nada como tal. A escala é demasiado gigantesca.

Esperamos um albergue, bem no meio do Guelb. Seria agradável ter um espaço fresco, sem pó e bebidas. Sim bebidas frescas. Há um grande déficit de algo fresco. Tudo está quente. Muito quente. Alguns privilegiados têm frigorifico, mas a capacidade é rapidamente esgotada com a fruta. Melões. Desde Agadir que os melões nos acompanham.

Encontramos o albergue. São quatro barracas feitas de palha. Está tudo abandonado, o pó e o vento dominam. Lá se foi o espaço fresco e as bebidas…

Temos visitas. Um nómada, timidamente aproxima-se. Convidamo-lo a entrar numa barraca que não é nossa, mas que ocupamos. As cabanas a quem as ocupam…temporariamente.

Perguntamos se quer comer. Acena que sim. Uma conserva de salada de atum (sem conservantes), pão e água. O melão continua intacto. Mais uma vez sobreviveu, o resistente.

Descemos agora para um chott. A pista continua com muita pedra. O chott ainda tem água. Poças de água que temos de atravessar. Lama. Obriga-nos a avançar com todo o cuidado. Mais um atascanço, desta vez na lama.

Mais pedra. Mais areia. Agora um oued. São 2h00 da tarde (locais) e o termómetro marca 49ºC. É o máximo por nós registado. E de facto os 49º.C fazem-se sentir!

Os motores acusam os 49º.C e a progressão em areia macia. Progredimos por pequenas etapas. Mais atascanços. Decidimos avançar pelas pequenas dunas com acácias e vegetação rasteira. O perigo são os espinhos.

Um aventureiro decide avançar pelo oued para evitar os furos. Dá-se mal com a opção e após um atascanço decide voltar ao alegre convívio com os demais. Entre furos e atascanços a 49ºC…, venha o diabo e escolha.

Uma distracção e quem conduz a coluna enfia-se literalmente pelo oued dentro. Faz 15 metros até parar “enterrado até às orelhas”. Sai de reboque. Já todos nos rimos ao perceber que estamos metidos numa grande armadilha chamada oued. Vamos contornando a armadilha até que finalmente o vencemos.

Mais pista e a entrada em Ouadâne. Agora sim. Palmeiras, casas em pedra, hortas.
Paramos e somos imediatamente invadidos por miúdos e adultos. É o preço do turismo.

Vamos à procura do albergue. É aqui que vamos passar a noite. Como estamos cheios de calor pedimos bebidas frescas. Ok, quantas são? É que o frigorifico avariou e temos que ir à cidade busca-las…

Tomamos um belo de um banho nos duches existentes fora do albergue.
Surge um grupo de ingleses, holandeses e alemães, que se conheceram através da “net” e se propõem fazer uma viagem de nove meses. Tem 3 viaturas, para todos os gostos: um 110, um G longo e um HZJ. Que estavam super equipados, estavam, que tinham peso a mais, tinham. Teria sido engraçado vê-los progredir em algumas zonas de areia pelas quais já tínhamos passado.

Agora o jantar. São duas as opções: couscous, ou um prato tipo da região chamado “galette”. A opção recai sobre a galette. É uma espécie de crepe, com carne de camelo e jardineira. Bem, o crepe estava queimado, a carne nem vê-la e a jardineira ver para crer. Valeu-me uma lata da sempre leal feijoada à transmontana.

14º. Dia – 12/09/03
Alvorada às 6h45 locais. Pequeno almoço às 7h00 como tinha ficado combinado. O pão é bom, a compota, nem por isso.

Alguns viajantes vão à cidade encher os pneus e remendar os furos, enquanto outros ficam no albergue à conversa com os outros exploradores, os tais dos nove meses por África.

Na cidade, somos novamente invadidos por crianças e adultos. Uma miúda de 13 anos com um filho ao colo, pretende oferece-lo. Quer um futuro melhor para a criança, diz.

Agora avançamos em direcção a Atar pela “pista do Plateau”. É uma pista rápida, larga, bem definida, que proporciona médias elevadas. Aqui e ali está em mau estado, devido às chuvas. Os que seguem à frente comunicam sempre, via rádio, os obstáculos.

