Marrocos 2001

A nossa primeira aventura Africana (primeira de muitas esperamos)!
Certo dia, estava a contar as aventuras da viagem que tinha feito ao longínquo Nordkapp quando a ouvinte, respeitável representante de uma geração mais antiga exclama, esta geração sente uma enorme “nostalgia de aventura”.

Na altura pouco liguei a esta afirmação, mas de facto é verdade, hoje em dia, a maioria de nós vive em razoável equilíbrio, com as necessidades básicas asseguradas. A sociedade impõe-nos um pack de preconceitos e oferece-nos uma estrutura social escrupulosamente organizada, o que não nos dá grande margem para voos aventureiros ou actos heróicos. De facto, longe da luta pela sobrevivência dos nossos ancestrais antepassados e das lutas políticas e estudantis dos anos 70, temos de procurar outras aventuras, outras formas de conseguir a viciante e amada adrenalina!


Foi então com o objectivo “Aventura” que nos decidimos a partir para Marrocos! Mas ir para Marrocos só por ir não chega! As viagens “de pacote” (é só juntar água…) nada nos diziam e o objectivo era conhecer uma cultura diferente, procurar o verdadeiro Marrocos, puro e inalterado fugindo às grandes rotas turísticas, sentir e respirar o deserto e todas as suas dificuldades, atravessar as inóspitas montanhas do Atlas, percorrer fantásticos desfiladeiros e regressar à Europa sempre junto à costa Atlântica circulando em belas praias desertas!!


O grupo 7 jovens estudantes com os trocos contados mas cheios de vontade e espírito de improviso, verdadeiros aventureiros em estado puro.

Juntamente com as paixões por aventura e pela Natureza, partilhamos também outra paixão comum, os Land Rover antigos. Para nós o Land Rover (dos antigos) é um símbolo de liberdade, um modo de desfrutar a vida e todos os aspectos da mobilidade e, como não podia deixar de ser, ficar atascado nos locais mais inacessíveis que se possa imaginar. Gostamos do prazer da condução pura, “sem corantes nem conservantes” que estes carros proporcionam, da sua polivalência e facilidade de manutenção.

Para nós, Land-Rover tem sempre um cariz de Aventura, e até um cariz de África.

Devido ao nosso fundamentalismo em relação a estes carros, somos frequentemente alvo de piadas por parte dos nossos amigos que conduzem carros “normais”. Para acabar com as piadas dos nossos amigos, e mostrar que velhos são os trapos, utilizamos 3 Land Rover com mais de 20 anos e um Range Rover já bastante batido, sendo que a média de idades dos carros anda muito próximo da média de idades dos seus condutores.

A viagem:

1º dia 21/2/2001 Quarta-feira
Depois de muitos meses a sonhar com a partida, o tempo começava a faltar! O fim dos exames não era compatível com o exigente trabalho de preparação dos LR para os 15 dias de férias que se seguiriam e para os 4500 kms de “maus tratos” que iríamos infringir aos já pouco poupados SIII!… Mudar lubrificantes, verificar folgas e casquilhos, afinar bombas de injecção e injectores, limpar radiadores, etc… A lista era infindável e só com a chegada da hora de saída é que lhe começamos a ver o fim! Depois dos últimos jerricans serem carregados e os autocolantes dos patrocinadores colados estava tudo pronto para sairmos.

Chegamos a Alter do Chão onde pela primeira vez estariam todos os elementos juntos.

2º dia 22/2/2001 Quinta feira
Depois dos preparativos e stresses do costume, lá partimos na madrugada de dia 20 um pouco apreensivos em relação à mecânica. Kilometro a Kilometro a tranquilidade vai-se apoderando de todos, mas foi sol de pouca dura, a meio do dia já na vizinha Espanha, surge o primeiro percalço numa das “máquinas”. Resultado, cerca de duas horas de mecânica “insistida” para trocar um retentor. Enfim…


Ultrapassado o “problema”, seguimos viagem rumo a Tarifa onde chegámos por volta das 23h. Foi procurar a praia, desenrolar sacos-cama e dormir ao relento!!! excelente hotel de infinitas estrelas!!

3º dia 23/2/2001 Sexta-feira
Depois de uma noite bem dormida o dia começou cedo e partimos para o cais de embarque em Algeciras.

