Viagem sem Destino

Existem sempre alguns preparativos antes de se realizar uma viagem. Bom esta era diferente!!!
O objectivo não era ir a nenhum lugar em especial, mas sim ir descobrindo à medida que a viagem prosseguia.

Claro que para não se andar às voltas estipulou-se um destino, embora longínquo, esse destino era Veneza.
Previa-se uma visita da costa norte de Espanha, travessia dos Pirinéus, Mónaco, Alpes e por fim Veneza.
Não era obrigatório chegar a Veneza, mas sim desfrutar do caminho até lá…Pormenor da viagem, esta ia ser feita num Land Rover Regula 88 Series III de 1977, em 3 semanas. As primeiras reacções de amigos e familiares foi de completa insanidade mental. Mas estávamos determinados a ir, e já tínhamos tido boas experiências na ida ao Algarve (Ver picadela Do metro ao quilometro…).

Ninguém nos quis acompanhar nesta viagem, mas estávamos determinados, e arrancámos sozinhos. Estávamos a 9 de Agosto de 2003, o veículo estava pronto, mantimentos, tenda, etc… Um amigo nosso emprestou-nos 4 pneus de estrada, outro deu-nos uma solução que permitia montar um iglo em cima de um estrado no tejadilho do carro.

Saímos de Braga e o destino ao contrário do esperado encontrava-se a sul, íamos ao parque de campismo do Furadouro visitar um outro amigo. Nesta visita a mãe desse nosso amigo, conhecedora das terras por onde íamos passar, deu-nos preciosas dicas.

10-08-2003
No dia seguinte finalmente seguimos para norte por estradas secundárias ladeando o rio Tâmega, acabando por pernoitar no parque de campismo de Valsereno perto de Cabeceiras de Bastos. Curiosamente este era um parque que já conhecíamos por ter terminado lá uma das nossas recentes actividades de todo-terreno. Estava calor e esperava-nos uma piscina refrescante. Fomos recebidos pelo dono do parque, que ainda se recordava de nós e arranjou-nos um lugar mesmo em frente à piscina.


Durante esta etapa uma mola da bomba injectora que controla o corte de gasóleo partiu-se, obrigando a abrir o capôt sempre que se queria arrancar o carro.

11-08-2003
Prosseguimos em direcção a norte, desta vez pelas barragens de Venda a Nova e Alto Rabagão, e por fim Montalegre.

Era tempo de preparar o equipamento de navegação (GPS) para progressão em terras desconhecidas. Optámos por estradas secundárias, seguimos até Xinzo de Lima, passamos ao lado de Manzaneda e serpenteamos as profundas gargantas do rio Sil.

Já com o adiantar da hora, come?amos a busca de um parque de campismos para pernoitar. Eis a primeira surpresa, falta de sinalização, dados escassos no guia de campista, cartografia n?o coincidente, nem a população local consegui ajudar muito… mas com alguma persistência lá encontramos o desejado parque de campismo Mosteiro em Cervantes.

12-08-2003
De manhã somos surpreendidos com uma chuva, sim estávamos em Agosto.


Atravessamos as magníficas montanhas das Astúrias com paisagens muito verdejantes, sempre na companhia do rio Névia, por estradas bastante sinuosas. O GPS chegou a acusar 1150m de altitude.


Chega de montanha e curvas, vamos para o litoral. Pois mas o litoral é como o interior, montanhoso e com estradas sinuosas, com um contraste entre o verde dos campos e o azul do mar. Tínhamos chegado ao Parque de campismos de Cadavedo.


13-08-2003
Prosseguimos a viagem pela costa em direcção a Santander, de salientar algumas cidades e vilas dignas de visita: Colunga, Ribadesella, Llanes, San Vicente de la Barquera e Santellana.


Desta vez ficámos no parque de campismo de Altamira, onde após o jantar apareceu um português a mostrar o nosso veículo com a solução cama no tejadilho á sua filha. Dois dedos de conversa e descobrimos que este senhor também era de Braga, foi um serão divertido.


14-08-2003
Visitamos a maior formação de dunas da Cantábria no parque natural de Miengo, passamos por Santander onde deslumbramos um dos ferries que faz a travessia directa para Inglaterra.


O tempo estava outra vez quente pelo que era hora de nos refrescarmos na praia de Noja, sem imaginar o que nos esperava…


Já se fazia tarde e estávamos no País Vasco, como de costume procuramos um parque para passar a noite, só que começamos a depararmo-nos com eles todos cheios, uns atrás dos outros, e não havia parques para o interior, pelo menos a distâncias razoáveis… Já estávamos em Ondarroa, e era hora de jantar.