Mais dois furos.
Almoço sob uma acácia. Finalmente a vida do melão terminou. Ali mesmo, sem glória.
Contam-se histórias de África com 30 anos. Relembram-se vivências muito intensas. Até o Trinitá – nome de guerra, faz a sua aparição. O tempo corre lentamente. É tempo de partir com a promessa de às histórias voltar.

O controlo. O militar que calmamente copia os dados contidos nos passaportes, deitado.
A estrada agora de alcatrão. A descer, com curvas e semi destruída pelas chuvas. É uma alternativa à pista d’ Amogjâr ou pista dos camiões.

Atar, cidade com movimento. Toyotas, Mercedes. 42º.C apontam os termómetros. Na primeira estação de serviço atestamos os depósitos; 117 UM o litro. Coca-cola, Fanta e água fresca. Aproveitamos para uma pequena pausa. Continua abafado.

Na primeira “Michelin” reparam-se os furos.

A estrada é agora de alcatrão e está em bom estado. Tinha chovido há dois dias e ainda há vestígios. Grandes poças de água. Há partes da estrada que estão cortados. Um UMM mauritano é visto.

Um Mercedes atascado na lama, numa estrada paralela. Paramos, damos um puxão e já está. Agradecem-nos profundamente.

Akjoujt. É mais uma cidade no mesmo estilo das outras. Pobre e suja. Procuramos um Hotel que consta de um roteiro. Somos abordados no meio da estrada pelo dono do Hotel. Depois da habitual discussão acerca do preço decidimos ficar. É rico e ama os turistas, diz. Uma espelunca.

Jantamos massa com frango. Um quarto, agora transformado em camarata, serve ainda para uma sessão fotográfica. Uma carocha aparece. Todas as probabilidades estão contra ela. O fim é rápido.

15º. Dia – 13/09/03
Alvorada às 6h45. Pequeno almoço oferecido pelo dono do Hotel em sinal da sua boa vontade…

Abastecemos de combustível, pão, água e cigarros. Os que levávamos estavam no fim. A pista é ora rolante, ora “chapa ondulada”. Aparece a areia. Rolamos junto a uma conduta de água que vem de Bennichchâb e que abastece Akjoujt. Enchemos mais uns bidões junto a uma bomba da conduta.

Um ponto de abastecimento de água. Vedado com arame, grandes depósitos e um camião que abastece. Um cordão de dunas que é preciso atravessar. A direcção seguida aponta agora para a fonte de água de Bennichchâb. A democracia funciona mal em África, vá-se lá saber porquê.

Agora a fonte. Visitas, linha de engarrafamento e a histeria do mulherio perante o tal artista de cinema…nem o capataz as conseguiu segurar. O grande Ami Tabacha delicia-se.
Ainda nos oferecem umas garrafas.

Duvidas na pista. Todos avançam em direcção ao ponto. Parece uma corrida ao ouro. Areia macia alterna com partes duras. Os saltos são uma constante e um perigo. Mais credo na boca.

A pista torna-se agora mais sinuosa. Contorna-se a grande velocidade os cordões de dunas. O objectivo agora é perfeitamente claro. Chegar e depressa à pista da praia e ao mar.

Duas viaturas aceleram em ritmo de classificativa do Dakar…, pronto, pronto um bocadinho mais lentos. Mais saltos, mais derrapagens, mais curvas de trajectória imprecisa, mais bagagem a gemer, mais adrenalina. É o mar que nos espera.

Avistam-se umas cabanas e de repente… verde. É o mar. O tão desejado mar. A praia estende-se sob os pneus. Assim vestidos, um mergulho. Até a água do mar é quente.

Depois de tanto calor, pó e duras pistas, este banho é único. Único mesmo. Sabe quem já o experimentou.

O objectivo agora é aproveitar a baixa-mar e avançar para norte. Seguimos a pista da praia. Apesar de tudo são poucas as zonas onde não há escapatória ao mar. A curiosidade de sinais de transito no meio da praia que indicam curvas. O transito nos dois sentidos. A velocidade atingida. A delicia de conduzir livremente na praia. Sem regras nem restrições.

Aldeias de pescadores. Os barcos, de madeira e coloridos, são puxados para terra firme. Trocamos acenos com os locais.

Algumas zonas da praia têm pedra. O avanço é cauteloso para evitar as rochas e o mar.