Após as formalidades de embarque, seguimos no Ferry até Ceuta, onde desembarcámos 40 minutos depois.

Rumámos em seguida em direcção à fronteira marroquina onde começaram os inevitáveis “melgas”, guias para tudo e mais alguma coisa.

Resolvidas as burocracias fronteiriças e desprezados os melgas lá entrámos por fim no tão desejado reino de Marrocos.

A entrada foi um tanto ó quanto assustadora! Muito lixo…muita confusão…muito mau aspecto!

Em direcção a sul apercebemo-nos que passávamos numa região extremamente rica em…droga! Cidades feias, sujas e acaracteristicas sucediam-se enquanto começávamos a imaginar como seria o resto de Marrocos. O norte é tudo menos representativo do verdadeiro Marrocos, tanto a nível das pessoas como a nível do aspecto geral do país…

Sem demoras partimos rapidamente (60-70 Km/h) e por volta das 20h chegámos ao camping onde recuperámos energias.

4º dia 24/2/01 Sábado
Quem vos avisa vosso amigo é: Evitem os parques de campismo sempre que possível, em duas palavras: são terríveis. Primeiro e ultimo!

Partimos rumo a Azrou, passando por Meknès, e entramos na mágica e secular Floresta dos Cedros onde, para além de contemplar a belíssima paisagem, aproveitámos também para abastecer os jipes de lenha que iria durar ate a um posto fronteiriço junto a fronteira com a Argélia, mas isso é outra historia…

A aventura começou realmente na Floresta dos Cedros. Planaltos de perder de vista a 2000m de altitude cumeadas por densas Florestas de Cedros seculares e salpicados por alguma neve fizeram-nos esquecer dos lentos Kms de estrada que tanto para nós como para os nossos Land Rover pareciam não ter fim. Já estava a valer a pena e ainda não tínhamos visto as areias do deserto e as infindáveis pistas que nos levaram a sonhar com Marrocos durante tanto tempo. Marrocos estava a revelar-nos uma faceta que desconhecíamos e que é esquecida por todos aqueles que escolhem Marrocos como destino de ferias a bordo de um 4×4. A densa Floresta de Cedros esconde paisagens de sonho, rios e ribeiras de águas tanto límpidas e geladas, excelentes nascentes, paisagens de sonho…

Seguimos caminho por um extenso e belo planalto onde fomos sempre interceptados por crianças aparecidas não se sabe bem de onde, que imploravam qualquer coisa. Umas, as que mais nos marcaram a todos, nem falavam, apenas emitiam sons, ofegantes, implorando algo.

Com o cair da noite, escolhemos o local para acampamento e começamos os preparativos para um serão em grande! Começámos com uma óptima ementa: bacalhau assado com batatas; um agradável serão à fogueira, em amena cavaqueira.

5º dia 25/02/01 Domingo
Por volta das 6h da manhã acordámos com uma música Berbere, trazida pelo vento, que não conseguimos localizar mas que nos deixou um pouco apreensivos a princípio, porque nos julgávamos isolados.

Depois da azáfama do costume (desmontar tendas, arrumar tudo, tomar o pequeno almoço e depois dos raros momentos de higiene pessoal) continuámos a rota pela Floresta dos Cedros. Logo que encontrámos água e decidimo-nos por um banho num cristalino ribeiro de águas gélidas.


Seguimos viagem rumo ao desejado SUL e a paisagem muda radicalmente, a floresta desaparece e dá lugar à aridez dos grandes espaços. Aqui, em vez de rumar directamente para Er-Rachidia, vamos mais para o interior e ficamos boquiabertos pela paisagem. Nesta região sentimos pela primeira vez como são os verdadeiros marroquinos. O contacto com as gentes é puro, sem interesses e a hospitalidade e gentileza deste carenciado povo é ainda genuína.


Ao serão estávamos nós já devidamente instalados e em redor da fogueira a grelhar umas deliciosas costeletas de borrego quando, aparecidos do nada e, sem qualquer tipo de ruído, surgem dois nativos Berberes que, amigavelmente, nos convidam em fraco francês a saborear um chá de menta.