À porta do parque onde recebemos a notícia que se encontrava cheio. Estava visto que esta ia ser uma noite complicada, nada de stress afinal estamos de férias, jantámos no restaurante do parque e depois havíamos de encontrar solução.
Agora de estômago cheio prosseguimos a busca, desta vez de algum lugar sossegado, parque de estacionamento, onde houve-se alguns auto-caravanistas a pernoitar. Nada, não se via ninguém a pernoitar na rua, o que era mau sinal. Era hora de tomar outra decisão, estávamos a cento e poucos Km da fronteira com França. Decidimos então rumar a França e ficar na estação de repouso para auto-caravanas de Biarritz. Ainda faltavam uns km para Biarritz, mas estacionamos o veículo na rua de acesso para um parque de campismo, mesmo ali no meio da rua, onde aliás já lá se encontravam outros “desalojados”.

15-08-2003
Como diz a lei acordamos cedo e arrumamos tudo, procedemos aos tramites tradicionais, pequeno-almoço, gasoleo, mantimentos, etc.

Bom este pequeno-almoço foi tomado na praia, onde encontrámos outros “desalojados” que tinham optado pela solução praia-saco-cama… Como havia mais tempo livre, finalmente pegou-se num alicate e um pedaço de arame e resolveu-se a situação da mola da bomba injectora.

Estamos prestes a entrar nas montanhas dos Pirinéus. Visita à cidade de Pau e pernoitamos num Camping Rural perto de Lurdes.

A máquina insiste em abrir a porta do pendura em andamento, e o pedal dos travões inspira algum cuidado.

16-08-2003
Foi uma noite de chuva, onde o iglo não se revelou muito eficaz, estávamos em plenos Pirinéus…
Uma visita às Grutas de Betharram, Lurdes e Pont d’Espagne.

Subimos às montanhas com 2110m de altitude, e passamos a fronteira para Espanha.

17-08-2003
Mais uma manhã chuvosa, mas desta vez menos intensa.

Seguimos caminho a tentar fugir da chuva, e finalmente conseguimos. Estávamos a entrar em Andorra!!!

Fomos cedo para o parque de campismo, para por a “casa” a secar…

18-08-2003
Finalmente encontrámos uns trilhos para percorrer nas encostas das montanhas de Andorra.  Atingimos o pico Maia a 2700m de altitude, deslumbramos a paisagem e os cavalos selvagens…

Faltava agora atravessar mais umas montanhas para atingir a costa mediterrênea francesa.
Finalmente chegados ? costa via-se umas nuvens bastante carregadas a sul, adivinhava-se uma “Burrasca”, tempestades típicas nesta zona. Mais uma dificuldade os parques de campismo encontram-se cheios ou com preços proibitivos, pelo menos para nós. Solução rumar ao interior e procurar algo mais económico. Encontramos o parque Saint Marie, onde fomos muito bem recebidos, e muitíssimo bem colocados, cerca de 100m2, animação nocturna, bares, etc…


19-08-2003
A chuva finalmente deu tréguas. Hora de tratar do bronzeado, e refrescarmo-nos nas águas quentes do mediterrêneo.


Bom ,estava a correr bem Montanha, praia, chuva…. faltava uma pitadinha de África para avivar a viagem…
Nem mais, Reserva Africana em Sigean… A primeira parte da visita ? feita de carro, com leões, zebras, girafas, avestruzes, ursos, macacos, etc, tudo numa pequena savana em pequena escala.

 

A segunda parte da visita é feita a pé, para ver as espécies mais pequenas, crocodilos, elefantes, tartarugas, cobras, diversas aves, etc…

Gostámos tão pouco, tão pouco, que fomos os últimos a sair da reserva….


Logo à saída existe um parque de campismo simpático para pernoitar, e foi isso que fizemos.

20-08-2003
O tempo começa a escassear, e é hora de fazer alguns km, chegamos a Sete ao fim da tarde onde repousámos na praia… Contas feitas e estávamos a metade do tempo disponível de férias…


Decidimos então no dia seguinte iniciar a viagem de regresso, para gozar ainda as praias do norte de Espanha. Fomos ainda interceptados numa fila de transito por um emigrante português, que fez questão em nos cumprimentar e dar dois dedos de conversa. Desta vez o parque de campismo era barato, mas algo inclinado, o que nos obrigou a engenhar alguma forma de colocar o carro nivelado, para não cairmos abaixa da “cama”.


Delineia-se a rota de regresso para o dia seguinte e retiramo-nos para descansar…

21-08-2003
Antes demais fomo-nos refrescar à praia, e de algum modo despedirmo-nos desse mar maravilhoso que é o Mediterrâneo.

Seguimos por estradas principais até Toulouse, e fizemos uma boa média tendo nesse dia atingido Nauch. Mais de metade da travessia de França estava concluída. O que previa no dia seguinte gozar uma praia, só não sabíamos se Francesa ou Espanhola.  Esta é uma das vantagens deste tipo de férias sem objectivos.