É chegada a hora do acampamento. Saímos da praia para não sermos importunados. Mas ainda queremos mais um banho. O banho ao entardecer, numa praia deserta e imensa de água verde e doces vagas. Voltamos à praia.

E para jantar? Peixe? Vamos a uma aldeia de pescadores. A intenção é que nos preparem um jantar de peixe, contrariando os sucessivos dias de enlatados.

Somos recebidos entusiasticamente, como se de uma equipa de futebol se tratasse. Peixe? Claro. Combina-se o preço. Uma série de peixes são mostrados: pargos, garoupas, chicharros. Vão ser grelhados. Um grande grupo de locais reúne-se para ver os expedicionários que os procuram.

As viaturas são levadas bem para o interior da aldeia, contornando tendas e barcos. Pedem-nos água doce e as inevitáveis prendas.

É estendido um grande tapete. A refeição vai ser mesmo ali. Uns tratam do fogo, outros da grelha (uma tampa de um bidão de 200 litros). Os peixes, cheios de areia e moscas são colocados na grelha. Preparam igualmente umas cebolas com um molho picante. Entretanto os miúdos comem umas enormes patas de caranguejo. Os nossos olhares de cobiça não deixam grandes dúvidas. Perguntam-nos se queremos. Sim. Claro que sim. Afinal os dias passados a enlatados tinham deixado marcas.

Numa lata de plástico trazem as ditas patas, para satisfação geral. Que boas que eram…

Os pescadores são senegaleses. Fazem uma temporada de 3 meses, que termina em Novembro e depois regressam às suas casas. Pescam “encostados” ao Parque Nacional do Banc D’Arguin onde as águas são particularmente ricas. O líder religioso da comunidade entretanto apela á oração.

É hora de jantar. O “chef” retira a pele dos peixes e coloca-os meticulosamente num grande prato de alumínio que cuidadosamente limpara. Todos desaparecem, como que por magia. Só fica o “chef” que se certifica que tudo está bem.

O peixe, comido à mão, é delicioso. As cebolas e o molhos, magníficos. O “chef” vai retirando cuidadosamente as espinhas que entretanto vão ficando no grande prato de alumínio. É indescritível a sensação.

Mal a refeição termina, igualmente como que por magia, os adultos e as crianças (que também ajudam na pesca) aparecem. Estavam à espera que terminássemos, para voltar ao nosso convívio. Encantam-se com as nossas lanternas (frontais). Falamos de África, pesca e vida. Falam três línguas: árabe, francês e wolof. Um fala também inglês.

Dizem que é preciso conhecer África e os seus problemas. Mas estes problemas devem ser resolvidos em África e não num outro sitio qualquer. Mas a Europa exerce um fascínio muito forte. Fazem-nos muitas perguntas. Mas aqui permanecem livres e dignos, lembra um expedicionário.

O “chef” decide presentear-nos com um chã senegalês. É um “tea a la mente”. Muito bom. Ainda nos oferece dois peixes secos.

Pagamos 8.000UM. Muito mais do que inicialmente tinha sido acordado. Mas a lembrança deste jantar e a companhia destes simples pescadores vão permanecer connosco muito tempo.

É hora de nos retirarmos. Retomamos a pista da praia. Agora de noite. Delicioso.

16º. Dia – 14/09/03
Alvorada às 7h00.
Mais um furo. Mais um pneu que durante a noite perdeu ar.
Avançamos em direcção a Nouâmghâr. É a entrada do Parque Nacional do Banc D’Arguin. É preciso pagar: 1.200Um por pessoa. A curiosidade é que foi um português a tabelar esta entrada. De seu nome António Araújo, hoje a trabalhar em Nouâdhibou, como consultor do Parque. Quando dizemos que somos portugueses, todos referem o “português do parque”. Referem-se sempre a este português com grande admiração e respeito.

Avistam-se flamingos e outros tipos de pássaros. A pista é rolante. Há bancos de areia e poças de água salgada que sob a acção do Sol se transformam em sal.

Agora a pista transforma-se. Areia muito macia. Dunas que é preciso vencer. Avança-se o mais depressa possível. No meio desta pista um natural tenta consertar um pick up Peugeot 504. Há veículos de apenas duas rodas motrizes que fazem esta pista, nomeadamente os contrabandistas dos famosos Mercedes europeus. Incrível.