Depois de criada alguma empatia ali ficamos ao redor da fogueira a trocar experiências e conhecimento. Passadas algumas horas os Berberes convidam-nos a pernoitar em sua casa. Gentilmente recusámos mas aceitamos um segundo convite para um encontro bem cedo em casa deles para saborear outro chá.

Estávamos fascinados, nunca pensamos ter o privilégio deste tipo de contacto, pensávamos que hoje em dia já não havia essa possibilidade, já não havia gente assim!!!

6º dia 26/02/01 Segunda-feira
Acordámos um pouco mais cedo do que o habitual e arrumámos tudo rapidamente porque o chá esperava por nós na casa dos nossos “amigos”. A casa consistia em 3 divisões, construídas de um composto arcaico de barro com palha!

Aí chegados tivemos uma calorosa recepção e fomos conduzidos para uma divisão que tinha um bonito tapete no chão e onde colocaram cobertores para nos sentarmos.

Sentámo-nos e foi servido o chá. Mas algo mais estaria para vir, algo que decerto não esperávamos.

Quando nos preparávamos para sair, somos convidados a ficar mais um pouco porque estavam a cozer um delicioso pão para nós. O pão acabado de fazer era molhado em azeite e regado com um doce chá de menta. Divinal!!!

Fomos depois tirar umas fotos com eles e com as suas cabras das quais eles têm grande orgulho e as quais lhe dão o único rendimento da família. Trocámos presentes e já com saudades da hospitalidade comovente vivida partimos. E só de pensar que na véspera desconfiámos que fossem ladrões coramos de vergonha…

Seguimos por pista em direcção a Erfould e somos interceptados por um camião do exército que nos impediu de prosseguir caminho por se tratar de território interdito. Mudámos então a rota rumo ao nosso destino.

Conscientes que estávamos a viver dias privilegiados deparamo-nos com uma paisagem no mínimo exótica, no meio de uma zona completamente árida e plana, chegamos a um fértil desfiladeiro repleto de verdejantes palmeiras. Um choque foi passar do deserto para um calor húmido que nos fez lembrar as zonas tropicais.

Em Erfould estudámos a viabilidade de realizar a ligação Merzouga- Taoz- Zagora por uma pista supostamente interdita junto à fronteira com a Argélia.

A caminho de Merzouga encontrámos uma caravana de portugueses com os quais travámos desde logo conversa.

Seguimos depois por caminhos diferentes mas chegámos ao mesmo tempo às dunas.

Uma vez aí chegados…1º passo: esvaziar pneus. Os “Tugas” partiram logo cheios de gás mas logo se atascaram. Pensámos logo: “C’ est très dificil!”! Mas, os nossos SIII logo nos surpreenderam e superámos o 1º obstáculo.


Seguimos dunas fora até Merzouga.

Lá chegámos e rapidamente encontrámos umas espectaculares dunas com alguns metros de altura para transpor em velocidade. Numa duna que se revelava mais dificil, o Bernardo resolve ir embalar o excelente lightweight recentemente desmobilizado do exercito holandês e pouco habituado a grandes alturas e declives! Resultado, atingiu a base da duna a 80 Km/h (!!!!!!!só acredita quem quer!!!!!) e qual Ícaro, levantou voo. Impressionante, o Lw salta cerca de 5m em comprimento e 1.5 em altura e aterra com uma souplesse digna de um qualquer bólide do Paris-Dakar!!

Na emoção do salto, um local “ALI”, oferece-nos acampamento ao lado do seu albergue e presenteia-nos com uma animada sessão musical com vários tambores e outros instrumentos!

7º dia 27/02/01 Terça-feira
Acordámos com as dunas como cenário. Tínhamos como objectivo para este dia atravessar o Erg-Chebbi, uma vasta cordilheira de dunas entre as quais está uma das mais altas do mundo e visitar um oásis que fica do outro extremo.


Depois de algumas tentativas frustradas para o Gonçalo superar uma duna teimosa (já vencida pelos Series) com pesado RR, este resolve acatar o conselho do pessoal: DÁ-LHE GÁS!!! gritávamos todos!! Então o Range embala e ao embater na duna em velocidade fica rapidamente com a frente “melhorada” sem a parte debaixo do pára-choques! Um dos faróis de nevoeiro nunca foi encontrado…

Primeiro obstáculo: Duna 1- Gonçalo 0

Depois de ouvir atentamente os sábios conselhos de Ali, partimos entusiasmados e, passado pouco tempo atascámos fortemente exactamente onde ele disse para não irmos.