22-08-2003
Desta vez a paisagem era muito semelhante ? do nosso Alentejo. Atingida a costa francesa começamos a procurar uma praia, mas estas estavam cheias de gente, e sem grandes sítios para estacionar. Fomos prosseguindo e j? entramos em Espanha, um descuido e a m?quina acusa falta de combustível… Como de costume nunca há uma bomba quando precisamos dela, a controlar o gasóleo iniciamos a busca, por fim encontramos uma e pelos cálculos, o depósito só devia ter 2 a 3 litros, foi mesmo por pouco… Como a temperatura já estava mais baixa (28?) apostámos em nos dirigir directamente para um parque de campismo do que ir para a praia, pois devido à experiência anterior, parques de campismo só depois de Bilbao!!! Mas mesmo antes de chegar a Bilbao encontramos um parque numa encosta com vista para o mar…

23-08-2003
Saímos do parque de deparámo-nos com uma placa a dizer “Playa a 800m”, toca a seguir a indicação… Foi um verdadeiro troço TT, com uma trialeira e cruzamento de eixos, enfim parece que a placa era para quem fosse a p… A noite aproximou-se e já  tínhamos jantado, era hora de ver as fotos da viagem, responder a uns SMS dos amigos, e fazer os telefonemas da praxe.

24-08-2003
Subimos ? Ermita Virgen de las Nieves, onde tivemos que fazer um trilho a pé, a paisagem era fantástica.

Prosseguimos viagem sempre junto à costa, e a certa altura no mapa do GPS apareceu uma pequena estrada que ia at? ao mar, não pensámos duas vezes e fomos explorá-la. Grande surpresa o mar era como um rio que entrava serpenteando pela costa dentro, onde criou pequenos nichos na rocha com areia. Era uma praia frequentada pelos locais, uma vez que n?o existiam indicação na estrada nacional. Cada um desses nichos era ocupado por uma família que levava o farnel e ali passavam o dia. Gostamos tanto do que vimos que não resistimos a desfrutar do mesmo. A água era calma e cristalina, a vegetação envolvente era selvagem, parecia um pequeno paraíso…

 Mas ainda havia mais por descobrir, assim que começamos a nadar por este “rio artificial” em direcção ao mar encontramos uma praia enorme, fomos explorá-la e verificamos um pormenor curioso, só havia dois tipos de acesso a esta praia, a nado ou rapel… Já que estávamos perto, demos um salto aos Picos da Europa

25-08-2003
Percorremos algumas das estradas dos Picos da Europa, uma vez que os trilhos estavam todos fechados, e ao final do dia seguimos para um parque de campismo…

 

Ficamos um pouco desiludidos com os Picos da Europa, porque depois de ver os Pirinéus, estes não nos mostraram nada de novo. E já cá faltava a chuva, exactamente no momento em que começamos a jantar, mas felizmente parou assim que o jantar ficou pronto, não nos obrigando a comer dentro do carro.

26-08-2003
Finalmente acordamos com um sol radiante. Dirigimo-nos para a praia para apanhar algum sol. Fizemo-nos a caminho, e reparamos num valor curioso no GPS, este marcava que a velocidade máxima atingida era de 103Kmh, seria um sinal de vontade de retornar a casa????

 

Pernoitámos num parque de campismo, onde encontrámos duas aventureiras portuguesas de Lisboa que se dirigiam para os Picos da Europa que aproveitámos para trocar impressões de viagem.

27-08-2003
Mais chuva… Saímos do parque pela manhã em direcção a La Coruna sempre junto à costa. Recebemos notícias dos nossos amigos de Portugal e estão à nossa espera, a vontade de regressar a casa aumenta.

28-08-2003
Desta vez como se a chuva não chegasse dormimos no meio de uma tempestade com vento forte junto ao mar. Definitivamente o iglo não é compatível com estas condições climatéricas. Um banho quente e fizemo-nos à estrada.

Numa paragem num Hipermercado para reabastecer de mantimentos, aconteceu uma situação caricata. Na entrada não tinha indicação de limite de altura, pelo que entramos e estacionamos o carro para irmos às compras. No próprio parque existia uma bomba de gasolina, mas para abastecer era preciso passar por um parque coberto com 2m de altura. Falamos com o responsável, e este disse-nos para entramos na bomba de marcha–trás. O melhor ainda estava para vir. Para sair do parque do Hipermercado era necessário passar pelo parque coberto (2 m). Solução lá teve que um de nós parar o transito na entrada do parque para que se podesse sair em contra-mão. A chuva continua a fustigar a nossa viagem, aproxima-se a fronteira Portuguesa, a ânsia de chegar aumenta, e não resistimos a gritar de alegria assim que pisámos solo lusitano.

Não era só as saudades de casa, da família ou dos amigos, era a saudade da língua, dos cheiros, e acima de tudo a sensação de missão cumprida. De referir um aspecto negativo da viagem, em tantos km de viagem só vimos um acidente rodoviário e foi logo após entrarmos em Portugal.

Tínhamos amigos à nossa espera para ouvir as nossas histórias, que melhor recepção podíamos ter no fim desta viagem.
Em jeito de conclusão, não interessa o que os outros digam, é preciso acreditar, e fundamentalmente ir, nem que seja sozinho.

Esta é a história na nossa viagem, estou certo que muitos mais por aí gostariam de fazer viagens mas falta-lhes alguma coisa…

Acreditem e vão…. depois contem com foi.

Hugo Abreu & Isabel Costa