A aproximamo-nos de Iouîk. É preciso contornar uma grande baía. Mandam-nos parar. Mais um controlo. Querem ver os passaportes. Verificam um e quando falamos em almoço, esquecem os passaportes e vão à procura do cozinheiro. Estamos com azar. O cozinheiro está com dor de dentes e não há peixe.
Avançamos até junto ao mar e a umas cabanas de pescadores. Não há peixe e os barcos ainda demoram cerca de duas ou três horas. Ainda cobiçamos um cabrito que por lá se passeava mas pediram-nos 13.000UM. Desistimos da ideia, também não nos apetecia muito sacrificar o pobre do desgraçado. Foi mais curiosidade do que outra coisa.

O local escolhido para almoçar é mesmo junto ao mar. Tempo para um bom banho. Encontramos uns enormes bivalves. Agora a tarefa é apanhar bivalves. Não sabemos o nome, por isso foram baptizados de “ameijoa-berbigão mauritano”. Cozinhamo-los logo ali. São óptimos.

Chegamos à praia em Arkeiss. Um membro já lá se encontrava. É que tinha almoçado mais rápido e feito a viagem sozinho. Junto à água, sentado na sua cómoda cadeira, de guarda-sol, tranquilamente lia o seu livro. Que quadro! Só faltava a tipa da Martini…!

Damos uma pequena volta, a pé. Somos recebidos pelo guarda do parque. A inevitável pergunta: há peixe? Preparam refeições? Responde que sim. Podemos inclusive colaborar na pesca. Ficamos entusiasmados. 19h00 é a hora combinada. Refere igualmente que para dormirmos temos que pagar. É que junto à praia existe um “parque de campismo”. Imaginávamos o “parque” abandonado, pois na realidade não tem WC, nem lavabos. Apenas umas quatro ou cinco tendas. Grandes, que em árabe se chamam “Khaimas”, mas que se lêem “raimas”
Estas tendas são para alugar, e por isso é igual, em termos de preço, dormir nestas tendas, ou então montarmos as nossas. Optamos por dormir numa enorme “khaima” que acolhe os oito membros cansados.

Às 17h30 vamos ter com o guarda/pescador. É que acumula estas duas funções. Agora o objectivo é recolher uma rede de pesca que entretanto tinha sido colocada na preia-mar. Alguém se esquece dos calções de banho e tem que se equipar devidamente. Corre como o vento. Se fosse índio, chamar-se-ia grande chefe “Pés-de-Vento”. Invejável forma física, tal como convém.

Azar. Apenas e só uma captura. Uma pequena tainha. Como é manifestamente pouco para oito pessoas, o Pescador opta pela alternativa de recurso. Vai a casa. Pega numa cana de pesca e calmamente diz-nos: são 30 minutos até termos peixe suficiente para o jantar. Vamos até ás pedras…

Seguimo-lo. Sempre queríamos ver a “técnica dos 30 minutos”. Leva um miúdo com ele. No primeiro local, não é bem sucedido. Tenta mais à frente. O miúdo tenta também a sua sorte. Amarra uma pedra a uma linha, coloca um anzol, isco e lança à água e, já está, um sargo. Mas um sargo para oito….

De repente a cana verga-se. Um grande peixe. Já há alguma esperança. Já há sorrisos. A tarde aproxima-se do fim. Junta-se um terceiro pescador. Tenta também a sua sorte lançando à mão. Pesca ao “corrico”, mas nada. O vento sopra violentamente.

Novamente a cana verga-se e o Guarda/Pescador puxa com determinação. É mais um grande peixe de longos bigodes. A noite cai e nós retiramo-nos do pesqueiro.

As “squaw”, perdão, grandes aventureiras não estiveram paradas. Prepararam-nos uma entrada. Burriés, entretanto apanhados.

O pescador entretanto regressa. A pesca está feita. Recomenda-nos passar pela aldeia 40 minutos mais tarde buscar o jantar. O festim dos burriés continua. O assunto agora é gastronomia. De Norte a Sul, de cozido à portuguesa, passando pelo leitão até à caldeirada de peixe. Nada mau, para quem ainda não jantou.

Uma viatura sai para ir buscar o jantar. Regressa pouco depois. É que o Guarda/Pescador sugere que o jantar seja na casa dele.