Subimos, descemos, atascámo-nos…voltámos a subir… tivemos várias eminências de virar as “máquinas”… e assim se passou um maravilhoso dia nas dunas. Os Series estiveram em todo o seu esplendor e apesar dos cansados 60 C.v. e dos pneus de lama subiram tudo o que deu na gana dos seus donos proporcionando momentos de sublime prazer!

De regresso a Merzouga fomos invadidos por uma nuvem de crianças que nos pediam qualquer coisa, de preferência para comer!


Houve ainda tempo para uma sessão de 1ºs socorros já que uma pequena marroquina se magoou e fomos chamados a intervir. Foi só puxar da mala e o Renato entrou em acção.

Foi então altura de dizer adeus à bela Merzouga e fomos mais uma vez “atacados” por uma multidão de crianças que imploravam bolachas.

Com o pôr-do-sol como cenário, partimos em pista em direcção a TAOUZ.

Aí chegados fomos abordados por um monte de gente que se diziam autoridades. Depois de devidamente identificados fomos então conduzidos ao posto de controlo militar onde tivemos de responder a um
extenso interrogatório.

Posto isto fomos então autorizados a prosseguir caminho, sempre por pista com o objectivo de navegar até Zagora pelas confusas pistas onde passou este ano o Paris-Dakar.

Depois de muito andar, por vezes em estrada em muito mau estado, decidimos parar para dormir em sítio incerto, algures na pista junto à fronteira argelina.

8º dia 28/02/01 Quarta-feira
Depois das aventuras do dia anterior e rendidos ao cansaço que nos consumia , ficámos a dormir até mais tarde.

Foi altura de fazer uma revisão aos carros para ver os estragos do dia anterior. Apenas um tubo de injector tinha sucumbido às elevadas rotações impostas pelas dunas!

Arrancamos e embrenhamo-nos no deserto, completamente fascinados gozamos como uns perdidos as imensas pistas paralelas e os leitos dos rios. Que gozo!!! Passamos por algumas povoações com grandes carências onde somos invadidos por pessoas que nos pedem medicamentos e por um homem que nos mostra a sua filha de 6 anos com uma otite em avançado estado de desenvolvimento. Lá lhe damos uma carrada de comprimidos com indicações escrupulosas para a sua administração e partimos impressionados.

Numa zona mais confusa ficamos um pouco desorientados e um pastor de bicicleta (dizia ele, porque nós não víamos nada que se parecesse com gado num raio de talvez 100 Km) ofereceu-se para ir connosco indicar o caminho. Passados cerca de 40 min, a pobre alma manda-nos parar, diz-nos que a parte confusa já acabou, indica-nos o caminho a seguir e apenas com 1 T-shirt, 2 chocolates e um pouco de água fica todo contente regressa a pé pelo tórrido deserto até à sua bicicleta que havia ficado perdida no meio das palmeiras!