Agora em coluna, no meio da noite vamos em direcção ao jantar. É uma “casa” pobre, mas limpa, com colchões e almofadas para nos sentarmos. Está lá uma mulher que cerimoniosamente prepara o chá. As voltas que o chã dá…!

Entretanto começam a preparar a refeição. No chão claro. Um conjunto de raparigas jovens colaboram. Os miúdos e uma senhora mais idosa não entram no aposento. Oferecem-nos conchas enormes. O jantar consiste no peixe pescado pouco tempo antes que localmente se chama “bar moustachi”, massa e um molho, que é mais tipo “jardineira”, do que propriamente molho. O conjunto é delicioso.

Desejam-nos bom apetite e preparam-se todos para sair. Insistimos para que o agora Guarda/Anfitrião fique. Afinal a casa é dele. Assim sempre podemos ficar a saber mais sobre a Mauritânia e as suas gentes. Diz-nos então que a época alta do turismo é de Outubro a Março, há menos vento e as temperaturas são mais amenas. Conta-nos pormenores sobre o Parque Nacional.

No fim da refeição, as mulheres regressam. Arrumam a “mesa”. Trazem um gravador e começam a dançar. Convidam primeiro as grandes expedicionárias. Depois, bem depois é a vez do grande “Ami Tabacha” disfarçado de viajante. Isto de ser artista tem outro encanto…

Mostram-nos fotografias que espalham pelo chão. Vamos buscar um computador e apresentamos algumas fotografias da viagem. Ficam entusiasmados e vão tecendo comentários…em árabe.

Pagamos 12.000UM pelo jantar e o alojamento. Agradecemos a noite espectacular e partimos. O vento sopra violentamente.

17º. Dia – 15/09/03

Alvorada às 8h00. O vento continua a soprar violentamente. Depois do pequeno almoço avançamos em direcção a Norte. A pista é rápida, com algumas bolsas de areia macia.

No meio do nada, um HDJ60. Tem o capot levantado e uma multidão passeia-se. Paramos. A regra é, num meio hostil, como é o deserto, da solidariedade depende a sobrevivência. Têm um pneu vazio, e outro pneu furado.

São 18 pessoas entre adultos e crianças e a imensa carga inerente às 18 pessoas. O HDJ parece um veiculo pesado, tamanha a carga. Vão para Nouakchott. Não têm ferramenta nenhuma à excepção de um macaco, uma chave de rodas e um martelo. Nem desmontas, nem compressor, nem nada.

Enchemos rapidamente o pneu vazio. O único pneu sobressalente que trazem também está furado. É preciso desmontar o sobressalente para substituir a câmara de ar. A jante é do tipo das que exige câmara de ar. Temos que ser nós a efectuar a operação, ali mesmo no meio do deserto. Pneus operacionais, agora é só encher de ar. Entusiasmam-se com os compressores. Querem saber o preço. Desanimam logo…

Adiós amigos, dizem à despedida…

A pista é boa mas a areia é macia o que exige muito dos motores. Ainda estamos dentro do Parque Nacional do Banc D’Arguin, que tem uma área aproximada de 12.000 quilómetros quadrados.

Uma grande acácia proporciona-nos algum conforto para o almoço. A acácia é mesmo grande. O reinicio da etapa é feito em ritmo vivo, tão vivo que uma pedra nem tempo teve de se desviar…Resultado, Pum, e vai mais outro pneu.

Agora a fronteira está perto. Viajamos já muito mais agrupados. Cruzamo-nos com uma expedição espanhola de ajuda humanitária. São três 4×4 e três grandes camiões 6×6 do tipo Dakar. Colossos, são o que são. Trocamos saudações sem nos determos.

A linha de fronteira aproxima-se. Já se avista o estaleiro das obras da construção da estrada. Cruzamos a linha no “PK55”. Avançamos por entre o nada ainda por cima minado. A progressão não deixa de ser um pouco enervante. As minas, as minas…

O posto de fronteira mauritano. Os policias são os mesmos. Só sorrisos e simpatia. Mas agora já os conhecemos…A conversa é a mesma. Tentam o mesmo esquema de extorsão. Querem ficar com os poucos “Ouguiyas” que sobraram. Recusamos com firmeza e desta vez não complicam. Mais mostrar passaportes, mais carimbos, mais papeis e já está. Faltam 10 minutos para a fronteira marroquina fechar, avisam-nos com um sorriso…

Temos muito pouco tempo para percorrer a distancia que ainda nos separa de Marrocos. Uns mais depressa, outros mais devagar, lá vamos aos saltos pelo raio da pista, que nunca mais acaba. E as minas…

Agora a fronteira marroquina. O alcatrão. São simpáticos os policias são 18h20 e a fronteira deveria ter fechado às 18h00 locais. Uma classe C, Mercedes, nova, e um Range todo equipado vão em sentido contrário. São italianos. Os policias imediatamente se desinteressam de nós.

Uma gazela. Autentica, genuína, em liberdade. Perto da fronteira. Foge quando paramos para a observar melhor. Não confundir com “gazelle”. Isso é outra história!

Decidimos ficar na ultima Estação de Serviço. A mesma que utilizamos no caminho para Sul. Uns bravos decidem jantar pelo caminho. Avançam primeiro que os demais. Num posto de controlo, lá estão eles. Já jantam. Todos sorrisos. É que, tendo perguntado ao militar se podiam jantar ali, este, oferece-lhes peixe frito e tomate. Especial este povo, sem duvida. Do pouco que têm, não hesitam em partilhar com turistas, e a troco de nada…

A Estação de Serviço. Primeiro uma luz muito ténue. Depois o banho, o jantar e uma cama limpa. Após tanto pó, este hotel é uma referência.

18º. Dia – 16/09/03
Acordamos ao som de Bob Marley. O pequeno almoço. Os 10 Dh por viatura para o guarda do parque.
O mesmo que em part-time negoceia em carros de contrabando. Pergunta-nos se queremos vender as viaturas. Não, não queremos. Para quem estiver interessado, aqui conseguem-se contactos.

Aproveitamos para cambiar dinheiro. Enchemos pneus, limpamos filtros e atestamos depósitos. Há mais um furo. Este é dos lentos. Já vinha a ameaçar há muito tempo.

A estrada para Norte. Longa e monótona. Mais um furo. Que diabo, e agora não temos sobressalente em condições. A solução é desmontar o pneu e substituir a câmara. Já estamos a ficar “profissionais” na arte de reparar furos…demorou só, 45 minutos. E isto porque há ferramentas especiais, made in Austrália, que até aí nunca tinham sido mostradas.

Agora o trópico de Câncer, 23º 27’. Oportunidade para ver, para uns e rever, para outros, o monumento feito de pequenas pedras naquela que foi a primeira expedição à Mauritânia de alguns membros. Ainda lá está. Grande Monumento este. Mais uma pedras e as inevitáveis fotos.

Jantar no Cabo Bojador. Já é noite. Ainda há tempo para um café e uns bolos numa pastelaria. A viagem prossegue, monótona, à excepção dos camiões de peixe que agora circulam. Mais 190 Kms como digestivo…Uma viagem deste tipo é mesmo Grande, até nas etapas…E os controlos policiais? Voltaram…mais fotocópias são distribuídas.

Port Laâyoune. A procura de hotel. O primeiro é caro. O segundo aceitável; 200Dh o quarto duplo. São 0h30. Já vai longa esta etapa.

19º. Dia – 17/09/03
Alvorada às 6h30. Finalmente um pequeno almoço mais à “continental”. Agradável.
Laâyoune. Novamente os 4×4, brancos, com as enormes letras UN a negro. É tempo de procurar uma “Michelin” para consertar pneus. Uns clássicos Serie III em bom estado. Raro por aqui.
Enquanto se espera pelo conserto, dois viajantes vão à procura de jantes. A confusão de uma grande cidade. A procura, as conversas, as sucatas. Aqui há sucata de sucata. Tudo é aproveitado ao limite. Numa, contamos cinquenta Nissan Patrol GR. Tudo UN…

Mais estrada. Mais quilómetros. Mais monotonia.

Almoço em Tarfaya. Na praia, junto a uns grandes navios encalhados. Cheios de ferrugem, que as condições não perdoam. O marisco, da costa, pois claro.

Um membro avança sozinho com determinação. Agadir é o destino. Espera que os outros o alcancem pelo caminho.