Com o cair da noite o inevitável acontece, perdemo-nos algures junto à fronteira com a Argélia. Segundo o G.P.S. devimos estar a chegar a uma pequena povoação chamada Agoult, só que desta, ate onde a vista alcança, nem sombras. Caída a noite e sem qualquer noção das distancias resolvemos acampar em cima de uns montes que eram já ali, andamos cerca de 5 min a 60 Km/h até percebermos que os vultos escuros que víamos não eram dunas “já ali” mas sim distantes montanhas provavelmente já em território argelino. Decidimos então subir para os tejadilhos dos jipes e em silêncio tentar ver ou ouvir qualquer coisa. Foi então que vimos o que nos parecia ser uma fogueira ou uma luz de um candeeiro de petróleo. Determinados descemos dos jipes e arrancamos em direcção à “fogueira” para tentar obter algumas informações sobre a localização de Agoult. Quando arrancámos a “fogueira” apagou-se rapidamente. Desapontados parámos e concluímos que devia ser algum nómada que estava acampado e quando viu as luzes dos jipes em direcção a ele teve medo e apagou a fogueira para se esconder na escuridão. De repente a “fogueira” volta a acender-se e nós perplexos arrancamos a todo o gás em direcção à estranha luz. Este processo repetiu-se mais algumas vezes até que começamos a pensar que era alguém com um candeeiro a gozar connosco, já um pouco apreensivos devido à proximidade com a hostil Argélia resolvemos arrancar em direcção à “luz” e andar o que fosse preciso até esclarecermos o problema. Andamos cerca de 20 minutos e a misteriosa luz amarelada começou a separar-se em duas e a tomar forma de faróis de automóvel. Nasceu então a nova teoria de que a luz era um automóvel que percorria uma zona com dunas e cujas luzes ora eram visíveis ora submergiam e desapareciam. A toda a velocidade interceptamos o automóvel que afinal era um UNIMOG do exercito, que com poucos modos nos pediu (obrigou) a acompanha-los a um posto militar para mais um interrogatório. Depois de algum tempo no posto militar fronteiriço deixam-nos partir com a condição de lhes cedermos algum gasóleo. Contrariados já que com tantas voltas a nossa autonomia já estava bastante comprometida lá cedemos uns litritos para o UNIMOG e prosseguimos para acampar pouco mais à frente num local indicado pelos guardas como tendo a única árvore num raio de largas dezenas de kilometros.


A meio dessa noite acordei e saí da tenda. Observei então um espectáculo único, o céu era um globo estrelado de 180º que me reduziu imediatamente à dimensão dos grãos de areia onde estava deitado! O céu estava tão limpo que pude observar um satélite a passar e o silêncio, puro e absoluto quase que me esmaga os ouvidos e bloqueia-me o pensamento! Mais uma vez sinto-me privilegiado por poder assistir a tal espectáculo!

9º dia 01/03/2001 Quinta-feira
De manhã acordamos e olhando em volta compreendemos a dificuldade em avaliar as distâncias da noite anterior, à nossa volta a imensidão é tal que podemos constatar a curvatura do globo terrestre!! Apenas uma inesperada e desagradável surpresa nos estraga tão bela paisagem. Revoltados vislumbramos um enorme saco de lixo na areia. Ao dirigirmo-nos para o local interrogamo-nos, quem no mundo é que tem a falta de civismo necessária para deixar um saco de lixo no imaculado deserto onde nos encontramos? Ao chegar ao local um profundo sentimento de vergonha e indignação instala-se-nos na alma, o lixo era português. Latas de cerveja e atum, etc. confirmavam os nossos receios, a coluna de jipes portugueses que ali passara no dia anterior tinha deixado para trás o seu lixo. É INTOLERAVEL!!!

Não tenho palavras para descrever o profundo sentimento de revolta. PORCOS!!! É uma falta de educação e não tenho palavras para expressar quanto acho essas pessoas completos !!#??….enfim é como remar contra a corrente….

Em seguida, tomámos o pequeno-almoço e procedemos à limpeza do campo, coisa que os nossos camaradas portugueses que por ali passaram antes, não fizeram.

Seguimos em direcção a ZAGORA, sempre em condições difíceis devido ao mau estado da pista e das constantes pedras que insistiam em torturar os nossos já cansados Land Rover!

Chegamos a Zagora com um sentimento de vitória, “we are the champions….” cantarolávamos!! Assim que entramos nas primeiras casas nos arredores de Zagora surge-nos um indivíduo de motorizada a dizer que se chamava Mohamed Land Rover a oferecer os seus serviços em tudo o que fosse mecânica, dissemos que não precisávamos de nada e o indivíduo veio persistentemente atrás de nós até descobrir que o Range tinha um amortecedor rebentado. Lá fomos até à oficina do artista e ficamos maravilhados, ele tinha tudo e desenrascava tudo o que fosse preciso, incrível!!

Depois de uma volta pela cidade decidimos almoçar num restaurante típico onde comemos uma pizza berbere ( ou melhor, uma omelete, aqui para nós!!!). Ficamos numa esplanada para ficar de olho nos carros. Convencidos que nada se tinha passado regressamos para partir rumo a Ouarzazate. Qual o nosso espanto quando descobrimos que nos tinham roubado os autocolantes do lado dos carros que não estávamos a ver !!

Saímos rumo a oeste em direcção as Atlas passando pelo vale do Draa

10º dia 2/3/2001 Sexta feira
Depois de uma noite dormida numa tenda comunitária já nas encostas do atlas, sentados em tapetes e rodeados de almofadas resolvemos atalhar o percurso que tínhamos previamente estabelecido, saltando a volta pelo vale do e deixando os spots de escalada para uma outra oportunidade. O tempo não estica é pena!! Desde logo fizemos a promessa que na próxima ida a Marrocos não deixaríamos de explorar este vale e que teríamos de fazer a ascensão ao Tubckal a 4070 m de altitude. Fica para a próxima…

Ala que se faz tarde porque segundo os nossos actuais planos teríamos de estar um Marrackeche antes do anoitecer para entrarmos na cidade imperial com ainda com luz do dia.

Nada mais errado. Depois de uma tempestade de areia que arrancava arvores, diminuía drasticamente a visibilidade e fazia com que os nossos já lentos LRs parecessem estarem parados, tivemos todo o tipo de percalços… Filtros de gasóleo entupidos, furos e mesmo uma falta de combustível já a chegar, fizeram com que a nossa chegada a Marracheche fosse o mais chocante possível!!

Sem darmos por isso estávamos nas ditas zonas interditas para turista e completamente perdidos, rodeados de sentidos proibidos que nos faziam dar voltas sem chegar a ligar nenhum! Bonito… Com a ajuda de um “prestável” marroquino, que em troca de alguns dirams nos levou por becos, sentidos proibidos e sinais vermelhos ate ao nosso destino mesmo na praça????? em frente ao efervescente mercado. Suspiramos de alivio ainda meios confusos com o completamente anárquico transito. O transito de Lisboa comparado com este parece o de uma pequena vila com meia dúzia de carros!

Arranjar alojamento e jantar. Depois de tantos dias sentados ao volante por caminhos poeirentos um “banho” de civilização só nos fazia bem.

11º dia 3/3/2001 Sábado
Um dia de total calma a vaguear sem destino certo pelas confusas ruas de Marrakeche. O mercado é simplesmente fabuloso com cheiros, sons e cores totalmente indescritíveis.


Ao fim da tarde rumamos para a costa em direcção a Essauira. Foi uma etapa curta e rolante sem percalços a assinalar. Muito embora o nosso objectivo fosse dormir na praia, naturalmente que assim que chegamos um Marroquino nos “vendeu” uma cama. Verdade seja dita que não oferecemos muita resistência a uma cama com lençóis e a uma banheira para um verdadeiro banho!

12ºdia 4/3/2001 Domingo
Mais um dia de moleza a passear pela bela cidade de Essauira onde não resistimos aos encantos da praia, ao cheiro a mar e ao fresco vento do Atlântico. Visitámos o oponente forte português onde ainda se encontram muitos canhões com o escudo e as quinas.


Tal qual um Paris Dakar acabamos a ultima etapa pelas areia da praia fazendo os últimos kms com o mar a “lavar” os nossos cansados mas orgulhosos Land Rover

O último furo foi remendado numa pobre aldeola perdida junto ao mar onde todos nós ficamos espantados como se afinal se conseguem fazer “omeletes sem ovos”! Numa pobre oficina sem electricidade o pneu foi descolado da jante por uma prensa manual e arcaica e depois desmontado com unas barras de ferro tipo desmonta. Depois foi altura de por o compressor a trabalhar. Compressor isto é, uma garrafa de gas onde por cima foi acoplado uma rústica bomba de ar e um motor de explosão de uma mota-serra?… Após o motor estar a trabalhar era necessário ligar o motor á bomba. Uma velha e gasta correia era montada já com o motor a trabalhar… Enquanto a bomba começava a rodar o motor soluçava e engasgava-se deitando fumo por todos os cantos. Para vulcanizar o remendo fazem-se umas brasas e aquece-se uma barra de ferro que depois se prensa com um macaco hidráulico! Depois e só montar a câmara e o pneu,… a marretada naturalmente!! Só visto!!!… no fim a operação durou 40 minutos e o gentil mecânico pede 10 dirams!

13º, 14º e 15ª dias
Só kms, kms, kms, kms para chegar a casa…

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