Mais estrada, mais controlos, mais monotonia. O aviso: atenção que vêm uns aventureiros atrás. São gente importante, numa missão muito especial…Alguns acreditam. Apesar de tudo dá para descontrair nestes controlos…

Um acidente a 250Kms de Agadir. Um camião tombado na berma. Peixe espalhado pelo chão.

Depois dos banhos de água salgada, é urgente lavar, e bem, os carros. Em Tiznit, um “monstro do deserto”, versão cabrio, toma um bom banho…nas partes baixas. Altura para substituir também o óleo. Agora que já não há pó, é uma excelente oportunidade. Lavar e trocar óleo, 40 Dh.

Agora de novo todos reunidos, tempo para um jantar, típico: o McDonalds em Agadir, sim essa mesma, a cidade dos anjos…

Tempo ainda para um susto. É que o homem não substitui a anilha do bojão do óleo aquando da substituição do mesmo. A perda cifra-se num litro. Rectificado o nível, serve este incidente para lembrar que, anilhas, levam-se daqui…

Hotel “Sud Bahia”. Tempo de descanso. Para uns, para outros nem tanto…

20º. Dia – 18/09/03
Pequeno almoço no hotel. A ida à pastelaria “Tafarnout”. A tal dos bolos, no Boulevard Hassan II.

A estrada. Agora tudo está mais perto. O destino é Marrakech. Mas o percurso contempla a passagem pelo Atlas. Estrada fantástica, estreita, com muitas curvas e a…chuva. O forte cheiro a terra molhada. O aroma das arvores…A atenção na condução. Tempo ainda para comprar maças. Das boas, sem conservantes…

Surgem os helicópteros. Alguém trauteia a “Cavalgada das Valquírias”…

O ponto da situação antes da entrada na cidade. Aparcamos as viaturas num parque vigiado que um membro nos indica. Agora a pé, tempo de redescobrir a cidade. O centro de artesanato, fechado. Já passava da hora…

Agora a grande praça. Os sons. O colorido. A azáfama das gentes. O rufar dos tambores. Os sumos de laranja. As luzes e os odores de mil e uma bancas servindo refeições. É inebriante.

A opção recai numa banca de peixe. De vários tipos. Boa escolha esta. Mais uma banca. Agora de sopa. Por ultimo, o “tea a la mente”.

A Medina e as compras. O velho jogo.

A partida para o parque de campismo. Do outro lado da cidade. Na estrada em direcção a Casablanca. Tempo ainda para assistir a um desfile. Toca-se dança-se. Há alegria no ar. Uma ovelha acompanha o desfile. Será sacrificada…

Em estilo europeu, o parque de campismo. Agradável. O ambiente continua o de sempre, fantástico. O cansaço domina-nos.

21º. Dia – 19/09/03
O pequeno almoço num “castelo” que alguns nunca avistaram. Daqui decorre a separação da coluna. Uns mais à frente, os tais de “média de andamento relativamente baixa”. O objectivo, esse é claro. Tentar atravessar ainda hoje para a Europa.

A estrada, o movimento, as linhas continuas, o policia sempre atento…e a não complicar.
A auto estrada. Finalmente.

O excesso de velocidade. O radar? Pergunta um bravo. Bem, não precisamos de radar, diz, mas as ópticas…Agora são as ópticas. Queria um brinde é o que era. Mas não levou nada e não se mostrou aborrecido. Mais um acidente. Uma carrinha carregada de fruta cruza a faixa de rodagem e enfia-se na floresta contígua. Carros parados, policia e a operação de recuperação da carga.

Chegada a Tanger. O ponto da situação. Uns avançam até Algeciras, dado que o ferry para Tarifa já tinha partido. Os outros, ainda dormem em Tanger, ao som de África.
O ferry, os enjoos, de uns aprendizes que por lá se passeavam. Se tivessem navegado nas dunas…

Algeciras. Alguma coisa a declarar? Sim, pó, muito pó…
Finalmente o jantar. E whisky…

22º. Dia – 20/09/03

Destino: casa…
Os participantes: oito bravos aventureiros.
As máquinas: infernais…
O espírito: sabe quem foi…
O momento: todos…
O sabor: forte, amargo e doce…
A próxima viagem: já…

“Diere dieff, mangui dem”
A. Magalhães


Setembro 2003